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1.3. İşletme Defteri Gider Sayfası

O Caso Calas foi um ponto de chegada estratégico em que Voltaire se apoiou para realizar seu projeto no qual a autonomia da razão pudesse conduzir os homens no processo histórico de suas vidas. Esse caso, por se tratar de um erro judicial da morte de um inocente e da ruína total de uma família, ocupou grande parte da atenção de Voltaire, que em tudo exigia a tolerância. Somente com a finalidade de expressar novamente o real interesse de Voltaire pela tolerância, apresentamos novamente a frase em que René Pomeau, em nota introdutória no Tratado sobre a Tolerância de Voltaire, diz: “Voltaire não esperou o processo Calas para se preocupar com a tolerância; a questão já agitava o meio em que foi criado: é notório o clima de discussões religiosas e perseguições em que terminou durante a juventude de Arouet, o longo reinado de Luis XIV”.106 Nota-se que o empreendimento feito por Voltaire em favor da tolerância já se iniciara bem antes do acontecimento do Caso Calas, uma vez que a conquista da tolerância é algo fundamental a ser realizado. Voltaire tinha por finalidade, ao defender os Calas, mostrar que era a dignidade do ser humano que precisava ser defendida.

O capítulo XIV do Tratado Sobre a Tolerância é um magnífico testemunho e um argumento poderosíssimo em favor da tolerância, pois exemplifica justamente os horrores que a intolerância faz produzir. Voltaire, ao escrever tal capítulo, mostra aos intolerantes que estes

vivem inseridos na maior contradição de suas vidas; são eles cristãos, porém, em nada seguem os ensinamentos de Jesus Cristo, que pautou sua vida na doçura e na bondade, nunca ensinando a guerra ou a intolerância. A parábola apresentada pelos livros sinóticos da Bíblia,107 a respeito do homem que convida seus amigos a uma grande ceia,108 não parece em nada conspirar em desfavor dos convidados quando esses não vieram até a festa. Esse homem que prepara a ceia é Jesus. Ele é quem deseja que os convidados façam parte da ceia, pois nela todos são aceitos sem discriminação.

O homem quando incumbe seus criados a convidar todos que encontrar pelo caminho deseja que de fato todos façam parte da festa, independente de raça, cor ou religião. Nesse relato, a frase: “Obriga-os a entrar”, como o próprio Voltaire a analisa, deve ser compreendida da seguinte maneira: roga, suplica, interceda, esforça-se ao máximo, ou seja, tolere os que se negam a vir e não use do ódio, da vingança ou da intolerância para reprimir quem não aceitar o convite para a ceia.

Voltaire analisa esta parábola mostrando Jesus como o mestre dos cristãos, a quem estes deveriam honrar. Jesus nunca pregou as perseguições contra os não cristãos e mesmo contra os cristãos; não agiu com violência e ódio quando os convidados se recusaram a vir à festa, mas apresenta-se com indulgência e decide, por sua vez, convidar outros que aceitam o convite para cear: cegos, surdos, mudos, aleijados e doentes.

Para perceber mais claramente que Jesus foi tolerante em tudo, Voltaire faz referência a outras parábolas nesse mesmo capítulo como a do samaritano e do filho pródigo109 e em nada nenhuma delas inspira o fanatismo do pensamento religioso contra as pessoas que pensam diferentemente em matéria de religião. Voltaire ainda afirma que a intolerância usa de

107 Entende-se por livros sinóticos os três primeiros evangelhos do Novo Testamento (Mateus, Marcos e Lucas),

que apresentam grandes semelhanças quanto aos fatos narrados. Os três são os escritores que contam a mesma história e feitos de Jesus Cristo, embora com algumas pequenas diferenças, mas somente quanto ao gênero literário, em nada modificando a linha de fé.

108 Lc 14, 16-24. Bíblia de Jerusalém, op. cit., 1985. 109 Id., ibid., Lc 10, 29-37; Lc 15, 11-32.

más razões e busca pretextos ínfimos.110 O capítulo XIV é significativo, sobretudo para mostrar que o espírito perseguidor dos fanáticos religiosos, por muito tempo abusou enormemente de interpretações errôneas feitas da Bíblia para justificar seus crimes. Verifica- se também, em meio à história das lutas religiosas dos cristãos, a pregação do proselitismo religioso e, junto com esse o ódio, a vingança e a morte contra aqueles que não aderiam à religião imposta.111

As consequências mais graves provindas das querelas de religião foram certamente o aumento ainda maior do ódio e da vingança, um ódio que alimentava ainda mais os corações daqueles que foram injustiçados por serem fiéis às suas consciências de fé.112 Como se percebe nunca as perseguições com pretensão de matar pessoas gerou um fim justificável. Antes, ao contrário, fizeram gerar mais perseguições e aumento considerável de mortes sem fim. O ódio só produz ódio, enquanto as atitudes indulgentes geram, por sua vez, a possibilidade de reconciliação entre os homens.

Sobre isso, Voltaire afirma, no capítulo IV do Tratado Sobre a Tolerância: “Parece- me que não é raciocinar consequentemente afirmar: ‘Estes homens insurgiram-se quando lhes fiz o mal; portanto se insurgirão quando lhes fizer o bem’”. E continua Voltaire:

Os huguenotes certamente deixaram-se tomar pelo fanatismo e manchar de sangue como nós; mas a geração presente é tão bárbara quanto seus pais? O tempo, a razão que fazem tantos progressos, os bons livros, a mansuetude da sociedade não penetrara nos que conduzem o espírito desses povos? E não percebemos que quase toda a Europa mudou de face uns cinquenta anos para cá?113

110 VOLTAIRE, op. cit., 2000, p. 86.

111 Esta religião imposta se refere certamente ao catolicismo que ainda em meados do século XVIII se arrogava

como a religião dominante. Deve-se analisar o seguinte: a religião nesta época alimentava um pensamento religioso que constituía a maior causa dos problemas das guerras de religião. A morte de Jean Calas e a ruína desta família foi causada por perseguições religiosas e a causa maior deste suplício se encontra no pensamento religioso ao qual os fanáticos estavam submetidos na época.

112 No Tratado Sobre a Tolerância, René Pomeau faz referência à perseguição contra o pastor Rochette por se

declarar um ministro da religião reformada. Sua sinceridade e honestidade com sua consciência de fé o condenam à pena de morte, ele e mais três irmãos que inutilmente tentam defendê-lo. Introdução, in VOLTAIRE, op. cit., 2000.

Verifica-se que a proposta de Voltaire, neste caso, é a de que os bons costumes da sociedade e de cada homem em si, alicerçados na razão autônoma e livre,114 possam fazer

com que estes superem a ignorância religiosa em vista de um bem maior: “o bem físico e moral da sociedade”.115 As mortes em demasia no suplício da rodas, os horrores das perseguições religiosas eram, na verdade, um retrocesso para a sociedade, pois em nada contribuíam para o desenvolvimento da nação. O “interesse das nações”,116 tão falado por Voltaire, era o fim da violência religiosa em face ao uso esclarecido da razão para a emancipação do homem em sociedade.

O Caso Calas analisado por Voltaire expressou não somente a tentativa em denunciar a religião fanática como também a possibilidade de resgatar o homem do abismo insondável a que estava submetido por seu pensamento religioso. A vida de Jean Calas foi julgada, como se sabe, pelo pensamento religioso intolerante da época. A causa maior desse crime estava na maneira como era concebida a religião e os dogmas provindos de interpretações errôneas que se faziam da Bíblia. É exatamente contra os abusos da religião que Voltaire se posiciona e tenta reformar a mentalidade de seu tempo.

No capítulo XVII do Tratado Sobre a Tolerância, na carta escrita ao jesuíta Le Tellier, se lê: “Essa execução é um corolário necessário de nossos princípios; pois, se devemos matar um herege, como tantos grandes teólogos o provam, é evidente que devemos matar todos”.117 Este trecho faz referência ao que certamente há de mais odioso em matéria de perseguição

114 O século XVIII fora marcado pelo discurso racionalista; este tinha como finalidade a ideia de emancipação

que iria conduzir os homens num caminho de superação das infâmias: superstição, fanatismo, intolerância e milagres. Os argumentos tradicionais provindos da religião ou de qualquer outra autoridade deveriam ser todos substituídos pelos argumentos puramente racionais.

115 Verifica-se que nesta época, meados do século XVIII, a maioria dos pensadores franceses, senão todos,

tinham uma preocupação quase única em relação ao comportamento moral do homem em sociedade. O problema ético era um dos temas mais discutidos e escritos. A preocupação era direcionada ao problema moral, como nos afirma Brito Broca na introdução de Pensadores Franceses (Clássicos Jackson, vol. XII. Rio de Janeiro/São Paulo/Porto Alegre: M. W. Jackson, 1948, p. VII). Voltaire quando menciona sua preocupação com o bem moral

da sociedade também certamente está influenciado por esta formação da escola de pensadores que caracterizou sua época.

116 VOLTAIRE, op. cit., 2000, cap. IV, p. 27. 117 VOLTAIRE, op. cit., 2000, cap. XVII.

religiosa. Tais menções fazem Voltaire denunciar os crimes para que a situação pudesse se reverter, uma vez que, segundo ele, a razão devia prevalecer e libertar os homens da infâmia.118

Os exemplos citados e analisados por Voltaire merecem a atenção de todos nós, leitores e estudantes preocupados com a atualidade da tolerância em nosso meio, uma vez que, por meio de tais exemplos, podemos compreender com facilidade a justiça que Voltaire desejava realizar. Escritor voraz, que, com a pena e o papel, alfinetava a arrogância dos poderosos de seu tempo, fossem os príncipes, o clero ou mesmo os fiéis partidários de uma religião incoerente ao seu papel neste mundo. Por incoerência também se pode observar o crime cometido contra Jean Calas, que se apoiava na interpretação injusta das leis, já que estas se apoiavam nas leis religiosas. Assim, se nota que o Caso Calas mereceu da parte de Voltaire um julgamento com base na verdadeira justiça e na exata forma de empregá-la. Os juízes de Toulouse, inspirados pelo furor do fanatismo religioso, não podiam ser tocados pela justiça a que as leis estavam submetidas. Eles desejavam agir e direcionar o processo para obter não a verdade dos fatos, mas a condenação de Jean Calas. No desenrolar do processo judicial, em relação às acusações contra a família Calas, transparecia a todo o momento que se tratava mais de um plano político de fundo religioso do que de um verdadeiro interesse pela justiça. Existia uma manipulação desonrosa em relação ao que se pode conceber por justo. Voltaire participa anonimamente de um concurso119 com a finalidade de questionar e modificar as leis de seu país. Claro que seu interesse aqui também era o de receber glória pessoal. Na maioria das vezes, no ambiente sócio-religioso, se utilizavam das leis para justificar crimes e mortes

118 De acordo com Maria das Graças do Nascimento: “A partir de 1759, vamos encontrar frequentemente nas

obras de Voltaire e sobretudo no lugar de sua assinatura nas cartas que escreve aos seus inúmeros correspondentes a curiosa expressão: esmagai a infâmia. Objeto da crítica e do ódio implacável de Voltaire. O que pode ser esta infâmia? Em primeiro lugar ela é o fanatismo praticado pelas Igrejas constituídas, que gera a intolerância em relação a toda opinião divergente e leva os homens a trucidarem em guerras sangrentas. Em segundo lugar a infâmia é a superstição e a ignorância que induzem os homens a práticas cruéis e à manutenção de preconceitos do passado”. NASCIMENTO, Maria das Graças de Souza do, op. cit., 1996, p. 6.

119 Ver isso em sua obra de 1777, O Preço da Justiça (São Paulo: Martins Fontes, 2001). Nessa obra, Voltaire

coloca que a moral é uma só, vem de Deus; já os dogmas vem dos homens. As paixões é que confundem a mente. Não há conhecimento inato. Pelo uso da razão podemos discernir o bem do mal.

inescrupulosamente.120 Voltaire afirma: “As leis não podem deixar de ressentir-se da fraqueza dos homens que as fizeram. Elas são variáveis como eles. Algumas nas grandes nações foram ditadas pelos poderosos com o fim de esmagar os fracos”.121Esta afirmação de Voltaire sobre as leis e sua fragilidade se liga à ideia de tolerância, pois esta última afirma que a primeira lei da natureza é o reconhecimento de que todos nós somos constituídos por nossos acertos e erros. Portanto, em matéria de relações humanas, a indulgência se faz necessária, sobretudo quando se trata de cometer um crime terrível122, diante do qual não se tem a exata certeza do

erro do acusado. Diante de tudo isso, se percebe que o ponto essencial é o seguinte: a maior crítica que possuía o caráter de ser demolidora em Voltaire era uma verdadeira luta contra o poder hostil e assassino do pensamento religioso123 da época. É contra um modelo de pensamento que em nada favorecia o desenvolvimento da humanidade que Voltaire se empenha em modificar. Era preciso mudar as estruturas errôneas da sociedade, mas não partindo das leis ou dos costumes diretamente falando, mas substituindo, aos poucos, a maneira de pensar, para que um novo pensar fosse conscientizando e esclarecendo o espírito dos homens. As luzes para uma nova sociedade baseada em ações humanas esclarecidas pelos bons costumes estavam na aderência a um pensar que tivesse como finalidade o progresso científico e o uso esclarecido da razão. É exatamente deste tema que trata a reflexão do próximo capítulo.

120 Muitas foram as mortes cometidas em desfavor de pessoas inocentes, por sua convicção religiosa. Dentre os

muitos casos de torturas Voltaire destaca o caso de Jean Calas que fora mais uma vítima do pensamento religioso. Neste caso, os magistrados de Toulouse justificaram tal crime por estarem influenciados pelo pensamento religioso que se deixava transparecer no âmbito das leis civis.

121 VOLTAIRE, op. cit., 2000, p. 8.

122 O crime mencionado diz respeito à morte de Jean Calas. Muitas outras mortes poderiam aqui ser

contempladas; sobretudo as mortes que tem sua origem no pensamento religioso fanático que por vezes assolou e perturbou inúmeros inocentes.

123 O pensamento religioso em que estava imersa a sociedade religiosa da época de Voltaire constitui o foco

essencial dessa pesquisa. No universo religioso ainda do século XVIII, na França, se acreditava que os heréticos deveriam ser todos eliminados, ou seja, mortos, pois a morte era o único caminho por meio do qual deveriam se purificar dos pecados. A visão religiosa da época era a de que Deus se agradava pelas perseguições e mortes cometidas em nome da religião. É certo que as guerras de religião, nesta época, não eram mais como nos tempos da Inquisição. Mesmo assim, aconteciam ainda, mortes em fogueiras e suplícios nas rodas por permanecer em meio às religiões uma hostilidade cruel e isso, certamente, era a origem da violência e do enraizamento crescente do pensamento religioso fanático.

Pretende-se, neste capítulo, ao analisar algumas concepções do conceito de “razão”, afirmar que esta se propunha, no século XVIII,124 como um caminho que devesse conduzir os homens a superar a ignorância daquele tempo. Assim, o fanatismo, a superstição e a intolerância produzida pelo pensamento religioso precisavam ser dissipados.

Este estudo permitirá estabelecer um elo de reflexão inclusive a respeito do deísmo125 de Voltaire, pois se observa que ele não destrói a possibilidade da existência de Deus ao afirmar que a razão é um guia moral para o homem.

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Benzer Belgeler