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A análise de documentos processuais possibilita reunir uma grande quantidade de informação relacionada com o fenômeno do abuso sexual infantil e seu contexto no Poder Judiciário. Os processos penais, consultados no presente trabalho, apresentam, concomitantemente, características semelhantes e concorrentes, oferecendo parâmetros comparativos das diferentes formas de atuação profissional e a interferência destas nos procedimentos judiciais. Tais documentos evidenciam a representação dos operadores do Direito relacionada à criança vítima de abuso sexual e como tal fato contribui para que esta tenha credibilidade no contexto judiciário, traçando uma trajetória histórica da evolução multidisciplinar da instituição judiciária.

Os dois casos judiciais exemplares estudados neste trabalho apresentam em seu conteúdo um conjunto de ações que descrevem as dificuldades reais enfrentadas no contexto judiciário, no qual também se inclui o contexto policial, relativas ao abuso sexual infantil e a necessidade de alterações efetivas no atendimento à criança-vítima. Os trâmites judiciais são necessários e complexos, ainda que se diferenciem sutilmente entre as Comarcas e as relações de trabalho estabelecidas em cada Fórum, sendo comum nas cidades do interior a rotatividade de Juízes e Promotores que impõem ritmos de trabalho distintos e, conseqüentemente, produções documentais também diferenciadas.

Há uma constância de terminologias empregadas nos Boletins de Ocorrência e nos depoimentos nas Delegacias de Polícia, que revelam um discurso que não é o da criança, mas

o do interlocutor. As inquirições são descritas sem um esclarecimento acerca das condições em que foram realizadas as entrevistas investigativas, não deixando de salientar, contudo, que foram realizadas na presença do responsável legal, já que é o procedimento exigido.

A linguagem, entendida como prática social, está presente nos registros profissionais, revelando que as práticas cotidianas das pessoas são orientadas por regras lingüísticas que tendem a manter e reproduzir discursos. As práticas discursivas, bem definidas por Spink (2000) como linguagem em ação, são as maneiras a partir das quais as pessoas produzem sentidos e se posicionam em suas relações sociais cotidianas.

As práticas discursivas são constituídas pelos enunciados e pelos repertórios interpretativos, sendo os enunciados caracterizados por expressões, palavras e sentenças articuladas em ações situadas, que associadas às vozes, adquirem caráter social e se constituem em diálogos, e os repertórios interpretativos são as unidades de construção das práticas discursivas, os termos, as descrições, as figuras de linguagem e os lugares-comuns, que possibilitam diferentes construções discursivas, situadas dentro de um contexto nas quais as práticas são produzidas.

No entanto, são notáveis as evoluções das manifestações que compõem os relatórios de Inquérito Policial, os requerimentos dos Promotores de Justiça e as determinações dos Juízes de Direito frente aos casos de abuso sexual infantil. O registro contido no Caso 51, na audiência de instrução, materializa o que foi proferido acima. A audiência foi realizada em 2006, portanto é atualizada e traz a seguinte manifestação do Juiz:

Presente o Dr. Promotor de Justiça. Ausentes o réu e seu defensor. Em apartado foram ouvidas duas testemunhas de acusação. Dada a palavra ao Dr. Promotor de Justiça, pelo mesmo foi dito: M.M. Juiz, considerando que nestes crimes praticados contra crianças, as conseqüências da inquirição feita pelo Juiz de Direito com participação das partes ocasionam seqüelas indesejáveis para as menores, além do que não permite obter respostas confiáveis, requeiro que as vítimas sejam questionadas sobre os fatos através da intervenção de Psicólogo Judiciário. As perguntas da defesa e da acusação deverão ser feitas através de quesitos a serem utilizados pelo profissional, garantindo-se o princípio contraditório. A seguir pelo M.M. Juiz foi dito: Com relação ao pedido requerido pelo Ministério Público quanto à oitiva das vítimas pela Psicóloga do Juízo, determino que se manifeste a defesa no prazo de cinco dias, dizendo se concorda com o referido pedido, visando preservar as vítimas.

No caso de concordância deverá o defensor apresentar quesitos a serem respondidos pela Psicóloga Judiciária, em igual prazo. Saem os presentes intimados. Nada Mais.

Observa-se que há um movimento em relação à intencionalidade das autoridades judiciárias de preservar a criança do constrangimento e da revitimização, admitindo o desconforto e a inadequação das condições oferecidas na audiência para sua oitiva. O reconhecimento do Promotor de Justiça e do Juiz de Direito da necessidade da intervenção de um profissional habilitado e familiarizado com o trato da infância, ainda que respeitando o princípio do contraditório que exige a lei, confirma a efetiva participação responsável da Psicologia nos procedimentos afetos aos crimes sexuais cometidos contra a criança. Todavia não há regularidade e uniformidade de procedimentos que garantam condições especiais de oitiva à vítima que a protejam da exposição de sua experiência abusiva.

Os anos de atuação no Tribunal de Justiça propiciam aos profissionais a oportunidade de modificarem suas formas de atuação conjuntamente, em uma evidente historicidade de procedimentos e produção de conhecimentos. É notável a pesquisa realizada por Rocha (2006), Promotor de Justiça e mestre em Psicologia, a qual revela que o sistema de notificação do crime sexual contra a criança, o processo de responsabilização do agressor e as políticas públicas de atendimento à criança vítima seguem um fluxo que nem sempre beneficia a vítima; ao contrário, denuncia as falhas na articulação e capacitação dos profissionais que atuam no atendimento e na defesa dos direitos da criança e do adolescente. O interesse do representante do Ministério Público por tal temática exemplifica a preocupação comum aos profissionais que atuam junto ao Poder Judiciário e a possibilidade de um atendimento especializado aos crimes sexuais contra a criança que proporcionaria maior confiabilidade às decisões judiciais.

No presente trabalho, o material que serve de base para a análise procede de várias fontes, como os processos judiciais, a observação participante e as jurisprudências, entendendo-se que estas últimas são construções narrativas produzidas pelos próprios Magistrados em sua prática profissional e reconhecidas como referência pelos operadores do Direito em suas diferentes áreas de atuação. Portanto, mediante a utilização das jurisprudências, constata-se que as variâncias analíticas de cada caso ficam a critério do Juiz e do Promotor.

A seleção de dois casos judiciais analisados como ilustrativos combinados à experiência profissional pessoal e as referências jurídicas e bibliográficas obedecem a um estilo corroborativo de pesquisa. A revisão bibliográfica orientou a análise de cada fase processual, demonstrando como os diferentes procedimentos judiciais presididos pelos Juizes podem gerar distintos resultados.

A Avaliação Psicológica também está na dependência da atuação dos Magistrados e Promotores, não havendo uma regularidade quanto ao momento de sua inserção no processo judicial; porém percebe-se que a qualidade de sua redação poderá gerar ou não credibilidade ao testemunho da criança.

Os Casos 1 e 2 foram descritos e analisados, seguindo as fases dos processos judiciais a que pertencem, buscando contextualizar a criança vítima de abuso sexual e os profissionais interlocutores nos procedimentos judiciais. A exposição e discussão dos casos serão realizadas simultaneamente à análise das práticas discursivas que compõem o processo judicial, sendo descritas as diferentes intervenções e procedimentos a que a criança-vítima foi submetida desde a denúncia na Delegacia de Polícia até a sentença judicial em primeira e segunda instância.