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Uma vez demonstrada a relação entre moralidade e liberdade, o próximo passo da argumentação kantiana consistirá em fazer notar, como aponta o título da segunda subseção, que “a liberdade tem de ser pressuposta como propriedade da vontade de todos os seres racionais”.

Ora, a moralidade vale para nós justamente enquanto lei para seres racionais. E uma vez demonstrado, pela tese da analiticidade, que a moralidade se deriva da liberdade, e que seres puramente racionais sempre agem moralmente, então é necessário concluir que a liberdade deve ser pressuposta como propriedade da vontade de todos os seres racionais. Diante disso, qualquer “demonstração” a partir de experiências derivadas da natureza humana se revela desprovida de valor, seja pela impossibilidade de se fazer isso a posteriori – como, de resto, já foi demonstrado no “Prefácio” – seja porque a liberdade se apresenta como propriedade de todos os seres racionais dotados de uma vontade e não apenas de seres racional-sensíveis como nós. Kant, então, é enfático:

Ora, eu digo: todo ser que não pode agir senão sob a ideia da liberdade é, por isso mesmo, de um ponto de vista prático, realmente livre [wirklich frei]15, isto é, para

ele valem todas as leis que estão inseparavelmente ligadas à ideia da liberdade, exatamente como se a sua vontade também fosse declarada livre em si mesma, e isso de uma maneira válida na filosofia teórica. Ora, eu afirmo que temos necessariamente de conferir a todo ser racional que tem uma vontade também a ideia de liberdade, sob a qual somente ele age (GMS 4: 448; p. 353-355 – grifos do autor). Mas o que significa agir sob a ideia de liberdade? Allison (2011, p. 302-309) apresenta duas possibilidades interpretativas. A primeira consiste em considerar a liberdade como crença: o homem deve crer que é livre para poder agir moralmente. Essa interpretação não se sustentaria diante de argumentos deterministas – diante de diversas crenças possíveis e sem argumentos, um determinista preferiria, então, agarrar-se à sua própria crença no determinismo. Assim, resta a segunda interpretação: o homem deve agir como se fosse livre. só de obedecer a lei moral, mas de resistir aos incentivos de sua natureza sensível. A essência da liberdade então, para Kant, residiria não na capacidade de escolher o mal, mas de obedecer aos ditames da razão pura prática. Deus – como também seria o caso de um ser perfeitamente racional – não tem a capacidade de escolher o mal e ainda assim é reconhecido como a mais alta forma de liberdade.

15 Kant parece pressupor, do ponto de vista prático, a efetividade (Wirklichkeit) da liberdade. Mais precisamente,

como “ideia”, a liberdade não pode ser encarada como um fato ou uma propriedade empiricamente verificável. A primeira Crítica já havia garantido não ser possível oferecer uma prova teórica da efetividade da liberdade. Por isso, trata de garantir, aqui, a efetividade da liberdade no domínio prático, pois, “para um ser que não pode agir senão sob a ideia de sua própria liberdade, valem as mesmas leis que obrigariam um ser que fosse realmente livre” e, com isso, “podemos livrar-nos aqui do fardo que pesa sobre a teoria” (GMS 4: 448, nota; p. 353).

Isto, porém, não significa pensar que a liberdade seja mera ficção adotada por fins meramente heurísticos, como princípio regulativo. A ideia de liberdade tem força normativa para nossas deliberações morais: só podemos deliberar sob a ideia de liberdade, não porque este seja o modo como nossa mente trabalha ou porque esta seja a única maneira de deliberar com sucesso, mas porque somente sob esta pressuposição que a deliberação e todo exercício implicado numa ação racional é concebível.

Kant apresenta o seguinte argumento para fundamentar essa pressuposição:

Ora, é impossível representar-me em pensamento uma razão que, com sua própria consciência com respeito com respeito a seus juízos, recebesse de outra parte uma direção, pois então o sujeito não atribuiria a determinação do poder de julgar à sua razão, mas a um impulso. Ela tem de se considerar como autora de seus princípios, independentemente de influências alheias; por conseguinte, enquanto razão prática, ou enquanto vontade de um ser racional, ela tem de ser considerada por ela mesma como livre; isto é, a vontade do mesmo só pode ser uma vontade própria sob a ideia da liberdade e tem, pois, de ser conferida a todos os seres racionais de um ponto de vista prático (GMS 4: 448; p.355).

As duas partes do argumento são claras. Na primeira (tudo o que é afirmado antes do ponto-vírgula), Kant fala da espontaneidade dos juízos da razão teórica: de um ponto de vista negativo, a razão teórica é livre de influências alheias, como os impulsos; de um ponto de vista positivo, ela é, verdadeiramente, autora de seus princípios. Se isso se afirma a respeito da razão teórica, deve ser afirmado igualmente, como mostrado na segunda parte da citação, a respeito da razão prática: também ela deve ser plenamente capaz de determinar a ação, sem quaisquer influências alheias. Percebe-se aqui a presença de um argumento clássico, reiteradamente utilizado contra o determinismo (SCHÖNECKER; WOOD, 2014, p. 169-171): se o determinista afirma sua doutrina, deve pressupor que, a partir de sua razão teórica, emite um juízo objetivo, espontâneo, sem qualquer determinação prévia. Se negasse a liberdade de sua razão teórica, negaria o valor de seu próprio juízo. Ora, se ele pressupõe a liberdade de sua razão enquanto teórica, deve necessariamente pressupô-la enquanto razão prática16.

Note-se que, até este momento, Kant afirma apenas a realidade da liberdade dos seres racionais e não dos seres racional-sensíveis. Na maneira tradicional de se reconstruírem os argumentos desta seção (SCHÖNECKER; WOOD, 2014, p. 160), pensava-se que Kant

16 Kant havia apresentado o mesmo argumento num texto pouco anterior à Fundamentação, de 1783, a saber, sua

Recensão ao ensaio de Schulz que trata de uma introdução à doutrina dos costumes (cf. RSV 8: 10-14; p. 7-10).

Um dos problemas deste argumento, porém, consiste em partir da liberdade da razão teórica para afirmar a liberdade prática do sujeito. Da “liberdade enquanto faculdade espontânea de julgar não se segue a liberdade da faculdade de agir”, sobretudo no que se refere ao ser humano (CHAGAS, 2011, p. 404). Acredita-se, aqui, no entanto, que será por essa razão que Kant deverá apresentar, na subseção três, também um argumento específico para a liberdade do ser humano.

realizara o seguinte percurso: uma vontade livre é uma vontade sob a lei moral; a liberdade deve ser pressuposta como propriedade da vontade de todos os seres racionais; por conseguinte, também a vontade humana é livre e está sob a lei moral, o que implicaria dizer que o imperativo categórico é válido. A presente subseção foi tomada, muitas vezes, como oferecendo uma evidência conclusiva da liberdade humana17, o que implicaria, já aqui, a dedução da lei moral ou do imperativo categórico. Se assim fosse, a subseção 4 seria totalmente supérflua. Mas não é o caso. Kant ainda não demonstrou como a lei da autonomia está conectada à vontade humana nem que nós, seres racional-sensíveis, somos livres18. Esse é, justamente, o próximo passo da argumentação: a demonstração de que também nós somos livres no sentindo indicado.

Benzer Belgeler