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2.2. YABANCILAŞMA NEDİR?

2.2.3. Fromm ve Marcuse’a Göre Yabancılaşma

O objetivo dessa discussão é argumentar como o discurso do desenvolvimento das habilidades e competências, disseminado em várias esferas da vida (família, trabalho, relacionamento, escola etc.) não vislumbra o bem-estar do indivíduo e, sim, acarreta uma série de obrigações que, em última instância, favorece o modo flexível de organização do trabalho nas empresas e no mercado de trabalho. Essa característica “é ao mesmo tempo cultural e estrutural. Os valores da nova economia tornaram-se referência (...)” (SENNETT, 2012).

Houve, então, uma inversão ideológica. Conforme aponta Sennett (2012) ao constatar que os indivíduos que seguiram esse novo ideal capitalista sentiam que suas vidas estavam, então, à deriva. Para ilustrar, o autor se remete à crise de 2000 e aos jovens que, à época, investiram suas vidas e trabalho nas promessas do Vale do Silício: “Nesse limbo, isolados, sem uma narrativa de vida, eles descobriram o fracasso” (p. 32).

Uma das razões apontadas para a mudança que enfatiza as competências é o desenvolvimento de novas tecnologias.

À medida que se dissemina a automação, recua o campo das capacidades humanas predeterminadas (...). Também aqui temos a nova individualidade idealizada: um indivíduo constantemente adquirindo novas capacitações, alterando sua base de conhecimento. Na realidade, este ideal é impulsionado pela necessidade de manter-se à frente da máquina (SENNETT, 2012, p. 46-47).

No entanto, esse aspecto da realidade é apenas uma parte da explicação dessa mudança por competências. O autor compreende que a cultura que preconiza uma individualidade idealizada busca indivíduos independentes. Em vez de ter uma vida estável em uma instituição e com ela criar laços, os reformadores querem mais iniciativa e capacidade empreendedora pessoais, sendo que cada um corra atrás, por conta própria, e sem a ajuda das instituições, de seu bem estar. Isso inclui poupanças para a velhice e assistência médica (SENNETT, 2012).

O posto de trabalho também cedeu espaço para a atuação por competências. As próprias figuras do empreendedor e do líder não são funções, mas sim um conjunto de habilidades e competências. Essa mudança está relacionada a um novo modelo organizacional. “O administrador profissional era o principal protagonista do processo de gestão ancorado na burocracia. A administração por objetivos surge como forma de conferir aos administradores as condições adequadas para tomada de decisões” (BELLUZZO, 2013, p. 29).

A partir dessa discussão, é possível organizar o seguinte quadro:

Quadro 2 - Tipos de divisão do trabalho de acordo com as formas de avaliação Tipo de divisão/avaliação de

executivos

Figuras executivas correspondentes Divisão por posto de trabalho Presidente, gerente, diretor,

Divisão por competências e habilidades Coach, líder, empreendedor, consultor Fonte: do autor

Dessa forma, a transição e mescla paradigmática entre fordismo e toyotismo passa a gerar dois níveis concomitantes de interpretação do indivíduo-executivo no ambiente de trabalho. Avaliado por suas funções no posto de trabalho, o executivo pode ocupar os cargos de presidência, gerência e direção (considerando, aqui, o topo da hierarquia). No entanto, esse mesmo indivíduo pode assumir formas mais flexíveis dependendo da habilidade ou competência desempenhada em seu raio de ação. Pode, então, assumir uma liderança, ou ser um empreendedor, um coach ou um consultor. Essas figuras, no entanto, não se limitam ao espaço físico da organização. Podem ser externos ou internos bem como temporários ou permanentes no quadro formal de contratação da empresa.

Vale salientar que os perfis de liderança e empreendedorismo, ainda que típicos do topo hierárquico, já começam a descer as escadas organizacionais para estarem presentes entre postos (funções) mais operacionais.

Sennet (2012) aponta que hoje, “as empresas testam e avaliam obsessivamente seus empregados, para que o talento seja recompensado e, mais decisivamente, o fracasso seja atestado e portanto legitimado” (p. 104). E aponta uma perspectiva ainda mais cruel para a avaliação sistemática e contínua, que ultrapassa os limites técnicos e vai para o âmbito pessoal. “O debate está mergulhado em critérios altamente pessoais de avaliação; a busca do talento não é um exercício meramente técnico. O mérito é uma categoria muito mais invasiva em termos pessoais que a competência” (p. 104).

Outra implicação do perfil por competências é a alta rotatividade e a importância cada vez maior do processo de recrutamento nas empresas. Nesse contexto, o processo de recrutamento adquire importância para a manutenção da cultura organizacional de uma empresa. Quando a mudança no quadro de empregados se torna uma constante, ainda mais em ocupações gerenciais, é preciso recrutar com atenção o indivíduo que atenda não só ao perfil por competências mais aos valores da organização.

Na essência do problema, temos que essa flexibilidade altera o funcionamento do mercado de trabalho. A alta rotatividade no emprego quebra a estrutura do trabalhador assalariado e o vínculo a determinados postos de trabalho. No discurso do empregador, o problema está na inadequação do trabalhador disponível.

Porém, esse problema é reflexo da desestruturação do mercado de trabalho, devido, principalmente, á excessiva liberdade de ação dos empregadores que, além de pagar mal frente à sofisticação já alcançada do aparelho produtivo existente no país, dispensa o empregado logo que já não precisa dele. (BALTAR; KREIN, 2013, p. 16).

Para os autores, essa desestruturação do mercado de trabalho gera outra implicação: a desarticulação do trabalhador. A alta rotatividade impede a fixação dos trabalhadores em postos de trabalho e impede que as empresas tenham trabalhadores mais adaptados aos seus empregos e com mais condições de se articularem de forma coletiva e reduzindo as enormes taxas de exploração (BALTAR; KREIN, 2013). A esse panorama, somam-se o fim do emprego, em tese,

vitalício e o desaparecimento de carreiras inteiramente dedicadas a uma única instituição (SENNETT, 2012).

De fato, torna-se difícil a articulação quando não é mais a formação escolar ou o posto ocupado que compõem uma categoria. Hoje, as especificidades e diferenciações de cada indivíduo no mundo do trabalho (suas tarefas, seus projetos, seus salários, suas condições estruturais de trabalho etc.) impedem sua identificação em uma categoria mais coletiva e, logo, não o insere em um grupo de articulação coletiva. As questões passam a ser individuais. Assim sendo, o trabalho por competência tem relação com a desarticulação do trabalhador.

Tendo em vista o novo perfil do trabalhador, apoiado nas competências que devem ser utilizadas em tarefas específicas, o discurso empresarial e a prática concreta do trabalho encontram valores trabalhados de forma ambígua, ideológica, a fim de sedimentar a nova cultura do trabalho.

Em relação ao contexto, é valorizada e incorporada a época das novidades. “A inovação gerencial virou objeto de culto, que muitos perseguem irrefletidamente. É a busca da inovação pela inovação” (WOOD JR., 1999, p. 79).

Da indústria de fast-foods (do qual o McDonalds é exemplar), à sociedade do entertainment e do shopping center, passando pela indústria de computadores, a tendência depreciativa e decrescente do valor de uso das mercadorias é evidente. Com a redução dos ciclos de vida útil dos produtos, os capitais não têm outra opção, para sua sobrevivência, senão “inovar” ou correr o risco de ser ultrapassados pelas empresas concorrentes (ANTUNES, 2011, p. 120).

A abertura do mercado e a pressão por competitividade produziu um discurso pró-inovação. Inovar passou a fazer parte do dia a dia das empresas. Em algumas delas, ameaçadas por concorrentes mais fortes, o comportamento inovativo tornou- se compulsório. Quem não inovar desaparece. De exceções, inovações transformaram-se em eventos corriqueiros” (WOOD JR., 1999).

Ao lado da inovação, a autonomia se apresenta como outro valor paradigmático. E pode figurar também na forma de outro termo - liberdade -, vocábulo muito estimado pelo discurso capitalista. Para Sennett (2012), no entanto, as mudanças do capitalismo (incluindo as instituições, as capacitações e os padrões de consumo) não libertaram as pessoas.

Os pórticos da modernidade anunciavam o projeto da autonomia do sujeito, como uma vida emancipada e digna (BELLUZZO, 2013). Marx já havia apontado, em sua crítica à economia política, que a lógica do capitalismo seria incapaz de realizar os valores prometidos pela sociedade burguesa, promovendo condições de vida capazes de garantir a autonomia do indivíduo moderno. Enquanto para o indivíduo, a autonomia se aproximava da singularidade de si e de sua pertinência cívica, para o capital, a autonomia é o individualismo (BELLUZZO, 2013).

Essa autonomia adquire, contemporaneamente, o impulso para a competição entre os indivíduos trabalhadores. “A concorrência generalizada se impõe aos indivíduos como uma força externa, irresistível” (BELLUZZO, 2013, p. 22). O autor conclui: “Difunde-se a ideia de que a liberação das forças impulsiona a acumulação do capital em um movimento ‘natural’ e ‘irreversível’ em direção ao progresso e à realização da autonomia do indivíduo” (p. 33).

Esses valores estão num horizonte mais amplo: o da flexibilidade como paradigma. A única constante parece ser um panorama social em constante transformação. O estável, o seguro e o planejado não valem para a vida. Da mesma maneira como as empresas estão inseridas no mercado, o indivíduo está inserido na vida: metas e projetos são o que se pode vislumbrar em curto prazo. É preciso se mover, sempre.

Tendo em vista essa síntese, vejamos, a seguir, como a mídia operacionaliza jogos ideológicos de linguagem, contribuindo para o reforço desse novo comportamento.