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2. Ö NERİLER

2.2. İleri Araştırmalara Yönelik Öneriler

Se em Desenredo, como já assinalamos, o processo de desconstrução se dá principalmente pelo personagem Jó Joaquim, que cria outro enredo, em A estória do homem do pinguelo, de Estas estórias, a desconstrução fica mais evidente com a presença do narrador-copista, colocado de modo explícito na narrativa. Elementos ligados ao som, à voz do personagem vão se insinuando no texto. Resgatando o corpo, o segundo narrador tenta buscar esses elementos que se perdem na escrita, como já apontou Barthes. O texto é constituído de duas vozes narrativas e esse segundo narrador, ao pontuar a narrativa oral do primeiro, vai assinalando elementos da materialidade do significante.

Em A estória do homem do pinguelo, de Estas estórias, da mesma forma que no conto Desenredo, de Tutaméia, assistimos a um jogo polifônico: há um personagem-narrador – José Reles –, que conta o caso a um segundo narrador, que vai comentando o texto do primeiro. José Reles narra a estória de dois homens, Seu Cesarino e Mourão. O primeiro foi perdendo as mercadorias de seu comércio devido a uma enchente. Mourão, o segundo personagem, conduz uma magra boiada até o arraial por causa da seca e faz um negócio com Cesarino: dá a ele a boiada tornando-se dono da pequena mercearia. Os dois homens acabam prosperando. A prosperidade de ambos é atribuída a uma possível ajuda do homem do pinguelo que, segundo o imaginário social, costumava aparecer no arraial, principalmente em portas de vendas.

O segundo narrador, como se fosse um copista, vai “enxugando” os excessos do personagem-narrador. A estória de José Reles pertence ao plano da oralidade, texto da voz e de gestos, texto do excesso, narrativa nascente. Interessante notar que a estória do segundo narrador é apresentada em itálico, o que não acontece com o texto do primeiro. Assim, o segundo narrador vai marcando, pontuando o texto nascente, “retificando” o rascunho, isto é, o texto oral, ressaltando elementos ligados à estrutura da narrativa, à camada sonora da fala, as pausas e entonações:

Súbito acúmulo de adágios – recurso comum ao homem do campo, quando tenta passar-se da rasa realidade, para principiar em fórmulas suas abstrações. Quanto à frase in fine, quererá dizer que: o que merece especulada atenção do observador, da vida de cada um, não é o seguimento encadeado de seu fio e fluxo, em que apenas muito de raro se entremostra algum aparente nexo lógico ou qualquer desperfeita coerência; mas sim as bruscas alterações ou mutações – estas, pelo menos, ao que têm de parecer, amarradinhas sempre ao invisível, ao mistério. (A estória do homem do pinguelo, p. 158, marcação em itálico do autor).

O segundo narrador ironiza a narrativa encadeada e defende a fragmentação, a pulverização textual. O texto do primeiro narrador é comparado a uma aletria da qual ele mostra o ingrediente principal, que é o polvilho: “– A verdade letrada! Aí é que está o polvilho [...]” (A estória do homem do pinguelo, p. 158, grifos nossos). Aletria, segundo o dicionário, é massa de farinha de trigo em fios delgados. O primeiro texto se apresenta como a massa de farinha, o polvilho, que deverá ser “desfiado” pelo segundo narrador, formando a aletria, o texto pulverizado. Esse texto está presente no instante em que sai, aos pedaços, da boca de José Reles, com suas entonações, excessos que serão condensados pelo segundo narrador, que vai limpando (e recriando), como se fosse um palimpsesto, a fala do primeiro narrador:

Convém, quando possível reparar-se que o contador alterna, afetivamente, pelo menos dois tons, positivos. Aqui, em exemplo, o acento surdo recaindo sobre o “Pai”, daí por isto gravado maior. (A estória do homem do pinguelo, p. 160, grifo

em itálico do autor).

Há outras marcas apontadas pelo segundo narrador, sempre em itálico, como os silêncios de José Reles, vazios textuais que se relacionam a um texto da respiração: “pequena pausa, de fôlego”, “pausa- de circunstância” (A estória do homem do pinguelo, p. 180, 182, grifo em itálico do autor).

É importante destacar aqui a presença do itálico nas falas do segundo narrador.

Vejamos o que propõe Roland Barthes a respeito (2004d, p. 312) ao estudar a obra de Bataille:urso, o escritor põe sua marca subjetiva sobre a palavra, apontando para o apelo visu

[...] os vocábulos são palavras sensíveis, palavras sutis, palavras amorosas, a denotar seduções ou repulsas (apelos de gozo): outro morfema de valor é, às vezes, o itálico ou as aspas: as aspas servem para enquadrar o código (para desnaturalizar, desmistificar a palavra), o itálico, pelo contrário, é a marca da pressão sujetiva que é imposta à palavra, de uma insistência que substitui a sua consistência semântica (as palavras em itálico são numerosíssimas em Nietzsche).(Grifo nosso).

Outras vezes, o narrador-copista de Rosa acentua a fluência da voz de José Régio. O segundo narrador, ao registrar uma escrita do corpo, ressalta os elementos orais do primeiro texto, a camada fônica, os silêncios, a entonação que são traduzidos em texto escrito. Destacando a escrita da fala, Barthes (2004d, p. 154) mostra que ela é uma “linguagem subfrásica”, que nem sempre pede um acabamento para o êxito da comunicação. Essa natureza inacabada, essa linguagem, que não tem a lógica sintática da frase escrita, está perfeitamente articulada com a estrutura da narrativa, fragmentada, “pingada”. Resgatando a linguagem oral, o segundo narrador tenta, através da fala de José Reles, evidenciar esses elementos do corpo que se perdem na transcrição para o escrito. Trata-se de “pedaços de linguagem”, modulações, apelos, expressões vazias:

Compreende-se, por estas poucas observações, que o que se perde na transcrição é pura e simplesmente o corpo – pelo meno esse corpo exterior (contingente), que em situação de diálogo, lança para outro corpo, tão frágil (ou assustado) quanto ele, mensagens intelectuais vazias, cuja única função é, de certo modo, agarrar o outro(até mesmo no sentido prostitutivo do termo) e mantê-lo em estado de parceiro. (BARTHES, 2004a, p. 4).

Sintonizando esse soletramento do oral para o escrito com o título da estória, – A estória do homem do pinguelo – esse narrador-copista funciona como uma frágil ponte, isto é, um pinguelo, que liga o que ele ouve ao que escreve. Em sua escrita, o narrador-pinguelo enfatiza o som em estado puro, a materialidade sonora da linguagem, como acontece, por exemplo, na descrição do canto dos pássaros, que “inventam vogais novas”, como se vê no texto abaixo.

A freqüência das vogais, principalmente “i” e “u”, na descrição que segue, mimetiza o canto das aves, levando o segundo narrador a um gozo dessa pré-linguagem, puro canto composto de fôlegos e pausas: Parafraseando Barthes (2004d, p. 299), ao analisar a obra de Guyotat, poderíamos dizer que aqui o autor mineiro descreve não apenas “cenas imaginadas”, mas a cena da linguagem, num deslizar de significantes. Vale ressaltar aqui a indecisão semântica da expressão “viver do bico dos pássaros”, que pode significar “comer pouco” ou “viver do canto dos pássaros”:

[...] Mas, o que no fim de cada mês me falta, a minha Nossa Senhora intéira. Com a ajuda superior, eu vivo é do que é o do bico dos pássaros...

Cujo nome é legião. Sábio seria poder seguir-se, de cor, o que eles traduzem, levíssimos na matéria. E todos inventam vogais novas. Porque os passarinhos, ali, ainda piam em tupi.

O epigorjeio, mil, do páss”o-preto, que marca a alvorada. O em fundo e eco sabiá, contábil. O contrapio segredoso do azulão. O esquerzo mero, ininfeliz, dos gaturamos. Os canarinhos repetitivos, o tine-trêmito silencional da araponga metalúrgica. [...] (A estória do homem do pinguelo, p. 157, grifo em itálico do

autor, grifo em negrito nosso).

Essa descrição do canto dos pássaros, da qual retiramos apenas um fragmento, espelha a fala de José Reles, polvilho do texto, linguagem oral, com seus aspectos sonoros marcados pelo narrador-pinguelo, formando a aletria. A relação entre o texto e a aletria nos faz lembrar o primeiro prefácio de Tutaméia, quando o narrador afirma que “A estória não quer ser história. A estória, em rigor, deve ser contra a História. A estória, às vezes, quer-se um pouco parecida à anedota” (Aletria e hermenêutica, p. 3). O gosto pelo anedótico aponta para o texto curto, condensado, narrado oralmente, fragmentado e com uma lógica que desafia o bom senso, trazendo elementos afetivos, elípticos, subtrativos, pulsionais, nem sempre marcados pela escrita, como acontece com o caso contado por José Reles. Importa ressaltar aqui que a palavra “reles” tem o sentido de insignificante. Ora, o caso que ele conta é como

uma anedota, simples, ligeira. Como texto oral, é pontuado de nicas, nonadas, traços e silêncios, com alguns “floreios”, podados pelo segundo narrador.

Este conto é como um palimpsesto, na medida em que o segundo narrador, mais econômico, raspa a narrativa do primeiro, mas ficam sempre vestígios nessa raspagem, com afirma Michel Schneider (1990, p. 71):

Todo texto literário é um palimpsesto. O autor antigo escreveu uma “primeira” vez, depois sua escritura foi apagada por algum copista que recobriu a página com um novo texto, e assim por diante. Textos primeiros inexistem tanto quanto as puras cópias; o apagar não é nunca tão acabado que não deixe vestígios, a invenção, nunca tão nova que não se apóie sobre o já-escrito.9

À proporção que José Reles narra, o segundo narrador, como um novo leitor, vai reescrevendo o primeiro texto, podando as arestas: “Aqui, um floreio deceptivo(A estória do homem do pinguelo, p. 168, grifo em itálico do autor). Há, pois, um jogo de espelhos na medida em que o leitor externo se espelha no leitor interno, que é também o segundo narrador. Ler e escrever correspondem a faces da mesma moeda. Quem lê também raspa o texto original e cria novo texto, que entra em novas combinações.

Como já afirmou Irene Simões, há algo de lúdico na disputa desses dois narradores. No início, assistimos a uma oposição entre eles, mas no final do conto há uma espécie de contaminação de uma narrativa pela outra, a ponto de não se saber mais quem é o primeiro e o segundo narrador, como se a disputa entre os dois narradores se tornasse empatada:

Os enunciados dos narradores são pontuados de provérbios e ditos sentenciosos e, curiosamente, o discurso do segundo deixa-se, pouco a pouco, influenciar por esse tipo de recurso lingüístico, pois, se no início existe uma relutância em relação ao que se ouve, à medida que a estória se desenrola, percebe-se uma contaminação da linguagem (SIMÕES, 1988, p. 139).

No plano da construção textual, há uma espécie de empate entre os dois narradores através da fusão das duas narrativa, como se o segundo, o copista, soletrasse e reescrevesse o primeiro texto, adequando-o ao seu estilo econômico e confirmando assim a estrutura de narrativa em palimpsesto, como afirmamos anteriormente. Nesse sentido, pode-se dizer que A estória do homem do pinguelo é um texto do excesso e da falta, texto do corpo, narrativa nascente, que vai sendo raspada e recriada.

9

Convém ainda esclarecer que essa escrita em forma de palimpsesto pode também ser percebida em Uma

Convém ainda fazer algumas considerações sobre o Homem do Pinguelo, ser fantástico que teria aparecido algumas vezes e sobre o qual se furta a falar:

Sobre o ser e aparecer, porém, do Homem do Pinguelo, furta-se de ainda falar.

Peremptório, recusa-se, chega a agastar-se. Saberá, decerto, que, a respeito, deva guardar o vivo silêncio, sob pena de alguma sorte de punição não-natural?” (A estória do homem do pinguelo, p. 189, grifo em itálico do autor).

Sobre esse personagem fantástico, que é mencionado no conto, afirma Irene Simões (1988, p. 138): “A ‘figura’ do Homem do pinguelo repousa sobre enigmas e a última aparição é pontuada de silêncio, o nome não é revelado no discurso reticente do narrador, como se a palavra fosse insuficiente para traduzir uma verdade primitiva.”

O Homem do pinguelo nos faz lembrar o Unheimliche estudado por Freud, que relaciona esse termo ao retorno do recalcado, oscilando entre o familiar e o estranho, que foi reprimido. Desse modo, o que caracteriza esse vocábulo é a ambigüidade. O termo Unheimliche, na sua oscilação semântica, nos lembra a natureza do fantástico, estudada por Todorov e que consiste na oscilação entre o verdadeiro e o falso. E é interessante notar que algumas referências ao Homem do pinguelo são caracterizadas através da hesitação: “Gostei, daquilo, demais. O Homem do pinguelo eu acho que estava lá, remirando a gente. Ele, às vezes, fio que costuma aparecer assim, em portas de vendas [...]” (A estória do homem do pinguelo, p. 169, grifo nosso).

O Homem do Pinguelo, na sua natureza ambígua e fantástica, sempre se furta a aparecer. No imaginário social ele existe, mas tem sua existência questionada pelo bom senso. Importa ainda marcar aqui, novamente, o significado de “pinguelo” ou pinguela, pau que serve de ponte entre duas margens de um riacho. O Homem do Pinguelo é assim esse ser ambíguo, que pode aparecer ou não. Nesse sentido, essa hesitação desse personagem se insinua na própria construção do texto, quando as duas narrativas se entrelaçam: o texto oral se funde ao escrito, e o familiar, ao estranho. Na verdade o que separa esses dois mundos é tão frágil como um pinguelo. Desse modo, ao descrever o “estranho”, a própria escrita já suscita uma estranheza.

Vale ainda ressaltar que a palavra “pinguelear” vem de pinguelo e significa pular de um lado para outro. Ora, a narrativa vai oscilando entre dois narradores, José Reles e o narrador onisciente, até que no final se integram. Há neste conto uma “escrita-pinguela”, oscilante entre o familiar e o estranho, o oral e o escrito, texto nascente, rústico, frágil,

narrativa que salta de um lado para outro, já que tem dois narradores. Essas oscilações se integram perfeitamente à “figura” hesitante e fantástica do Homem do Pinguelo, sempre nomeado, mas nunca presente, apenas suposto, insinuado pela letra: “[...] Hoje, acho que sei. Que, naquela paz de hora, devia de se ter surgido para estar ali, com a gente, o ... O desencontradiço

... O bem-encontrado ... O ... ” (O Homem do pinguelo, p. 182, grifo nosso). É importante frisar aqui que o vocábulo “pinguelo” tem relação com a palavra pingo. Como vimos, esse texto nascente do primeiro narrador é raspado pelo segundo narrador, sendo composto aos pingos, com ligeiros comentários, traços, tonalidades e pausas:

O Mourão tirou um charuto, que logo todo se esfarelou. E pegou outro: que, também, nem. E outro mais outro, que esteve ainda pior, nos dedos dele, esfiapável. Mas foi escolhendo, apalpados, achou um são. Mamou, aí, mastigou o bico, acendeu, bafou, prezou a fumação. – “Especial. Supimpa. Superior...” – veio dizendo. De repente e num túfe-te, ele desceu em cena – fechou, franco, corte, soflagrado:

O narrador se levanta:

“O senhor quer barganhar carne podre por fumo podre? Pequena pausa, de fôlego.(O homem do pinguelo, p. 182, grifo em itálico do autor).

O lúdico está presente não só na oscilação dos narradores, mas também no negócio efetuado pelos personagens ou mesmo no desaparecer e aparecer do Homem do Pinguelo. Mourão troca a boiada pela venda de Seo Cesarino. Os dois prosperam. A escrita, travessia estreita e oscilante entre leitor e autor, é um jogo, uma roda, hesitante como o Homem do Pinguelo. É o que se pode perceber no início do texto, quando o narrador afirma que “tudo se passa em ponto numa bola; e o espaço é o avesso de um silêncio onde o mundo dá suas voltas.” (A estória do homem do pinguelo, p. 155).

Escrever e ler, como a vida, é uma atividade circular, inacabável: – “Todo lugar é igual a outro lugar”, como afirma o narrador:

– Ora, vista. A gente fabulando - o vivendo. Será que alguém, em estudo, já escarafunchou o roda-rodar de toda a gente, neste meu mundo? Assim – serra acima ou rio abaixo – os porquês. Atrás de torto, o desentortado. Adiante. Todo lugar é igual a outro lugar; todo tempo é o tempo. Aí: as coisas acontecidas, não começam, não acabam. Nem. Senhores! Assim, num povoado [...]. (A estória do homem do pinguelo, p.189).

Benzer Belgeler