Os estados nordestinos detinham, entre os anos de 1890 e 1920, a maior concentração demográfica do território brasileiro. A contagem da população em 1872 mostrou que existiam aproximadamente 10 milhões de habitantes no Império, dos quais cerca de 2 milhões em Minas Gerais, 1,4 milhão na Bahia e 3,3 milhões nas demais províncias nordestinas.
A Região Nordeste, desde o início da ocupação lusitana, se consolidou como uma área dinâmica do ponto de vista da mobilidade territorial. Ora produziu importantes fluxos migratórios internos, sobretudo em direção às grandes cidades e ao litoral, ora foi palco de correntes migratórias de natureza diversa, como o importante fluxo migratório para a região mineradora e o decréscimo populacional que vivenciou no auge da exploração da borracha, quando perdeu milhares de migrantes para a Amazônia.
Assim, pode-se afirmar que são muitos os fatores que condicionaram a saída da população nordestina de seu local de origem, figurando como os mais importantes: a concentração fundiária (herança do tempo das Sesmarias); a seca, que desde o século XIX tem seu papel de redistribuição da população nordestina53; a estagnação econômica algodoeira e açucareira, que marcou a vida produtiva regional em alguns períodos; e, por último, a pressão sobre a terra como resultado da alta taxa de crescimento vegetativo, associado ao modo de produção calçado na escravidão, no patrimonialismo e no coronelismo. Todos esses condicionantes forjaram a mobilidade no Nordeste brasileiro.
A esse grupo de causas, atuam as redes migratórias, a eficácia das comunicações, as condições naturais, a cultura (a língua), a necessidade de sobrevivência, o espírito aventureiro, a descoberta de novos recursos, o desenvolvimento das redes de transportes e o papel das fantasias construídas sobre o local de destino (BEAUJEU-GARNIER, 1980).
53 P. ex., a grande seca de 1877-1879 condicionou a emigração em massa dentro do Nordeste em
145 Nas últimas décadas do século XIX o Nordeste contribuiu expressivamente com a urbanização das metrópoles da Região Sudeste. Na década de 1920, fluxos migratórios com origem em estados da região eram muito significativos no Rio de Janeiro e em São Paulo. Do Nordeste também partiram milhares de migrantes para a Amazônia, como dito anteriormente, para cidades litorâneas e para outros estados da região (BALÁN, 1972).
O caso da Bahia
Como observado anteriormente, a Bahia manteve historicamente uma das maiores concentrações demográficas no conjunto dos estados brasileiros e, mesmo com as perdas populacionais históricas, manteve ao longo dos séculos expressivos contingentes populacionais, resultado da migração forçada de escravos africanos, da vinda de portugueses e do crescimento vegetativo durante o século XX. No que concerne à dinâmica demográfica interna, desde a implantação ferroviária, a partir das últimas décadas do século XIX, são identificados alguns quadros relevantes:
i) Populações rurais deslocaram-se para as cidades, sobretudo para aquelas
que ganharam centralidade comercial e de serviços, impulsionados pela chegada dos trilhos: daí o expressivo crescimento populacional de Salvador, Santo Amaro, Feira de Santana, Alagoinhas, Jacobina, Senhor do Bonfim, Juazeiro, Cruz das Almas, Amargosa e Jequié. Destaca-se o crescimento de Jequié, que em 20 anos teve sua população absoluta aumentada em quase 200%: saltou de parcos 10.847 habitantes em 1920, para 84.237 habitantes em 1940;
ii) notável crescimento populacional de Vitória da Conquista, que no mesmo
período, aumentou em cerca de 150%. Dois motivos principais teriam ocasionado esse aumento: a possibilidade de a cidade ser o ponto final da ferrovia Ilhéus-Conquista e a expansão da fronteira agropecuária no Sudoeste baiano, uma das últimas regiões do estado a serem ocupadas por essa atividade, já no século XX. Nesse contexto, Vitória da Conquista passa a incorporar a função de capital regional, situada entre a zona da caatinga baiana e a chamada “região da mata”;
iii) grande crescimento populacional de Ilhéus e Itabuna, acrescido em mais de
146 Ilhéus-Conquista, que interligava Ilhéus e Itabuna a outras localidades e, sobretudo, o desenvolvimento da cacauicultura na região comandada por essas cidades, com a chegada de migrantes nacionais e estrangeiros atraídos pelo mercado do cacau. Na história demográfica baiana, Ilhéus e Itabuna foram os únicos municípios com crescimento populacional relativo superior ao de Salvador - justamente nesse período entre 1900 e 1940. Adonias Filho (1976, p. 73) chama a tenção para a migração de sírios e de libaneses que se fixaram no sul da Bahia em fins do século XIX. Exerciam a atividade de mascatear e, saindo de cidades litorâneas como Ilhéus, “os humildes mascates sírios e libaneses, sozinhos ou em grupos de dois ou três, penetraram no interior a pé, em lombo de burro e por via fluvial, carregando grandes quantidades de mercadorias para vender ou trocar” (KNOWLTON, 1960 apud ADONIAS FILHO, 1976, p. 73)54. Na relação entre a população da capital e a do interior, verifica-se que Salvador evoluiu de 205.813 em 1900 para 290.443 habitantes em 1940, aumentando cerca de 40%; a população da Bahia como um todo passou de 2.117.956 habitantes, para 3.918.112 no mesmo período, mais do que o dobro da taxa de crescimento da população da capital. Por fim, o crescimento populacional de Ilhéus e Itabuna pode ser considerado como um fator decisivo na expansão produtiva em direção ao extremo sul do estado, nas décadas seguintes;
iv) embora, no período pós abolição da escravatura, a Bahia tenha recebido
poucos migrantes estrangeiros em comparação com os fluxos internacionais com destino ao Brasil, o estado manteve a segunda posição em população estrangeira, entre todos os estados nordestinos, sendo que parte dessa situação se devia ao interior do estado. No censo de 1920, por exemplo, Pernambuco liderava a lista, com 11.698 estrangeiros residentes, vindo a Bahia logo em seguida, reportando 10.600 estrangeiros residentes. Ainda que a maioria deles estivesse localizada na capital (cerca de 75%), chama a atenção a posição de Ilhéus, Itabuna, Belmonte, Santo Amaro e Jequié, que juntas
54 Essa dinamicidade serviu de base para que o escritor Jorge Amado criasse em sua obra o universo
ficcional marcado muitas vezes pela mobilidade de suas personagens. No romance Terras do Sem Fim, finalizado na década de 1940, descreve a trajetória dos imigrantes internacionais, os sírios e os libaneses. Segundo ele, ao passo que os estrangeiros dedicavam-se ao comércio, os migrantes nacionais (sobretudo baianos e sergipanos) se ocupavam de atividades agrícolas e de alguns serviços (de saúde, jurídicos).
147 atraíam mais de 30% daqueles migrantes estrangeiros que tinham o interior do estado como destino. A presença desses migrantes nesses municípios indica a existência de uma dinâmica econômica (comércio, agricultura e serviços); e, finalmente,
v) a situação do Oeste Baiano, região cuja população, entre 1872 e 1920 deu
um salto, evoluindo de 131.006, para 283.568 habitantes. Embora a região não fosse muito dinâmica do ponto de vista migratório, o município de Barreiras já começava a se destacar como importante centro de atração, já figurando como o maior município da região em termos populacionais em 1920, superando Correntina e Barra, essa última, que era a sede mais antiga daquelas bandas, tendo se tornado vila em 1752.