A Constituição Federal consagra, em seu artigo 170, inciso V, a defesa do consumidor como um princípio geral da ordem econômica, emparelhando-a com princípios basilares para o modelo político-econômico brasileiro, como o da
soberania nacional, da propriedade privada, da livre concorrência e outros149.
148 Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer
forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição. [...] § 3º - Compete à lei federal: [...] II - estabelecer os meios legais que garantam à pessoa e à família a possibilidade de se defenderem de programas ou programações de rádio e televisão que contrariem o disposto no art. 221, bem como da propaganda de produtos, práticas e serviços que possam ser nocivos à saúde e ao meio ambiente. [...] § 4º - A propaganda comercial de tabaco, bebidas alcoólicas, agrotóxicos, medicamentos e terapias estará sujeita a restrições legais, nos termos do inciso II do parágrafo anterior, e conterá, sempre que necessário, advertência sobre os malefícios decorrentes de seu uso.
149 Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem
A previsão do princípio da defesa do consumidor como orientador da ordem econômica revela um compromisso entre as forças políticas liberais e as
reivindicações populares de justiça social no mercado de consumo150. Portanto, a
defesa do consumidor consagra-se como um dos princípios basilares a ser seguido para o desenvolvimento da atividade econômica, sendo um meio para se atingir a valorização do trabalho humano e a livre iniciativa, para que possa assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social.
Com efeito, a realização do princípio constitucional da defesa do consumidor não elide as demais normas principiológicas do artigo 170 da Constituição Federal, ainda que, aparentemente, polarizem um conflito inconciliável. Os princípios gerais da atividade econômica relacionados na Constituição Federal devem coexistir em plena harmonia, já que, a priori, nenhum pode ser considerado de maior relevância em relação ao outro. Todos os princípios e fundamentos do artigo 170 da Carta Magna são importantes e devem ser interpretados harmoniosamente. Concernente a isso, Fábio Konder Comparato ensina que não há razão para distinguir a defesa do consumidor, em termos de nível hierárquico, dos demais princípios econômicos
declarados no art. 170 da Constituição Federal151.
Nessa linha de pensamento, cabe destacar que a defesa do consumidor não é incompatível com a livre iniciativa e o crescimento econômico, uma vez que ambos
seguintes princípios: I – soberania nacional; II – propriedade privada; III – função social da propriedade; IV – livre concorrência; V – defesa do consumidor. (grifo nosso)
150 Eros Roberto Grau ressalta a importância constitucional da defesa do consumidor: “Princípio
constitucional impositivo (Canotilho), a cumprir dupla função, como instrumento para a realização do
fim de assegurar a todos existência digna e objetivo particular a ser alcançado. No último sentido, assume a feição de diretriz (Dworkin) - norma-objetivo - dotada de caráter constitucional conformador, justificando a reinvindicação pela realização de políticas públicas (GRAU, Eros. A ordem econômica
na Constituição de 1988: interpretação e crítica. 5. ed. São Paulo: Malheiros, 2000, p. 262). Citamos
também a contribuição de José Afonso da Silva ao comentar sobre o artigo 170 da Constituição Federal, tendo em vista que “Realça de importância, contudo, sua inserção entre os direitos fundamentais, com o que se erigem os consumidores à categoria de titulares de direitos constitucionais fundamentais. Conjugue-se a isso com a consideração do art. 170, V, que eleva a defesa do consumidor à condição de princípio da ordem econômica. Tudo somado, tem-se o relevante efeito de legitimar todas as medidas de intervenção estatal necessárias a assegurar a proteção prevista. Isso naturalmente abre larga brecha na economia de mercado, que se esteia, em boa parte, na liberdade de consumo, que é a outra face da liberdade do tráfico mercantil fundada na pretensa lei da oferta e da procura”. (SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional
Positivo. 24. ed. São Paulo: Malheiros, 2005, p. 262-263)
151 COMPARATO, Fábio Konder. A proteção ao consumidor na Constituição Brasileira. Revista de
estão previstos no artigo 170 da Constituição Federal, sendo determinante a interpretação harmônica da defesa do consumidor e a livre iniciativa a fim de assegurar o exercício da atividade econômica de forma compatível com os direitos do consumidor.
Por fim, destaca-se a lição de Bruno Miragem que considera o direito do consumidor como direito fundamental e princípio da ordem econômica, na medida em que “assume no direito brasileiro uma nítida função de ordenação do mercado a partir do interesse do consumidor. Mais do que exceção imponível à dinâmica da livre iniciativa econômica, articula-se com esta na formação de um conceito novo de
mercado”152. A defesa do consumidor e a livre concorrência integram-se a partir de
instrumentos jurídicos de efetivação da ordem econômica.
Conforme visto, a Constituição torna matéria constitucional a proteção do consumidor, deixando, porém, sua regulamentação à lei infraconstitucional. Quanto a isso, esclarece Bruno Miragem:
Nesse sentido, o art. 5º, XXXII, ao estabelecer pela locução “na forma da lei” um comando específico ao legislador para que realizasse o detalhamento da proteção do constitucional, reconheceu a este a possibilidade de construção das normas próprias de proteção, de forma a otimizar a finalidade específica da disposição constitucional. De outra parte, note-se que a extensão do comando da norma constitucional ao legislador não se restringiu apenas à determinação da feitura da lei, senão, em face da dicção do art. 48 do Ato das Disposições Transitórias, determinou a realização de um Código de Defesa do Consumidor153.
Deste modo, em seu artigo 48 do Ato das Disposições Transitórias, o constituinte originário atribui ao Congresso Nacional a tarefa de elaborar o Código de Defesa do Consumidor, na tentativa de harmonizar as relações entre consumidor, de um lado, e fornecedor, de outro. Para tanto, o constituinte concedeu um prazo de 120 dias da promulgação da Constituição Federal, para a elaboração desse novo estatuto legislativo. Este período, no entanto, não foi suficiente. Somente em 11 de setembro
152 MIRAGEM, Bruno. O direito do consumidor como direito fundamental: consequências jurídicas de
um conceito. Revista de Direito do Consumidor, São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, vol. 43, p. 111 - 133, 2002, p. 9.
153 MIRAGEM, Bruno. O direito do consumidor como direito fundamental: consequências jurídicas de
um conceito. Revista de Direito do Consumidor, São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, vol. 43, p. 111 - 133, 2002, p. 6.
de 1990 foi promulgada a Lei n. 8.078, atual Código de Defesa do Consumidor, com o objetivo de intervir nas relações de consumo visando à proteção do consumidor,
de modo a garantir um maior equilíbrio e igualdade nas contratações154.
Foi então que veio a consagração do Código de Defesa do Consumidor, um diploma legislativo voltado especificamente para a solução de conflitos na relação de consumo, considerando todas as peculiaridades desta relação entre fornecedor e consumidor, já que este diploma trouxe em seu bojo, conceitos peculiares desta nova modalidade de relação jurídica.
No entanto, o princípio constitucional da defesa do consumidor não se esgota na simples elaboração do Código de Defesa do Consumidor. Torna-se imperiosa a concretização da defesa do consumidor, o que exige o esforço do operador do direito na correta interpretação e aplicação do referido diploma legal, em harmonia com o mandamento constitucional. Logo, também no plano infraconstitucional, serão relevantes os princípios jurídicos no desenvolvimento de suas funções fundamentadora e hermenêutica.
Neste sentido, o Código de Defesa do Consumidor contempla, além das normas de conduta e de organização, os princípios orientadores das relações de consumo vivenciadas no meio físico ou no meio eletrônico, que serão objeto de análise ao longo deste trabalho.