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As conexões do direito ao meio ambiente com o direito da personalidade são observadas quando se referem ao direito fundamental. (LEITE, 2012, p.276). O direito fundamental ao meio ambiente possui dupla natureza jurídica, apresentando-se, de um lado, concomitantemente como direito de personalidade, no sentido de ser possível a todos os indivíduos pleitear o direito de defesa contra atos lesivos ao meio ambiente, pois a sua preservação ecologicamente equilibrada é condição ao pleno desenvolvimento da personalidade humana; e de outro, um elemento fundamental de ordem objetiva, vez que decorre do artigo 225 da Constituição a obrigação de que os poderes constituídos realizem a proteção e promoção do meio ambiente, com vista à consecução da equidade ambiental. (CANOTILHO, 2003).

O fenômeno da constitucionalização de direitos, como decorrência do que a doutrina costuma denominar de neoconstitucionalismo,136 é resultado da supremacia da Constituição

136 De acordo com Luí Roberto Barroso (p.52), “O novo direito constitucional ou neoconstitucionalismo desenvolveu-se na Europa, ao longo da segunda metade do século XX, e, no Brasil, após a Constituição de 1988. O ambiente filosófico em que floresceu foi o do pós-positivismo, tendo como principais mudanças de paradigma, no plano teórico, o reconhecimento de força normativa à Constituição, a expansão da jurisdição constitucional e a elaboração das diferentes categorias da nova

no ordenamento jurídico e da imposição dos valores consagrados pelas normas constitucionais ao conjunto normativo como um todo. Daí a necessidade de aprofundamento no conteúdo dos direitos fundamentais consagrados pela Constituição, enquanto forma de compreender o sentido das normas que compõem os diversos ramos do Direito, a partir de uma visão sistêmica.

Os direitos fundamentais, como se afirmou, constituem um complexo de normas constitucionais, limitadoras (dimensão negativa) e propositivas (dimensão positiva) do poder estatal, no sentido de resguardar a dignidade da pessoa humana, visando garantir o pleno desenvolvimento da personalidade do indivíduo no âmbito do direito positivo nacional. Conforme também se observou, o macromodelo constitucional fez emergir, no ordenamento, o fenômeno da constitucionalização dos direitos infraconstitucionais, sobressaindo, entre eles, a legislação civil, que, deixando de cuidar de questões meramente patrimoniais, passou a dar relevância à tutela do caráter existencial do ser humano, com os direitos de personalidade destinados à tutela da pessoa humana, considerados essenciais à sua dignidade e integridade.

Como não poderia ser diferente, esse fenômeno também repercute no Direito Ambiental, impulsionado pela degradação do meio ambiente e uma nova e necessária conscientização ecológica.137 Verifica-se que a própria Constituição Federal destina diversas normas, notadamente de natureza fundamental, às questões ambientais, estruturando o que se pode chamar de constitucionalização do meio ambiente ou ordem constitucional ambiental, que integram e fazem parte do Estado de Direito Socioambiental.

A consolidação dessa realidade originou-se na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente de 1972 (Declaração de Estocolmo). A princípio, os países ocidentais europeus, desatando-se de seus regimes totalitários, como Grécia (1975), Portugal (1976) e

interpretação constitucional. Fruto desse processo, a constitucionalização do Direito importa na irradiação dos valores abrigados nos princípios e regras da Constituição por todo o ordenamento jurídico, notadamente por via da jurisdição constitucional, em seus diferentes níveis. Dela resulta a aplicabilidade direta da Constituição a diversas situações, a inconstitucionalidade das normas incompatíveis com a Carta Constitucional e, sobretudo, a interpretação das normas infraconstitucionais conforme a Constituição, circunstância que irá conformar-lhes o sentido e o alcance. A constitucionalização, o aumento da demanda por justiça por parte da sociedade brasileira e a ascensão institucional do Poder Judiciário provocaram, no Brasil, uma intensa judicialização das relações políticas e sociais. Tal fato potencializa a importância do debate, na teoria constitucional, acerca do equilíbrio que deve haver entre supremacia constitucional, interpretação judicial da Constituição e processo político majoritário. As circunstâncias brasileiras, na quadra atual, reforçam o papel do Supremo Tribunal Federal, inclusive em razão da crise de legitimidade por que passam o Legislativo e o Executivo, não apenas como um fenômeno conjuntural, mas como uma crônica disfunção institucional.” (Disponível em: http://www.luisrobertobarroso.com.br/wpcontent/themes/LRB/pdf/neoconstitucionalismo_e_constitucionalizacao_do_direito _pt.pdf. Acesso em: 18 jun.2015).

137 Antônio Herman Benjamin (2007, p.59.) indaga: “O que causou essa intrigante, não obstante obscura, mudança de estrutura constitucional? Errará quem apostar em uma inovação de moda, por isso efêmera, destituída de bases objetivas e alheia a necessidades humanas latentes e prementes, que usualmente antecedem o desenho da norma. Dificilmente, na experiência comparada, encontram-se instâncias em que as transformações constitucionais de fundo sucedem por simples acidente de percurso ou capricho do destino. Aqui, sucede o mesmo, pois é a crise ambiental, acirrada após a Segunda Guerra, que libertará forças irresistíveis, verdadeiras correntes que levarão à ecologização da Constituição, nos anos 70 e seguintes.”

Espanha (1978), aproveitaram a recente redemocratização para inserir, em suas constituições, matérias de ordem ambiental. No Brasil, a proteção ao meio ambiente, enquanto bem comum (= coletivo lato sensu), foi consagrada pela Constituição Federal de 1988, ao instituir expressamente, em seu texto (artigo 225), o direito fundamental de terceira geração (= dimensão)138 a um meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo.

Os direitos fundamentais de terceira geração, como é o caso do direito ao meio ambiente, assentados na ideia de fraternidade e de solidariedade, são caracterizados por sua natureza difusa. Ao ser influenciado por essa tendência, a proteção do direito fundamental ao meio ambiente não se limita a resguardar apenas o ser humano, individualmente considerado, mas, avançando em uma nova dimensão, a partir de uma perspectiva solidária, atua em defesa da própria coletividade, em que tanto os sujeitos públicos quanto os privados têm o dever de abstenção (status negativo) e atuação (status positivo), no sentido de proteger e implementar a conservação ambiental.

Com base nessa mudança de paradigma do sistema jurídico, Antonio Hermann Benjamin (2007) anota que a constitucionalização do meio ambiente, como núcleo essencial do Estado de Direito Socioambiental, importou em significativos benefícios no que concerne à proteção ambiental, dentre eles, destacando o estabelecimento de um dever constitucional genérico de não degradar, base do regime de exploração limitada e condicionada; a ecologização da propriedade e da sua função social; a proteção ambiental como direito fundamental; a legitimação constitucional da função estatal reguladora; a redução da discricionariedade administrativa e a ampliação da participação pública.

Antonio Hermann Benjamin (2007, p.69-80) destaca também os benefícios formais da constitucionalização do meio ambiente:

[...] máxima preeminência e proeminência dos direitos, deveres e princípios ambientais, aquela implicando superioridade e posição hierárquica superior, esta perceptibilidade e visibilidade máxima no conjunto de normas; 2) segurança normativa; 3) substituição do paradigma da legalidade ambiental; 4) controle de constitucionalidade da lei.

Assim, sob qualquer ângulo de análise, percebe-se que o direito ao meio ambiente é considerado um direito fundamental. Isto porque, seja pelos valores ligados ao princípio da dignidade da pessoa humana (aspecto axiológico), pela materialidade normativa desse direito

138 Nesse sentido, Hamilton Alonso Jr. citando Paulo Bonavides (2006, p.35), a terceira fase do reconhecimento de direitos assentada na fraternidade surge do contexto em que “A consciência de um mundo partido em nações desenvolvidas e subdesenvolvidas ou em fase de precário desenvolvimento deu lugar em seguida a que se buscasse outra dimensão dos direitos fundamentais, até então desconhecida.”.

(essencial às estruturas sociais) ou por sua dimensão formal (expressa disposição constitucional – artigo 225), identifica-se, em qualquer acepção, o meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado como um direito fundamental de terceira geração (= dimensão).

Do ponto de vista político-jurídico, a constitucionalização do direito ao meio ambiente equilibrado e essencial à sadia qualidade de vida, enquanto direito fundamental do ser humano, deve ser efetivado em sua plenitude e por meio de diversos dispositivos constitucionais que integram um programa jurídico-constitucional para as questões voltadas ao meio ambiente. Esse direito fundamental, segundo Siqueira (2014), deve transcender uma abordagem meramente tecnicista do Direito, contextualizado numa sociedade de risco, com modelo de produção econômica progressiva, em que perpassam fatores e influências que necessitam se integrar às normas jurídicas instituídas sob os mais diversos interesses, tudo sob a égide de um Estado de Direito Socioambiental.

Ressalta-se em relação aos dispositivos constitucionais destinados à proteção ambiental, que o quadro constitucional ambiental brasileiro é amplo, havendo outros dispositivos constitucionais ambientais também relevantes além do artigo 225139 não obstante tal disposto ser, na acepção de Feldmann (1992), uma síntese de todos os dispositivos constitucionais ambientais que permeiam a Constituição, mas que não implica totalidade ou referência única.

Outro aspecto a ser analisado é que o avanço que o direito constitucional apresenta hoje é resultado, em boa medida, da afirmação dos direitos fundamentais como núcleo da proteção da dignidade da pessoa humana e da visão de que a Constituição é o local adequado para positivar as normas asseguradoras dessas pretensões (MENDES, 2007). Assim, quando a Constituição reconhece o direito ao meio ambiente equilibrado como direito fundamental, entende-se que este direito encontra guarida no princípio da dignidade humana.

Sob essa perspectiva, a despeito do direito ao meio ambiente estar constitucionalmente consagrado como direito fundamental de terceira geração (artigo 225 da Constituição Federal de 1988), com a irradiação dos direitos fundamentais por todo sistema jurídico, é plenamente

139 Gerlena Maria Santana de Siqueira (2014), ao tratar dos diversos dispositivos constitucionais que se direcionam ao meio ambiente, menciona: competências administrativas (artigo 23, VI) e legislativas (artigo 24, VI e VII); meios judiciais de tutela (artigo 5º, LXXIII, e 129, III); princípio ambiental a ser observado no desenvolvimento econômico (artigo 170, VI); funções estatais de planejamento do desenvolvimento econômico, determinante para o setor público e indicativo para o setor privado (artigo 174); o desenvolvimento urbano visando à efetivação das funções sociais da cidade e o bem-estar de seus habitantes (artigo 182); a função social da propriedade rural, que dentre outros requisitos impôs a utilização adequada dos recursos naturais disponíveis e preservação do meio ambiente (artigo 186, II); funções do Sistema Único de Saúde, dentre as quais o controle de substâncias tóxicas e radioativas e a colaboração na proteção do meio ambiente do trabalho (artigo 200, VII e VIII); a defesa do patrimônio cultural brasileiro, inclusive, conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico (artigo 216, V, §§1º, 3º e 4º).

possível atribuir à natureza um componente axiológico, reconhecendo-se o valor do meio ambiente saudável também como um elemento que integra uma das dimensões da personalidade humana.

Antonio-Henrique Pérez Luño (1999, p.464) acrescenta que não há direito fundamental ao meio ambiente a não ser que a ele esteja vinculada uma estrutura axiológica, posto que “[...] os direitos fundamentais constituem estruturas imediatamente conexas com os valores que uma sociedade considera básicos para sua vida coletiva [...]”, de tal modo que o significado de um direito fundamental à qualidade de vida “[...] ou o desfrutar de um meio ambiente adequado para o desenvolvimento da pessoa, em uma interpretação sistemática da Constituição aparece como uma norma finalística, enquanto impõe uma determinada orientação a todo o ordenamento jurídico”.

É de se notar assim que a legislação constitucional, ao conceber o meio ambiente como um direito fundamental, confere a subjetivização da tutela jurídica das questões ambientais, na medida em que ela se refere expressamente ao direito do ser humano a um meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado. Assim, considerando ser a dignidade humana o componente axiológico dos direitos fundamentais, deve-se buscar a concretização desses direitos. Busca-se a plena e efetiva realização da dignidade individual em diferentes circunstâncias ou situações da vida. Daí surge o direito ao meio ambiente saudável como uma resposta do Direito destinada a salvaguardar a dignidade da pessoa humana.

A essa altura já se inclinando à conclusão do capítulo, pode-se dizer que os direitos fundamentais constituem um complexo de normas constitucionais voltadas ao resguardo da dignidade da pessoa humana, visando garantir o pleno desenvolvimento da personalidade do indivíduo. Alinhado a essa perspectiva, a partir do fenômeno da constitucionalização dos direitos infraconstitucionais, o Código Civil passou a dar relevância à tutela do caráter existencial do ser humano, com os direitos de personalidade destinados a garantir o pleno desenvolvimento dos atributos da pessoa humana, considerados essenciais à sua dignidade e integridade. É, dessa forma, que tanto o direito fundamental (norma constitucional) quanto o direito de personalidade (norma infraconstitucional) se destinam a tutelar o mesmo predicado: a dignidade da pessoa humana.

A conformação do direito fundamental e de personalidade ao meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado deriva de uma cláusula geral e aberta, fundada no princípio da dignidade humana (artigo 1º, III da Constituição Federal). Leite e Ayala (2012) reconhecem que esse direito possui dupla natureza jurídica, apresentando-se, de um lado, concomitantemente como direito de personalidade, no sentido de ser possível a todos os

indivíduos pleitear o direito de defesa contra atos lesivos ao meio ambiente, pois a sua preservação ecologicamente equilibrada é condição ao pleno desenvolvimento da personalidade humana; e de outro, um elemento fundamental de ordem objetiva, vez que decorre do artigo 225 da Constituição a obrigação de que os poderes constituídos realizem a proteção e a promoção do meio ambiente, com vista à consecução da equidade ambiental.

Nesse ponto, é possível dizer que essas argumentações demonstram a complexidade da natureza jurídica do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Considerando, então, o princípio da dignidade humana como elemento de integração dos direitos fundamentais e de personalidade ao meio ambiente equilibrado, é possível formular as seguintes premissas:

(I) os direitos fundamentais são compreendidos como direitos inerentes ao ser humano que se encontram positivados na Constituição, no sentido de consagrar o respeito à dignidade humana, garantir a limitação do poder e buscar o pleno desenvolvimento da personalidade do indivíduo;

(II) fazem jus à categorização de direitos da personalidade os direitos sem os quais a pessoa não pode existir como tal e desenvolver os seus particulares atributos humanos, baseados no respeito e na promoção da dignidade da pessoa humana;

(III) o lugar onde esses direitos – fundamentais e de personalidade – devem plenamente ser exercidos é o meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado.

Logo, essas premissas conduzem à conclusão silogística de que o direito ao ambiente sadio e ecologicamente equilibrado deve ser identificado como direito fundamental e de personalidade do ser humano, não se olvidando de que no centro desses institutos, encontra-se a dignidade da pessoa humana, para qual tanto os direitos fundamentais como os direitos de personalidade devem convergir.

A preservação do meio ambiente é condição necessária à proteção da dignidade humana. A inter-relação entre os direitos fundamentais, os direitos de personalidade e o meio ambiente é evidenciada pelo fato de que não há vida digna sem um ambiente saudável onde o ser humano possa se desenvolver com qualidade. O princípio da dignidade da pessoa humana foi erigido à categoria de núcleo essencial dos direitos fundamentais e dos direitos de personalidade, de forma que, diante de sua compreensão normativa-valorativa, deve ser disseminado por todo o sistema jurídico. Ao cabo, em virtude da correlação umbilical entre o ser humano e o meio ambiente, que interagem e coexistem em sinergia, é importante verificar que as ofensas ao meio ambiente repercutem direta e negativamente também no ser humano.

3.4.2 A consequência da violação dos direitos fundamentais e dos direitos de

Benzer Belgeler