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Antes da lei que instituiu a Política Nacional do Meio Ambiente, em 1981, e anteriormente à Constituição Federal de 1988, foi aprovado por intermédio da Lei nº 4.771, em 15 de setembro de 1965, o Código Florestal.

Esse relevante instrumento normativo veio estabelecer que as florestas presentes em todo o Brasil e outras formas de vegetação “são bens de interesse comum a todos os habitantes do País”. Assim, como anota Machado (2012), o Código Florestal antecipou a noção de direitos difusos, e foi precursor da Constituição de 1988, quando conceituou meio ambiente como bem comum de uso do povo.

Depois de várias discussões no âmbito do Congresso Nacional, principalmente entre a bancada de ruralistas, que visava a uma nova lei menos preservacionista, e a bancada dos ambientalistas, trazendo propostas com o objetivo

29 Resex Prainha do Canto Verde. Disponível em: http://www.icmbio.gov.br/portal/biodiversidade/unidades-de-

conservacao/biomas-brasileiros/marinho/unidades-de-conservacao-marinho/2295-resex-prainha-do-canto- verde.html [27 de fevereiro de 2010]

de proteger a rica vegetação ainda restante no Brasil, foi aprovado o novo Código Florestal – Lei federal nº 12.651, em 24 de maio de 2012.

Após aprovação da nova lei revogando a anterior, de 1965, o Congresso Nacional a enviou à Presidência da República para sanção. A lei foi, porém, sancionada com vetos, devido a um apelo geral da sociedade civil, mas teve muita influência a divulgação de uma carta de ex-ministros do Meio Ambiente, solicitando que a Presidente vetasse

[...] integralmente toda e qualquer norma de caráter permanente ou transitório que sinalize ao país a possibilidade presente e futura de anistia e permita a impunidade em relação ao desmatamento; descaracterize a definição de florestas, consagrada na legislação vigente; reduza direta ou indiretamente a proteção do capital natural associado às florestas; fragilize os serviços por estas prestados; dificulte, esvazie ou desestimule os mecanismos para sua restauração; ou, ainda, fragilize a governança socioambiental30.

A Lei nº 12.651/2012, sancionada com vetos, foi enviada de volta ao Congresso Nacional, acompanhada da Medida Provisória nº 571/2012, com a finalidade de atualizar o Código Florestal de 1965. Ao chegar ao Congresso, a Medida Provisória foi extensivamente discutida e passou por importantes modificações, tendo sido alterada por vetos opostos por meio da Lei nº 12.727/2012. Por fim, visando a mitigar os danos ao último texto aprovado pelo Congresso, a Presidente instituiu o Decreto nº 7.830/2012, que dispõe sobre o Sistema de Cadastro Ambiental Rural e estabelece normas de caráter geral aos programas de regularização ambiental. Sobre a nova lei, crítica Goldenberg (2013, p.6) “a legislação que substituiu o Código Florestal de 1965 é ainda bastante controversa, abrindo caminho para que um futuro próximo se possa proceder a um melhor ordenamento da matéria”.

Em razão do tema deste trabalho, é importante destacar dos tipos áreas do Código Florestal: as Áreas de Proteção Permanente (APP) e a Reserva Legal. A Reserva Legal é uma

[...] área localizada no interior de uma propriedade ou posse rural, com a

função de assegurar o uso econômico de modo sustentável dos recursos naturais do imóvel rural, auxiliar a conservação e a reabilitação dos processos ecológicos e promover a conservação da biodiversidade, bem

30 Apelo Público do Fórum dos Ex-ministros de Meio Ambiente à Presidente Dilma. 2012. Disponível em: http://amazonia.org.br/wp-content/uploads/2012/05/II-Carta-Aberta-do-Ex-Ministros-a-Presidente-FINAL.pdf

como o abrigo e a proteção de fauna silvestre e da flora nativa. (Art. 3º, inc.

II e III).

Conceitua-se imóvel rural utilizando o que estabelece o Estatuto da Terra (Lei federal nº 4.504/1964) que o definiu como “prédio rústico, de área contínua qualquer que seja a sua localização que se destina à exploração extrativa agrícola, pecuária ou agroindustrial, quer através de planos públicos de valorização, quer através de iniciativa privada”.

Assim, mesmo que o termo traga a palavra “rural”, a terminologia não deve ser entendida apenas como algo referente ao campo, mas sim como toda área de que se possa tirar algum proveito econômico, podendo também o imóvel se localizar na faixa costeira. Caso esteja localizado em perímetro urbano, mas o Plano de Desenvolvimento Urbano (PDDU) considerar determinada área como rural e seu dono tirar proveito da terra, passa a ser obrigatório que o imóvel tenha sua reserva legal.

A dimensão da Reserva Legal, contudo, difere, dependendo da localização, como esclarece a tabela 4.1:

Tabela 4.1 – Localização dos imóveis rurais para fins de Reserva Legal

Localização de

imóveis rurais Localização do imóvel Reserva Legal (%) Porcentagem da Amazônia Legal

Situado em área de

florestas; 80

Situado em área de cerrado; 35 Situado em área de campos

gerais; 20

Demais regiões

do País ___ 20

, Fonte: Lei nº 12.651/2012

A APP é uma área protegida, coberta ou não por vegetação nativa com a função ambiental de “preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade

geológica e a biodiversidade, facilitar o fluxo gênico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bem-estar das populações humanas” (art. 3º, inc. II). O Quadro 4.20

traz as definições de APP, de acordo com o art. 4º.

Quadro 4.20 – Definições de Áreas de Proteção Permanente ÁREAS DE PROTEÇÃO PERMANENTE (APP) I - as faixas marginais de qualquer curso d’água natural perene e intermitente, excluídos os efêmeros, desde a borda da calha do leito regular, em largura mínima de

a) 30 (trinta) metros, para os cursos d’água de menos de 10 (dez) metros de largura;

b) 50 (cinquenta) metros, para os cursos d’água que tenham de 10 (dez) a 50 (cinquenta) metros de largura;

c) 100 (cem) metros, para os cursos d’água que tenham de 50 (cinquenta) a 200 (duzentos) metros de largura;

d) 200 (duzentos) metros, para os cursos d’água que tenham de 200 (duzentos) a 600 (seiscentos) metros de largura;

e) 500 (quinhentos) metros, para os cursos d’água que tenham largura superior a 600 (seiscentos) metros;

II - as áreas no entorno dos lagos e lagoas naturais, em faixa com largura mínima de:

a) 100 (cem) metros, em zonas rurais, exceto para o corpo d’água com até 20 (vinte) hectares de superfície, cuja faixa marginal será de 50 (cinquenta) metros;

b) 30 (trinta) metros, em zonas urbanas

III - as áreas no entorno dos reservatórios d’água artificiais, decorrentes de barramento ou represamento de cursos d’água naturais, na faixa definida na licença ambiental do empreendimento; IV - as áreas no entorno das nascentes e dos olhos d’água perenes, qualquer que seja sua situação topográfica, no raio mínimo de 50 (cinquenta) metros;

V - as encostas ou partes destas com declividade superior a 45°, equivalente a 100% (cem por cento) na linha de maior declive;

VI - as restingas, como fixadoras de dunas ou estabilizadoras de mangues; VII - os manguezais, em toda a sua extensão;

VIII - as bordas dos tabuleiros ou chapadas, até a linha de ruptura do relevo, em faixa nunca inferior a 100 (cem) metros em projeções horizontais;

X - no topo de morros, montes, montanhas e serras, com altura mínima de 100 (cem) metros e inclinação média maior que 25°, as áreas delimitadas a partir da curva de nível correspondente a 2/3 (dois terços) da altura mínima da elevação sempre em relação à base, sendo esta definida pelo plano horizontal determinado por planície ou espelho d’água adjacente ou, nos relevos ondulados, pela cota do ponto de sela mais próximo da elevação;

X - as áreas em altitude superior a 1.800 (mil e oitocentos) metros, qualquer que seja a vegetação; XI - em veredas, a faixa marginal, em projeção horizontal, com largura mínima de 50 (cinquenta) metros, a partir do espaço permanentemente brejoso e encharcado.

,Fonte: Lei federal nº 12.651/2012

Para esse ensaio sobre relatório, interessam os itens VI e VII, que instituem como APP as restingas e os mangues. O último se conceituou no capítulo referente à zona costeira do Brasil. O Código Florestal (art. 3º, XVI) traz o conceito de restinga:

Depósito arenoso paralelo à linha da costa, de forma geralmente alongada, produzido por processos de sedimentação, onde se encontram diferentes comunidades que recebem influência marinha, com cobertura vegetal em mosaico, encontrada em praias, cordões arenosos, dunas e depressões, apresentando, de acordo com o estágio sucessional, estrato herbáceo, arbustivo e arbóreo, este último mais interiorizado;

Ela também é caracterizada como vegetação fixadora de dunas ou estabilizadora de mangues. E, como se verá, os projetos de empreendimentos hoteleiros estão muitas vezes localizados em áreas de mangue, ou sobre dunas cobertas com restinga, quer dizer, em APPs.

Dentre os capítulos do novo Código Florestal (Lei federal nº 12.651/2012) um em específico trata da proteção de apicuns e salgados. A própria lei conceitua os dois termos. Salgados ou marismas tropicais hipersalinos são áreas situadas em regiões com frequências de inundações intermediárias “entre marés de sizígias e de quadratura, com solos cuja salinidade varia entre 100 e partes por 1.000, onde pode ocorrer a presença de vegetação herbácea específica”; e o apicum que são áreas de solos hipersalinos situadas nas regiões “entre marés superiores, inundadas apenas pelas marés de sizígias, que apresentam salinidade superior a 150 partes por 1.000, desprovidas de vegetação vascular”. (art. 3º, XVI e XV).

A proteção dos apicuns e salgados, presente no novo Código, foi objeto de intensos debates durante a votação da lei. Antes de suas delimitações legais, não existia consenso nem no campo técnico nem jurídico se essas áreas pertenciam às áreas de manguezal e, consequentemente, se seriam consideradas APP, como delimitava o antigo código (ATHIAS ET AL, 2013).

A razão de maior proteção dessas áreas decorre de atividade de carcinicultura que cresceu bastante no litoral do Brasil na última década. Em 2005, o IBAMA realizou importante e extenso estudo sobre os impactos ambientais da carcinicultura no Estado do Ceará. Foram analisadas 245 fazendas de camarão, com uma área total de 6.069,97 hectares, encontrados aproximadamente 39 indicadores diretos de impactos ambientais:

Os principais danos ambientais relacionados com a carcinicultura foram: desmatamento do manguezal, da mata ciliar o do carnaubal; extinção de setores de apicum; soterramento de gamboas e canais de maré; bloqueio do fluxo das marés; contaminação da água por efluentes dos viveiros e das fazendas de larva e pós-larva; salinização do aquífero; impermeabilização do solo associado ao ecossistema manguezal, ao carnaubal e á mata ciliar; erosão dos taludes, dos diques e dos canais de abastecimento e de deságue; empreendimentos sem bacias de sedimentação; fuga de camarão exótico para ambientes fluviais e fluviomarinhos; redução e extinção de habitates de numerosas espécies; extinção de áreas de mariscagem, pesca e captura de caranguejos; disseminação de doenças (crustáceos); expulsão de marisqueiras, pescadores e catadores de caranguejo de suas áreas de trabalho; dificultar e/ou impedir acesso ao estuário e ao manguezal; exclusão das comunidades tradicionais no planejamento participativo; doenças respiratórias e óbitos com a utilização do metabissulfito; pressão para compra de terras; desconhecimento do número exato de fazendas de camarão; inexistência de manejo; não definição dos impactos cumulativos e biodiversidade ameaçada. (MEIRELES, 2006).

Para Meireles esta atividade levou em conta apenas os custos de mercado, em detrimento dos danos ambientais, ecológicos, culturais e à biodiversidade. Além disso, diz ele, comunidades foram expulsas de suas atividades tradicionais, índios estavam em grave perigo de perda de suas bases alimentar e de cultura, e até pescadores foram torturados, ameaçados de morte e impedidos de pescar.

Figura 4.4 – Atividade de carcinicultura no litoral do Município de Aracati-CE

Fonte: Instituto Terramar, 2008

Sem dúvidas, em razão desses graves impactos observados na zona costeira do Brasil, o recente texto do Código Florestal buscou delimitar o seu uso pela carcinicultura assim como pelas salinas. O art. 11ª, §1º, da referida lei, determina que os apicuns e salgados podem ser utilizados em atividades de carcinicultura e salinas, desde que observados os seguintes requisitos: que a área total ocupada em cada Estado não seja superior a 10% dessa modalidade de fitofisionomia no bioma amazônico e a 35% no restante do País, excluídas as ocupações consolidadas que atendam ao disposto no § 6o deste artigo.

E, ainda, salvaguarda a absoluta integridade dos manguezais arbustivos e dos processos ecológicos essenciais a eles associados, bem como da sua produtividade biológica e condição de berçário de recursos pesqueiros; o licenciamento da atividade e das instalações pelo órgão ambiental estadual, cientificado o IBAMA e, no caso de uso de terrenos de marinha ou outros bens da União, realizada regularização prévia da titulação perante a União; recolhimento, tratamento e disposição adequados dos efluentes e resíduos; garantia da manutenção da qualidade da água e do solo, respeitadas as APPs; e respeito às atividades tradicionais de sobrevivência das comunidades locais.

Ainda, sobre área de apicuns e salgados, determina o Código que a licença ambiental emitida em favor de algum empreendimento localizado na zona costeira será de cinco anos, renovável apenas se o empreendedor cumprir as exigências da legislação ambiental e do próprio licenciamento, mediante comprovação anual, inclusive por mídia fotográfica (art. 11ª, § 2º).

Para Athias et al (2013), a zona costeira é patrimônio nacional, considerado um dos grandes biomas brasileiros e por isso mesmo havida como área especialmente protegida por força da Constituição Federal, impondo que sua ocupação e exploração sejam realizadas de modo sustentável. Concluindo, o autor diz que, para o uso de apicuns e salgados em atividades de carcinicultura e salinas, devem ser observas as restrições legais para que o exercício dessas atividades produtivas não comprometa a integridade desse ecossistema ou impacte também outras áreas que necessitem proteção mais restritiva, como os manguezais e as unidades de conservação.

Deixa-se claro o fato de entender-se que essas áreas de apicuns e salgados deveriam ser completamente protegidas, pois são ecossistemas essenciais para preservação da dinâmica da zona costeira e servem como abrigo para uma diversidade de animais e de vegetação. Permitindo sua ocupação, o legislador autorizou a continuidade de uma atividade altamente degradadora, responsável pela crescente degradação socioambiental dos espaços costeiros, principalmente o litoral do Ceará.

4.6 O Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e seu papel na ordenação