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A leishmaniose visceral canina foi documentada pela primeira vez por Nicole e Comte em 1908 (NICOLE; COMTE, 1908). No Brasil, os primeiros casos de calazar canino foram diagnosticados no Pará em 1938 (CHAGAS; CUNHA; FERREIRA, 1938), 1942 em Pernambuco (PONDÉ; MANGABEIRA FILHO; JANSEN, 1942), e no Ceará, a partir de 1954 (ALENCAR, 1959; DEANE; DEANE, 1954a). Desde então, os cães foram apontados como os principais reservatórios de Leishmania e os estudos com cães tornaram-se importantes, porém, até hoje, muitas questões permanecem sem resposta.

Em áreas endêmicas, a proporção de cães infectados é alta e pode atingir 80% da população, porém o resultado da infecção aparece como um espectro dinâmico de formas clínicas que variam de subclínica à doença severa, tornando-se difícil determinar o estado imunológico do cão ao longo da infecção e, portanto, o seu diagnóstico (CARRILLO; MORENO, 2009). Segundo (ALMEIDA et al., 2005a), cães infectados com L. i. chagasi podem apresentar a doença clínica, permanecerem assintomáticos, desenvolverem resistência à doença clínica por longos períodos ou apresentarem poucos sintomas que podem resolver espontaneamente, inclusive levando à cura. Em geral, a doença no cão é sistêmica e crônica, no entanto a evolução aguda e grave pode levar o animal ao óbito em poucas semanas (ALMEIDA et al., 2005b).

Os sinais clínicos podem ser gerais ou localizados. Inicialmente, a doença provoca um enfartamento dos linfonodos, dermatoses, febre do tipo irregular e imunossupressão. Esse primeiro estágio coexiste com soroconversão e presença de parasitas no sistema reticuloendotelial. Subseqüentemente, o animal pode apresentar perda de apetite, emagrecimento acentuado e anemia. Os sinais locais mais constantes e de maior valor diagnóstico são a descamação da pele que evolui para alopecia e pode ocorrer em placas ou extensas áreas; localizam-se de preferência na cabeça e no pescoço, em volta dos olhos, cotovelos e pontas das patas e, com o progresso da doença, a alopecia pode ser subtotal ou total. O crescimento exagerado das unhas (hipertrofia ungueal ou onicogrifose) é um dos sinais mais característico do calazar canino. A pele se torna flácida, as apófises e costelas salientes, a massa muscular se atrofia, ocorre hipergamaglobulinemia e anorexia. Frequentemente, são observadas conjuntivites, ceratites e uveítes, podendo também ocorrer blefarites. Finalmente, evolui com epistaxes, diarréia, neuralgias, poliartrites, fissuras no coxim plantar, úlceras interdigitais causando claudicação, apatia, caquexia, prostração, insuficiência renal, hepatoesplenomegalia, paresia do trem posterior, passando a um estágio de coma e morte (ABRANCHES et al., 1991; ALENCAR, 1959; ALVAR et al., 2004; BETTINI et al., 1986a; BETTINI et al., 1986b; SANTIAGO et al., 2008). Sinais atípicos incluem colite crônica, alterações hemostáticas, distúrbios dos sistemas cardiovascular, respiratório e músculo-esquelético (BLAVIER et al., 2001; MAIA; CAMPINO, 2008).

No Brasil, a forma assintomática da doença é encontrada com índices variados, geralmente representa 40 a 60% de uma população soropositiva.

Essa situação contribui para explicar as dificuldades das medidas de controle, como o diagnóstico preciso da doença e o sacrifício dos cães soropositivos, uma vez que foi demonstrado que os cães sintomáticos e parte dos portadores assintomáticos são infectantes para os flebotomíneos, embora com um risco reduzido em relação aos sintomáticos. Além disso, a leishmaniose apresenta muitas características clínicas e patológicas semelhantes a outras doenças caninas (ALVAR et al., 2004; BARROUIN-MELO et al., 2006; CAMPINO; ABRANCHES, 2002; GOMES et al., 2007; MOLINA et al., 1994; SILVA et al., 2001). Desta forma, o diagnóstico precoce da infecção em animais, particularmente antes do aparecimento dos sintomas e, em alguns casos, mesmo antes da soroconversão, pode ser crítico para controlar a propagação da doença e vem se tornando parte essencial no controle da leishmaniose humana.

O diagnóstico da LV canina baseia-se em exame físico completo associado a exames laboratoriais. O diagnóstico laboratorial pode ser realizado utilizando-se diferentes métodos: diretos (métodos parasitológicos com detecção do parasita ou do seu DNA) e indiretos (testes imunológicos).

Os métodos parasitológicos, em geral, são conclusivos, rápidos e de baixo custo para demonstração das formas amastigotas, porém necessitam de mão de obra qualificada. Esfregaços sanguíneos, biópsias de pele, aspirados de medula óssea ou linfonodos podem ser utilizados para a confirmação da infecção, no entanto o isolamento de Leishmania em meios de culturas específicos é um processo demorado, de custo mais elevado e pouco usado na rotina em áreas endêmicas, embora seja uma prática bastante realizada no âmbito científico (DAVIDSON, 1999; FERRER, 1999).

Os testes imunológicos são amplamente utilizados no diagnóstico da LV canina no Brasil, tanto para diagnóstico individual como para inquéritos epidemiológicos, por apresentarem alta sensibilidade e especificidade. Os métodos sorológicos comumente utilizados são imunofluorescência indireta (RIFI) e ensaio imunoenzimático (ELISA). Reação de fixação de complemento, teste de hemaglutinação direta e indireta, imunoeletroforese e western blotting, dentre outros, também podem ser utilizados na detecção de anticorpos anti-

Leishmania (DEPLAZES et al., 1995; EL et al., 1989; GOTTSTEIN et al., 1988),

diferindo quanto à sensibilidade e especificidade de acordo com o antígeno utilizado. Questões específicas podem limitar o diagnóstico sorológico e explicar as taxas de infecções subestimadas em populações caninas de áreas endêmicas, tais como o potencial para resultados falso-positivos devido às reações cruzadas com outros agentes infecciosos e resultados falso-negativos obtidos de cães infectados assintomáticos (ALVAR et al., 2004; CARVALHO et al., 2002; FERRER et al., 1995; MANCIANTI; PEDONESE; POLI, 1996; OLIVEIRA et al., 2009; ROURA; SANCHEZ; FERRER, 1999).

O teste ELISA utilizando o antígeno solúvel de Leishmania (SLA) apresenta sensibilidade e especificidade semelhante à RIFI, com indicação para estudos em grande escala (BARBOSA-DE-DEUS et al., 2002). A utilização do antígeno recombinante rK39 permitiu o desenvolvimento de um ELISA sensível e altamente específico para o diagnóstico de LV, em relação ao antígeno solúvel de Leishmania (SLA), sendo considerado marcador de doença ativa tanto em humanos como em cães. O antígeno recombinante (rK39) é composto por peptídeos da família das cinesinas, contendo resíduos repetitivos de 39 aminoácidos, altamente conservado entre as espécies de Leishmania

causadoras de LV e expresso predominantemente pelas formas amastigotas de L. i. chagasi com alta especificidade em diferentes populações humanas: Brasil e Sudão (BRAZ et al., 2002; BURNS, Jr. et al., 1993); China e Paquistão (QU et al., 1994) e diferentes populações caninas (METTLER et al., 2005; OZENSOY et al., 1998; RHALEM et al., 1999; SCALONE et al., 2002; ZERPA et al., 2000).

Benzer Belgeler