Girard acentua a resistência da vítima como um comportamento absolutamente revolucionário e profético capaz de desconstruir o mecanismo do bode expiatório 229. Nessa perspectiva, Jó é a primeira vítima da história que ousa enfrentar a sociedade para mostrar que as razões da violência persecutória são perversas e que o “deus” que justifica essa perseguição não é o Deus verdadeiro, mas fruto da projeção inconsciente do ser humano 230.
Após um longo e sofrido processo, caíram todas as resistências. Há o reconhecimento e aceitação de sua pequenez e da sua condição de criatura. As palavras de Iahweh tiram Jó da contradição entre a sua inocência e a tese da retribuição.
Jó respondeu ao Senhor: Reconheço que podes tudo,
E que nenhum dos teus desígnios fica frustrado, Sou aquele que denegriu teus desígnios
Com palavras sem sentido. Falei de coisas que não entendia, De maravilhas que me ultrapassam. Escuta-me que vou falar;
interrogar-te-ei e tu me responderás. Conhecia-te só de ouvido.
228 Cf. LÉVÊQUE, Jean. Job et son Dieu. Vol. I. Paris: Lecoffre, 1970. p. 494.
229 Cf. GIRARD, René. La Ruta Antigua de los Hombres Perversos. Barcelona: Editorial Anagrama, 1989. p.
182.
Mas agora viram-te meus olhos: por isso, retrato-me
e faço penitência no pó e na cinza ( Jo 42, 2-6).
Percebe-se uma profunda transformação em Jó, que provém da sua compreensão dos discursos de Deus. As palavras de Iahweh responderam às inquietações existenciais de Jó, que se sentia encarcerado entre sua experiência de inocência e a tese da retribuição. Aprendeu aquilo que agora é sua mais profunda convicção: “Eu sei, reconheço” (Cf. Jo 42, 2) que o Deus Go’el tem um projeto que se realiza na história. Sabe agora que nenhum plano de Deus é irrealizável, ainda que o entendimento humano possa desvendar os caminhos da sua realização. Havia concluído no monólogo do capítulo três, que a vida e o mundo são um caos. Se não houvesse outra saída além daquela apresentada pelos teólogos da retribuição, não lhe restava alternativa, senão a conclusão de que tudo é um caos. Mas, agora, percebe que a ação de Deus acontece em sua plena liberdade, e é pela sua boca que se percebe a existência de uma nova ordem no cosmos, de gratuidade e amor.
O coração dos discursos de Deus é a liberdade, o amor e a gratuidade. Jó entendeu, e, a partir disso, começou a ter o discernimento necessário sobre a justiça de Deus no mundo. “Esse encontro transformou sua vida, levando-o à aceitação, submissão e contemplação no
amor” 231. Os passos levaram-no a uma conclusão: “Por isso eu me retrato e faço penitência
no pó e na cinza.” (v. 6). Aceitou sua condição de criatura, sentiu-se uma criança diante do Pai. No entanto, devemos sempre dizer que sua rebeldia nunca foi maior que sua esperança e sua confiança. Em nenhum momento retira sua inocência e sua verdade. Essa é uma convicção profunda, assim como sua fé em Deus. Reconhece que sua linguagem pode ter sido agressiva, por isso, humildemente, propôs fazer penitência no pó e na cinza:
Jó chegou pouco a pouco a esse modo de falar acerca de Deus: num momento sente- O distante e estranho a sua vida; em seguida, enfrenta-O em duro litígio; mas rende- se a Ele, agora numa confiança renovada 232.
A contemplação o fez perceber que a justiça utilitária e imediata não tinha a última palavra, no falar sobre Deus. Só estamos verdadeiramente diante do Deus da Bíblia, quando reconhecemos a gratuidade de seu amor. A experiência da Graça não se opõe à busca da justiça, mas ao contrário, dá-lhe o sentido pleno. Coloca a justiça no âmbito da gratuidade do amor de Deus que se manifesta como Graça. Jó supera a armadilha da retribuição: se ele era inocente, “deus” era culpado. Era preciso escapar dessa cerca para correr livre pelos campos
231 GUTIÉRREZ, Gustavo. Falar de Deus a partir do Sofrimento do Inocente. Petrópolis: Vozes, 1987. p. 139. 232 Ibidem. p. 141.
do Senhor, assim como os animais do primeiro discurso, onde prevalece a gratuidade do amor, vivido na liberdade.
A tradição de Israel, através da retribuição, pretendia prender Deus num esquema: dou aqui para receber lá. Nada, nenhuma obra humana, por mais importante que seja, pode comprar a Graça. “A mensagem do Livro ensina-nos que a gratuidade do amor de Deus é o
pressuposto ético que exige a prática da justiça” 233.
O Livro de Jó sublinha com força, que as obras humanas em si mesmas não justificam ou salvam. Como diz São Paulo (Rm 3, 21-27): a entrada no Reino de Deus não é um direito que se adquire ou que se compra através de obras humanas, nem sequer com a prática da justiça, ela é sempre um dom gratuito do amor de Deus. Não se impõe condições a Deus, quando Lhe exigimos garantias, mostramos que ainda não entendemos nada (bínãh) do seu desígnio na história (‘esãh). Nenhum amor pode ser dominado, pois a marca do amor é sempre a gratuidade e a liberdade.
Isso não significa que Deus não exija dos seres humanos um comportamento ético de justiça. Mas essa deve ser vivida na dimensão do amor gratuito e nunca como exigência de favores divinos. Jó é libertado dessa mentalidade utilitarista e imediata, que quer impor fronteiras à ação de Deus na história, que não dá espaço à gratuidade e que quer ocupar o lugar de Deus no julgamento do mundo. Iahweh, o Deus libertador, dá a Jó uma vida inteiramente fundamentada na liberdade, no amor, na gratuidade e na contemplação 234.
A graça acontece no encontro direto com Deus e nessa relação objetiva se estabelece a justiça, a bondade e a misericórdia divina. Ninguém pode julgar a consciência de Jó, somente Deus pode penetrar no seu íntimo, para que a gratuidade de seu amor revele a verdade acerca da vida do oprimido. A integração de Jó foi um processo de crescimento que se deu na fé, na esperança e no amor. Sua trajetória foi movida pela esperança realizada, plenamente, no encontro com o amor livre e gratuito de Deus. Jó foi seduzido pelo amor gratuito e generoso, que se faz dom de si mesmo, sem exigir recompensas imediatas. Assim, sente-se justificado por Deus 235.
233 GUTIÉRREZ, Gustavo. Falar de Deus a partir do Sofrimento do Inocente. Petrópolis: Vozes, 1987. p. 145. 234 Cf. Ibidem. Deus da Vida. 2. ed. São Paulo: Loyola, 1992. p. 209.