Os grafites do Benfica combinam com a atmosfera desse bairro, proporcionando vida e cor aos cinzentos muros que até então só tinham cartazes de propagandas publicitárias e políticas. Assim, essa expressão torna-se um tema instigante do ponto de vista lúdico e educativo. Para falarmos sobre as práticas educativas dos grafiteiros dessa localidade é preciso inicialmente esclarecer o conceito de educação que possui múltiplas conotações e compreensões. Nesse sentido, não é nosso objetivo explorar todas as abordagens sobre esse conceito, mas expor as reflexões a cerca do nosso entendimento sobre ação educativa.
Como dito acima, a ideia de educação possui uma variedade de interpretações. Estamos diante de um conceito que já foi exaustivamente explorado por muitos autores. Segundo a visão de alguns deles, como Souza (2008), Libâneo (1994) e Brandão (2007), é consenso o pensamento que não há uma forma única nem um único modelo de educação. Em seus escritos, defendem que as pessoas sempre desenvolveram formas de aprendizados no curso de suas vidas. Souza afirma (2008, p.55) que “as pessoas sempre se educaram ao longo do processo histórico.” Dessa forma, entendemos por educação como um fenômeno que acontece em qualquer tempo e em qualquer espaço.
Estamos diante de um conceito que, embora amplo, indica invariavelmente práticas de formação humana como: instruir, produzir comportamentos, trocar saberes que visam o preparo para a vida individual e social. Libâneo (1994, p.16) defende que educação “é um fenômeno social e universal, sendo uma atividade humana necessária ao funcionamento de todas as sociedades.” Assim, devemos considerar a amplitude de lugares onde acontece o ensino e/ou a aprendizagem. Souza (2008, p.56) enfatiza que a educação pode ser percebida nos mais variados espaços,
nas cozinhas e quartos, nos becos e avenidas, na missa e na procissão, na classe, na cantina e no pátio, na prisão e na liberdade, no trabalho e nas greves, nas festas e nos funerais, no mar e no sertão, cedo na vida e tarde na vida, em todos os períodos históricos, a todo tempo as pessoas estão se educando.
Esses são alguns autores que contribuíram para nosso entendimento de que um dos fenômenos mais significativos dos processos sociais contemporâneos é a ampliação do conceito de educação e a diversificação das atividades educativas.
Na história da educação, reproduzida até os dias de hoje, “o pensamento educativo e a sistemática educacional chegou pela filosofia e converteu-se em pedagogia, através da organização didática em lições e curso.” (MAGALHÃES, 2007, p. 14). Deve-se aos filósofos o quadro da nossa tradição pedagógica e o historiador que colhe a parte fundamental do ideal filosófico para construir o pensamento pedagógico. Assim, História e educação se juntaram com objeto e discurso próprio, transformando-se em disciplina acadêmica: História da Educação. Confere a disciplina discutir o templo escolar, o estabelecimento das grandes linhas de evolução, a preservação e a atualização da memória educativa que, segundo Magalhães (2007), possui finalidades predominantes de manutenção do Estado. Sobre o pensamento pedagógico, Brandão (2007, p.26) informa que: “O ensino formal é o momento em que a educação se sujeita à pedagogia (a teoria da educação), cria situações próprias para o seu exercício, produz os seus métodos, estabelece suas regras e tempos e constitui executores especializados.”
Vivemos num período histórico em que a palavra educação está de tal maneira agregada ao conceito de organização e manutenção, que é muito comum serem utilizadas como sinônimas. Percebemos isso quando nos deparamos com o pensamento do senso comum, que costumeiramente relaciona a palavra educação aos espaços escolares onde se confere ao indivíduo um conjunto de bens intelectuais e simbólicos. Nesse caso, chamamos atenção também para a existência de uma educação não intencional que se refere às influências do contexto social e as condições objetivas que incidem sobre os indivíduos.
Acreditamos que além da escola, existem outros ambientes provocadores do aprendizado em que incluímos os centros urbanos como uma possibilidade também de espaço educativo. São nas ruas da cidade onde os grafiteiros aprendem a grafitar. Nesses espaços, trocam conhecimentos e experiências, aprendem as dimensões do local, a quantidade e o tipo de material que serão utilizados. Essas são as práticas educativas das quais nos referimos cujos princípios relacionam-se ao movimento de aprender-ensinar-ensinar-aprender no qual as pessoas se relacionam e produzem os seus modos de vida, ou seja, é na intencionalidade da ação ou no propósito de aprender e ensinar algo a alguém que caracteriza o ato educativo. Freire (1996, p.70) anuncia que:
Toda prática educativa demanda a existência de sujeitos, um que, ensinando, aprende, outro que, aprendendo, ensina, daí o seu cunho gnosiológico; a existência de objetos, conteúdos a serem ensinados e aprendidos; envolve o uso de métodos, de técnicas, de materiais; implica, em função de seu caráter diretivo, objetivo, sonhos, utopias, ideais. Daí a sua politicidade, qualidade que tem a prática educativa de ser política, de não poder ser neutra.
É nesse sentido que pensamos o grafite. Trata-se muito mais do que uma simples técnica de pinturas, mas um meio também de se pensar educação. Para compreender como isso acontece, ocupamo-nos, portanto, de localizá-los, ouvi-los, saber o que pensam, como se relacionam, quais são seus itinerários, suas trajetórias de vida, o que os motiva a grafitar, para quem e por que grafitam e como se sentem ao fazê-lo. Para ilustrar essa situação utilizamos nosso diário de campo no qual registramos uma experiência que marcou nossa entrada no universo do grafite em que descobrimos que o processo de grafitagem envolve uma ambiência que cria territórios educativos em torno do qual os grafiteiros se agrupam, trocam seus símbolos e produzem seus conhecimentos.
Foi numa manhã de sábado do dia 5 de novembro de 2011 que nos aventuramos pela primeira vez com alguns grafiteiros nas ruas do Benfica. Estávamos à sua espera na praça da Gentilândia a convite de Luz, um grafiteiro da crew In Ação (IAC). Nesse dia conhecemos Igor um jovem grafiteiro de quinze anos e como eles dizem um “brother” desse movimento que vez por outra frequenta o bairro. Igor ficou famoso por “bombardear” 54 muitos muros da cidade utilizando apenas as letras do seu nome. Igor nos chamou atenção por ser um dos mais jovens grafiteiros da cidade, mas mesmo assim, já acumulou boas experiências com grafites. Igor se apresentou: “Sou da nova escola”, o que quer dizer da nova geração de grafiteiros. Assim como o grafite, estes dois grafiteiros também transitam entre as vertentes desse movimento em que o spray é apenas um passaporte para suas aventuras.
Luz (IAC) dias antes havia comunicado sobre sua ida ao local e que estaria acompanhado por outros colegas a fim de “detonarem” 55 os muros desse bairro. É que esse tipo de encontro serve para grafitarem, colocarem a conversa em dia e trocarem informações sobre seus trabalhos e é uma prática comum entre os grafiteiros que possuem afinidades. Aproveitamos essa oportunidade para conhecer a rotina desses sujeitos e porque não aprender também a grafitar.
Sentados nos bancos da praça para decidir qual seria o trajeto e o muro que “atacaríamos”, Igor se levantou e disse: “o muro tem que ser pico do bom!”. Após seu comentário sugerimos alguns muros, mas na prática não sabíamos de fato o que era um “muro pico do bom”. Sem muitas cerimônias perguntamos do que se tratava, foi quando Igor percebeu que estávamos nos sentindo um “peixe fora d’água”. Sorrindo respondeu: “deve ser
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A palavra bombardear tem origem no bomb que é um estilo de grafite com letras grandes e arredondadas que equivale a um tipo de pichação.
um lugar que a gente não atropele56 outros trampos57 de preferência um muro chapado que todo mundo vê”. Balançamos a cabeça fingindo ter entendido sua explicação, mas sua resposta nos confundiu ainda mais porque veio acompanhada de termos que até então nunca tínhamos ouvido. Para quebrar o gelo, perguntamos bem baixinho se existia algum dicionário “grafitez”. Disfarçadamente passamos a anotar tudo o que nos parecia estranho para não haver nenhum “vacilo” nos próximos encontros.
Estávamos atrapalhadas com aquela situação, pois era algo inusitado em nossas vidas, nunca tínhamos saído de nossas casas para grafitar, mas mesmo assim, fomos à procura do “muro pico do bom!”. Seguindo os passos desses grafiteiros, demos vários “rôles” pelas ruas do Benfica e de fato constatamos que os muros desse bairro são disputadíssimos. “Marinheiros de primeira viagem” tínhamos que seguir as orientações de Igor de não “atropelar” e nem rasurar outros “trampos”, em outras palavras, respeito em primeiro lugar aos grafiteiros e pichadores da cidade. Estávamos atentos porque a não observação desse princípio faz com que os grafiteiros percam respeito e prestigio dentro do movimento e, por consequência disso, tornam-se alvos constantes de perseguições por abrirem espaços para que outros grafiteiros também rasurarem e “atropelem” seus trabalhos.
Quando chegamos a rua Padre Miguelino, encontramos uma sequência de muros do Sr Julio que divide calçada com um conhecido e movimentado bar do bairro: o Pitombeira. Ao contrário do que pensávamos não foi fácil convencê-lo para fazermos uns grafites. Pelo receio de não saber do que se tratava, houve certa resistência e a autorização só se confirmou depois de uma longa conversa ao “pé de orelha”. Sr. Julio, então disse: “vou deixar porque tão dizendo que é arte. Nessa semana mesmo eu mandei pintar o muro que tava todo pichado e não queremos isso de novo”. Ficamos todos empolgados com a permissão para grafitarmos aquele muro e tínhamos até a sombra de uma árvore para colocar nossas mochilas, os rolinhos e as latas de sprays que há horas estávamos carregando.
O clima era bastante informal e um burburinho animado percorria a calçada. Os moradores passavam, paravam, observavam e alguns até se aproximavam para fazer perguntas ou comentários. Naquele momento, éramos o centro das atenções dos olhares observadores e curiosos que queriam ver o que iríamos fazer com todo aquele material.
Mantivemo-nos atentos para não perder a concentração e aproveitar ao máximo aquela oportunidade de vivenciar na prática uma experiência com grafites, além do mais
56“Atropelar” é o mesmo que fazer um grafite num local já grafitado, ou seja, é fazer um grafite em cima do outro.
sabíamos da necessidade de estabelecer contatos com esses sujeitos dos quais só conhecíamos os rastros, os desenhos e as assinaturas, ou melhor, as assinaturas de seus apelidos nos muros daquele bairro. Naquele momento tínhamos também que ser rápidos porque é costume os grafiteiros grafitarem à luz do dia para trabalharem melhor as possibilidades técnicas do desenho, os efeitos luminosos das cores, as sombras e os traços dos sprays.
Rapidamente “chapamos” o muro, ou melhor, uma parte que ainda não havia sido pintado. Tanto Luz (IAC) como Igor, transpareciam satisfação de grafitar os muros daquela rua e nós pesquisadores estávamos encantados com os efeitos esfumaçados que saíam das latas dos sprays. Naquele momento nada era mais importante do que aqueles muros e a possibilidade de grafitar com aqueles grafiteiros. Entre uma pausa e outra para bebermos água, fazíamos algumas perguntas, escrevíamos, fotografávamos e filmávamos para não perder momentos daquela cena.
Tudo aconteceu muito rápido, mas num tempo suficiente para percebermos as práticas educativas desses grafiteiros. A habilidade com o material e a agilidade nos muros era algo que realmente impressionava, aguçando ainda mais nossa curiosidade de compreender como aprendiam aquelas técnicas, os desenhos e o manuseio dos sprays.
Quando terminamos já era noite, mas me lembro que ainda ficamos durante alguns minutos olhando para nossos grafites, observamos os detalhes como as cores, os traços e as sombras feitas pelos sprays. Todos aparentaram estar cansados afinal de contas tínhamos passado o dia todo naquela aventura. Combinamos de nos encontrar outras vezes e nos despedimos quase que silenciosamente com a satisfação de coisa concluída.
As percepções contidas no relato dessa história nos auxiliaram na apresentação e análises das apropriações e aprendizados que os grafiteiros desenvolvem ao longo de suas trajetórias. A abordagem sobre a valorização das práticas educativas é de fundamental importância, uma vez que as ações dos grafiteiros modificam os espaços públicos com apropriações inusitadas a favor das transformações sociais.