A análise da questão da rotulagem de produtos alimentícios, assim como a exigência de controle no manejo de alérgenos por parte da indústria alimentícia guardam íntima relação com o direito à informação, sendo certo que o dever de maior detalhamento do conteúdo dos produtos disponibilizados ao mercado consumidor é inerente a tal direito.
No plano constitucional, está previsto no inciso XIV do artigo 5º, que assegura a todos o acesso à informação, sendo, contudo, resguardado o sigilo da fonte “quando necessário ao exercício profissional”127- 128-129.
Da simples leitura do dispositivo em questão, extrai-se que o acesso à informação é a regra, vale dizer, o Estado deve assegurar a todos meios para que possam acessar informações de seu interesse.
Destaque-se, outrossim, que a doutrina, ao tratar do direito à informação relaciona-o com o conceito de democracia participativa, frisando que tal direito seria oponível ao Estado, eis que somente um cidadão informado poderia ter, efetivamente, conhecimento dos assuntos da comunidade, e, assim, controlar os governantes e participar da gestão da coisa pública130.
127“Art. 5º (...) XIV - é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando
necessário ao exercício profissional”. Nota-se que o Poder Constituinte previu ampla tutela do direito de informação, resguardando o sigilo da fonte apenas para as hipóteses em que tal silêncio objetivar cuidar de certos sigilos profissionais
128 Vale comentar a expressa previsão no inciso I do artigo 229 do Código Civil no sentido de que o profissional
não poderá ser compelido a depor sobre fato “a cujo respeito, por estado ou profissão, deva guardar segredo”. Na mesma linha, é o disposto no artigo 406 do Código de Processo Civil, que dispensa a testemunha de depor sobre fatos “a cujo respeito, por estado ou profissão, deva guardar sigilo” e o artigo 207 do Código de Processo Penal, que veda o depoimento das “pessoas que, em razão de função, ministério, ofício ou profissão, devam guardar segredo, salvo se, desobrigadas pela parte interessada, quiserem dar o seu testemunho”.
129 A previsão de dispensa dos advogados testemunharem em juízo está prevista no Estatuto dos Advogados, Lei
n. 8.906/1994 (Art. 7º São direitos dos advogados: (...) XIX - recusar-se a depor como testemunha em processo no qual funcionou ou deva funcionar, ou sobre fato relacionado com pessoa de quem seja ou foi advogado, mesmo quando autorizado ou solicitado pelo constituinte, bem como sobre fato que constitua sigilo profissional). O dever de sigilo profissional está previsto nos Código de Ética das categorias profissionais: art. 25/art. 27 do Código de Ética dos Advogados, art. 73/art. 79 do Código de Ética Médica, art. 9º do Código de Ética dos Psicólogos, art. 2º do Código de Ética dos Contadores. O sigilo das confissões sacerdotais está previsto no Código de Direito Canônico (art. 984).
A violação ao dever de confidencialidade pode resultar na aplicação de sanção penal prevista no artigo 154 do Código Penal (“art. 154 - Revelar alguém, sem justa causa, segredo, de que tem ciência em razão de função, ministério, ofício ou profissão, e cuja revelação possa produzir dano a outrem: Pena – detenção, de três meses a um ano, ou multa. Parágrafo único – Somente se procede mediante representação”).
130 Sobre o tema, v. Maeve McDonagh. “The Right to Information in International Human Rights Law”. In
Human Rights Law Review: Oxford Journals. Disponível em http://hrlr.oxfordjournals.org/content/early/2013/02/20/hrlr.ngs045.full.pdf, acesso em 08/03/13, p. 12; Paulo Affonso Leme Machado. Direito à informação e meio ambiente. São Paulo: Malheiros, 2006, p. 49/50; Victor Abramovich e Christian Courtis, “El acceso a la información como derecho”. In Revista Internacional de Direito
44 Neste toar, destaca-se a lição de Celso Lafer, para quem o direito à informação seria uma liberdade destinada a “permitir uma adequada, autônoma e igualitária participação dos indivíduos na esfera pública”131.
Para os objetivos perquiridos no presente, cumpre destacar que o direito à informação não é tutelado apenas com vistas a proteger (e capacitar) o cidadão contra o Estado, mas também para permitir o exercício da cidadania plena132, o que se dá quando este se encontra apto para enfrentar não apenas o Estado, mas também o poder econômico, destacando-se, aqui, as normas atinentes aos direitos do consumidor133.
Com efeito, a concepção clássica do direito à informação está intimamente ligada ao conceito de liberdade, sendo certo que o exercício do direito de escolha, um importante pilar das regras de defesa do consumidor134, dependeria indubitavelmente da possibilidade concreta de se exercer tal opção, o que se dá somente quando são disponibilizados, ao consumidor, dados suficientes para tanto.
Acerca da fundamentação constitucional do direito do consumidor à informação, Alexandre David Malfatti sustenta ser decorrente do quanto previsto no inciso XIV da Constituição traria três consequências no que tange às relações de consumo, a saber: (i) o direito que o fornecedor tem de informar aos consumidores sobre os produtos e/ou serviços
131 Celso Lafer, A reconstrução dos direitos humanos, p. 241, destaques da transcrição.
132 Trabalhamos com o conceito contemporâneo de cidadania, que, dentro do contexto de internacionalização dos
direitos humanos, ultrapassa a ideia de cidadania censitária, relacionada somente ao exercício de direitos civis e políticos, passando a abarcar ainda, nas palavras de Oscar Vilhena Vieira, “o direito de participar do processo deliberativo de formação do discurso público no âmbito da sociedade civil. (...)”, o que abrange “as condições materiais básicas à existência digna, como educação, saúde e segurança” (Direitos Fundamentais: uma leitura
da jurisprudência do STF, São Paulo: Malheiros, 2006, p. 628). Assim, adota-se a premissa de que o conceito de
cidadania considera a possibilidade de exercício de direitos fundamentais, como “direito a ter direitos”, na expressão de Hannah Arendt. Sobre o tema, v. Dalmo de Abreu Dallari, “Estado de direito e cidadania” in
Direito constitucional: estudos em homenagem a Paulo Bonavides, org. Eros Roberto Grau e Willis Santiago
Guerra Filho, São Paulo: Malheiros, 2001, p. 200; Flávia Piovesan, Temas de direitos humanos, 2ª ed., São Paulo: Max Limonad, p. 71/72; Gianpaolo Poggio Smanio, “A conceituação da cidadania brasileira e a Constituição Federal de 1988” in Os 20 anos da Constituição da República Federativa do Brasil, coord. Alexandre de Moraes, São Paulo: Atlas, 2009, p. 333/346; Ingo Wolfgang Sarlet, “Os direitos sociais como direitos fundamentais: contributo para um balanço aos vinte anos da Constituição de 1988” in Vinte anos da
Constituição Federal de 1988. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009, p. 509/510; José Afonso da Silva,
“Faculdades de Direito e construção da cidadania” in Poder constituinte e poder popular: estudos sobre a
Constituição, São Paulo: Malheiros, 2000, p. 141/142, e Comentário contextual à constituição, São Paulo:
Malheiros, 2005, p. 36; José Augusto Lindgren Alves, “Cidadania, direitos humanos e globalização” in Direitos
Humanos, globalização econômica e integração regional: desafios do direito constitucional internacional, São
Paulo: Max Limonad, p. 90; José Antonio Estévez Araujo, “Constitución y ciudadanía” in Constituição e
democracia. São Paulo: Max Limonad, 2001, p. 123; Geraldo Antonio dos Reis, “Os desafios da cidadania nos
países em desenvolvimento” in Os novos conceitos do novo direito internacional: cidadania, democracia e
direitos humanos, org. Danielle Annoni. Rio de Janeiro: América Jurídica, 2002, p. 207/208.
133 Sobre o tema, v. Paulo Luiz Netto. A informação como direito fundamental do consumidor. In Jus Navigandi,
Teresina, ano 6, n. 51, 1 out. 2001. Disponível em http://jus.com.br/revista/texto/2216, acesso em 09/02/12.
134 Sobre o tema, v. Roberto Augusto Castellanos Pfeiffer, para quem “a tutela da escolha pela política de defesa
do consumidor não se dá através de regras endereçadas à estrutura do mercado, mas sim ao comportamento dos fornecedores, sobretudo através do estabelecimento do direito à ampla informação, à educação para o consumo e à vedação da publicidade enganosa” (Defesa da concorrência e bem-estar do consumidor. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010, grifos da transcrição).
45 que pretende comercializar; (ii) o dever de o fornecedor informar aos consumidores sobre as características dos produtos e/ou serviços; e (iii) o direito de o consumidor ser informado135.
Baseados no texto constitucional argentino, que, em seu artigo 42136, prevê expressamente o direito do consumidor à informação adequada e verdadeira, Victor Abramovich e Christian Courtis sustentam, na economia de mercado, que a informação constitui pressuposto para a liberdade de escolha e contratação de bens e serviços.Victor Abramovich e Christian Courtisdestacam interessante decisão proferida pela Câmara Federal Contenciosa-administrativa da Capital da Argentina, na qual foi decidido que o direito à informação abrange a tutela aos consumidores, verbis:
“(e)l contenido del derecho a la información consiste en la posibilidad de que el usuário o consumidor pueda acceder a um conocimiento suficiente e acabado sobre las características fundamentales del produto o servicio y, em consecuencia, colocarlo em condiciones de efectuar uma opción más reflexiva y razonable, diminuyendo, de esse modo, la desigualdad de conocimientos que naturalmente existe entre quien concibe y publicita um producto o servicio y quien lo puede adquirir” (Defensor del Pueblo de la Ciudad de Buenos Aires y outro c. Instituto Nacional de Servicios Sociales para Jubilados e Pensionados).137
Embora se trate de decisão proferida em uma disputa envolvendo licitação pública – ou seja, o direito à informação visto pelo viés de defesa contra o Estado, os fundamentos da decisão seriam facilmente oponíveis a uma disputa envolvendo uma relação de consumo, na qual fornecedores seriam obrigados a oferecer informações aos consumidores de um dado produto.
Para Alexandre David Malfatti, ainda que não fosse expresso no texto da Constituição do Brasil, não haveria fundamento para a interpretação restritiva do direito constitucional à informação, no sentido de que seria aplicável somente em face da Administração direta e indireta, eis que “o artigo 5º, inciso XIV, da Constituição não carrega qualquer elemento restritivo quanto ao acesso à informação”138.
135 Alexandre David Malfatti, O princípio da informação no Código de Defesa do Consumidor. Dissertação
(mestrado) – Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 2001, p. 162.
136“Art. 42.- Los consumidores y usuarios de bienes y servicios tienen derecho, en la relación de consumo, a la
protección de su salud, seguridad e intereses económicos; a una información adecuada y veraz; a la libertad de elección, y a condiciones de trato equitativo y digno.
Las autoridades proveerán a la protección de esos derechos, a la educación para el consumo, a la defensa de la competencia contra toda forma de distorsión de los mercados, al control de los monopolios naturales y legales, al de la calidad y eficiencia de los servicios públicos, y a la constitución de asociaciones de consumidores y de usuarios.
La legislación establecerá procedimientos eficaces para la prevención y solución de conflictos, y los marcos regulatorios de los servicios públicos de competencia nacional, previendo la necesaria participación de las asociaciones de consumidores y usuarios y de las provincias interesadas, en los organismos de control”.
137 “El acceso a la información como derecho”. In Revista Internacional de Direito e Cidadania – REID, v. 2, n.
3, fev/2009, Erechim: Habilis, 2009, p. 36, Trad. livre.
138 Alexandre David Malfatti, O princípio da informação no Código de Defesa do Consumidor. Dissertação
46 Assim, “(...) a Constituição Federal de 1.988 impôs aos particulares o dever de informar, quando suas atividades – empresariais ou não – envolverem direta ou indiretamente a dignidade da pessoa humana ou outros direitos fundamentais”139.
Flávia Piovesan pontua que a agenda de direitos humanos também deve nortear a atuação do setor privado, destacando a necessidade das empresas terem responsabilidade social140, cabendo ao Estado fiscalizar a observância, pelas empresas privadas, dos direitos sociais.
Nesse mesmo diapasão, Andrew Claphan sustenta que as empresas devem ter responsabilidade e serem responsabilizáveis no que tange à observância (e inobservância) dos direitos humanos, levando em conta que um comportamento compatível com a agenda de direitos humanos tenderia a melhorar a imagem da empresa perante consumidores, empregados e profissionais do mercado, além de serem mais atrativas para financiadores também mais comprometidos com a responsabilidade social das empresas141.
Pois é a partir desta vertente do direito à informação, que o considera como oponível à ordem econômica, em vista da necessidade de que o setor privado guie suas atividades pautado em sua responsabilidade social142, no dever de observância dos direitos fundamentais, que serão lastreadas as premissas necessárias para o mapeamento das regras de rotulagem atualmente vigente, sobretudo no que se refere aos alérgenos.
Maria da Conceição Maranhão Pfeiffer, lastrada em normas da lei das sociedades anônimas, quando pautam atividade do acionista e do adminsitrador (parágrafo único do artigo 116143 e caput do artigo 154144), e do código civil, especialmente no referente aos
139 Alexandre David Malfatti, O princípio da informação no Código de Defesa do Consumidor. Dissertação
(mestrado) – Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 2001, p. 112.
140 “Concepção contemporânea de direitos humanos: desafios e perspectivas” in Direitos humanos: desafios
humanitários contemporâneos: 10 anos do estatuto dos refugiados (lei n. 9.474 de 22 de julho de 1997), coord.
João Carlos de Carvalho Rocha, Tarcísio Humberto Parreiras Henriques Filho, Ubiratan Cazetta. Belo Horizonte: Del Rey, 2008, p. 21; Direitos humanos e justiça internacional, São Paulo: Saraiva, 2006, p. 24, 26/27; “Globalização econômica, integração regional e direitos humanos, ” in Direitos Humanos, globalização econômica e integração regional: desafios do direito constitucional internacional, São Paulo: Max Limonad, 2002, p. 68/69.
141 Andrew Claphan, Human rights obligations of non-state actors, Oxford: Oxford Print, 2006, p. 195.
142 Em oposição à responsabilidade civil, relacionada à responsabilidade no caso de ocorrência de danos, Sueli
Alves da Costa destaca que “a responsabilidade social apresenta-se como um conjunto de outras responsabilidades que têm alguns pontos em comum: são oriundas de movimentos sociais, de divulgação e convencimento ou imposição de padrões éticos alternativos e delineados em reação a uma crise de valores” (Desenvolvimento ético sob a égide da responsabilidade socioambiental. Dissertação (mestrado) - Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 2008, p. 168).
143“Art. 116 (...) Parágrafo único. O acionista controlador deve usar o poder com o fim de fazer a companhia
realizar o seu objeto e cumprir sua função social, e tem deveres e responsabilidades para com os demais acionistas da empresa, os que nela trabalham e para com a comunidade em que atua, cujos direitos e interesses deve lealmente respeitar e atender.”.
144“Art. 154. O administrador deve exercer as atribuições que a lei e o estatuto lhe conferem para lograr os fins e
47 limites à liberdade de contratar (artigos 421145), defende que as empresas privadas devem cumprir sua função social, o que abrange o dever de informar os consumidores146.
Em relação aos bens jurídicos tutelados pelo direito à informação, inspirada pelo texto da Constituição Portuguesa, apontam-se três nuances para tal direito, a saber: “direito de informar, de se informar e de ser informado, sem impedimentos nem discriminações” (artigo 37)147.
O direito de informar consiste na liberdade de transmitir ou comunicar informação a terceiros, difundindo-as sem impedimentos, quanto ao conteúdo e o meio utilizado; o direito de se informar consiste na liberdade para buscar informação sem impedimentos; e, por fim, o direito a ser informado engloba o direito a ser adequada e verdadeiramente informado148.
E é exatamente esse o fundamento do direito a informações precisas quanto ao conteúdo dos alimentos ofertados, eis que deve ser concedido, ao consumidor, o direito de ser informado acerca do teor do produto alimentício disponibilizado para consumo, seja por meio dos rótulos, seja, no mínimo, quando do acesso aos canais de atendimento ao consumidor disponibilizados pelas empresas.