dizer um pouco trêmulo: ‘estou deitado aqui no escuro esperando a morte chegar’. A luz estava a um palmo dos seus olhos. Fui forçado a murmurar: ‘oh, bobagem!’, e fiquei ali junto a ele, como que paralisado. Jamais vira antes algo semelhante à mudança que ocorrera em sua fisionomia, e espero não tornar a ver. Oh, não que tivesse ficado emocionado. Fiquei estarrecido. Foi como se um véu houvesse sido rompido. Enxerguei naquele rosto de marfim uma expressão de orgulho sombrio, de poder implacável, de terror covarde — de intenso e irremediável desespero. Estaria ele revivendo sua vida, em todos os detalhes, com seus desejos, tentações e entregas, naquele supremo momento de total conhecimento? Gritou, então, num sussurro, para alguma imagem, alguma visão — gritou duas vezes, um grito que não era mais que um sopro: ‘o horror! O horror!
O meu destino! Que coisa engraçada é a vida – esse arranjo misterioso de lógica impiedosa visando algum desígnio fútil. O Máximo que dela se pode esperar é um certo conhecimento de si mesmo – que chega tarde demais – uma safra de remorsos inextinguíveis. Já lutei contra a morte. É a luta mais desinteressante que vocês podem imaginar. Ocorre numa insubstancial área cinzenta em que não há nada sob os pés, nada à nossa volta, sem testemunhas, sem clamor, sem glória, sem o grande desejo da vitória, sem o grande medo da derrota, numa atmosfera malsã de morno ceticismo, sem muita confiança no seu próprio direito e menos ainda no da adversária. Se é essa a forma de sabedoria suprema, a vida é um enigma ainda maior do que pensam alguns de nós”.
O coração das trevas
§38 A ontologia do abismo e a possibilidade da epistemologia
O limite e a transgressão devem um ao outro a densidade de seu ser: inexistência de um limite que não poderia ser absolutamente transposto; vaidade em troca de uma transgressão que só transporia um limite de ilusão ou de sombra (...). Contra o que ela dirige sua violência e a que vazio deve a livre plenitude do seu ser senão àquele mesmo que ela atravessa com seu gesto violento e que se destina a barrar no traço que ela apaga?195
Quero ser cristalino minimamente para que as digressões teóricas que virão não fiquem desconectadas de uma projeção de fundo que as anina, a saber, de que o verdadeiro problema que me arremessou para a escrita tem suas raízes naquilo que conhecemos
atualmente por segurança pública196.
Portanto, bom lembrar, é desse lócus que parto.
Faço essa afirmação, pois, ao trabalhar natureza humana, trabalho as (mais
profundas, creio) origens da violência197 na sociedade, o que catapulta, por consequência
direta, o desdobramento posterior de uma política pública de segurança198 via educação-
195 FOUCAULT, Michel. Prefácio à Transgressão, p.32.In: Ditos e Escritos, v. III. Rio de Janeiro: Forense
Universitária.
196 Segundo Souza Neto, “há duas grandes concepções de segurança pública que rivalizam desde a
reabertura democrática [do Brasil] e até o presente, passando pela Assembleia Nacional Constituinte: uma centrada na ideia de combate; outra, na de prestação de serviço público (...). A primeira concebe a missão institucional em termos bélicos: seu papel é ‘combater’ os criminosos, que são convertidos em ‘inimigos internos’ (...) a segunda concepção está centrada na ideia de que a segurança é um ‘serviço público’ a ser prestado pelo Estado. O cidadão é o destinatário desse serviço”. Defende Souza Neto que a segurança pública deve ser encarada como direito fundamental emanado da Carta Magna como um princípio republicano, isto é, “a segurança pública é um serviço que deve ser universalizado de maneira igual” e conclui afirmando que “as maiores ameaças à democracia e ao Estado de direito no Brasil de hoje advêm das políticas de segurança pública, que têm assumido uma orientação predominantemente autoritária”. (Claudio Pereira de Souza Neto, “parâmetros para a conceituação constitucionalmente adequada da segurança pública” em Desafios da Gestão Pública de Segurança, Orgs. Oliveira, Zouain, Ruediger e Riccio, editora Faperj, 2009).
197 Usemos, numa remota aproximação ao termo, as belas palavras do prof. Newton de Oliveira: “o conceito
de violência pode ser interpretado a partir de dois pontos de vista. Um coletivo e global e outro cada vez mais presente, mas muito surdo, que é ponto de vista do sofrimento individual e cotidiano, que numa sociedade onde a violência acontece em escala industrial é o sofrimento das mulheres violentadas, dos casais humilhados, dos anciãos maltratados e também, é claro, do fenômeno mundial da explosão da criminalidade. Podemos dizer que se criou uma verdadeira cultura da violência. Os comportamentos foram difundidos na sociedade e o Estado tornou-se uma caixa de ressonância disso”. (“a violência do ponto de vista internacional”, em Desafios da Gestão Pública de Segurança, Orgs. Oliveira, Zouain, Ruediger e Riccio, editora Faperj, 2009).
198 Segundo SAPORI, “a noção de política pública pressupõe a existência de uma esfera da vida que não é
privada ou puramente individual, e sim sustentada pelo que é comum e público. E, sendo comum em termos da comunidade política, cabe ao Estado a responsabilidade principal, se não exclusiva, por sua preservação
currículo, algo — leia-se com cautela dobrada —, a essa altura, muitíssimo incipiente de ser pensado pelo que fora desenvolvido, mas que organiza uma visão panorâmica de todo
o processo a ser desencadeado desde o início199.
Com efeito, penso ainda que essas teorizações devem estar sempre em uma demanda direta com o caos das ruas, e a insanidade da estatística só parece ter sentido se me empenho em nadar por águas mais turbulentas que uma sociologia da violência, esta, perdida entre gráficos e planilhas, acreditando, sobretudo, que nosso mal social, denominado violência, gêmeo da criminalidade, são monstros de uma incontinência
maior incrustada na ordem subjetiva humana, ordem essa que “transcende” todo esse
ardor por políticas de segurança (policy maker) que tem apagado, no mais das vezes, chamas com gasolina. Sim, o que estou dizendo nestes inícios, por exemplo, é da guerra ao crime, da guerra às drogas, da guerra à violência em si, de maneira que: será que a
mera contradição entre os termos — guerra à violência, a pior, por exemplo... —, não nos
diz nada sobre nosso estado de coisas?
Longe desse matiz repisado pela crueza dos índices, o caminho que escolho para cavar esse pedregulho tem opções que se aninham em convicções íntimas que, em contrapartida, são suficientes para a infiltração nesse solo bruto.
Basicamente, posso optar entre dois ferramentais de sapa para abrir essa canga
dura chamada natureza humana, a saber, a ciência propriamente dita e a ciência dita —
ou seria maldita? — especulativa, leia-se, filosóficaiii.
Na verdade, uma opção pelas ciências naturais, em especial, as biológicas, conduzir-me-ia à neurobiologia, que nas circunstâncias de chegada, políticas públicas de segurança, iriam dar-se as mãos com a engenharia genética, grosso modo, biotecnologia a serviço da polícia (relações sociais previamente estabelecidas por um controle genético das propensões agressivas).
Pierre Karli alerta-nos desse ímpeto gênico:
(...). Ter uma política pública significa ter razões ou argumentos que contenham não só a compreensão de um problema como também sua solução”. No mesmo livro, Sapori esboça uma cronologia dos planos de segurança pública levados a termo no Brasil, a saber, “o primeiro plano nacional de segurança pública foi formulado em 2001 (...) logo após a comoção do caso do ônibus 173, no Rio de Janeiro, e teve como principal inovação a criação do Fundo Nacional de Segurança Pública. Os governos estaduais passaram a receber recursos para o financiamento de projetos específicos submetidos a apreciação da Senasp [Secretaria Nacional de Segurança Pública] (...). Em 2003, por sua vez, o governo Lula elaborou um documento mais elaborado e consistente, denominado ‘Projeto de Segurança Pública para o Brasil’.” (Sapori, Luis Flavio. Segurança Pública no Brasil, desafios e perspectivas, FGV editora, 2010).
199 Bom dizer: em socorro de um pragmatismo indissociável à leitura, esta, sempre nervosa, que se faz
quando descolada do intuito hipotético-prático que a sustenta; sintomas neuróticos dessa sanha produtivista; mal-estar inexorável de nossa cultura academicista (acadêmica + produtivista).
A partir do momento em que a agressividade é concebida como uma fatalidade de ordem biológica, não é surpreendente que haja quem venha sugerir que os métodos da engenharia genética devam ser implementados para extirpar da “natureza humana” o seu “lado mais nocivo e mais perigoso”, ou seja, o “instinto de agressão e de autodestruição”. Trata-se, portanto, no espírito de certas pessoas, de substituir uma engenharia social considerada ineficaz por uma engenharia genética considerada muito eficaz [...] Daniel Koshland, redactor da science proclama que o genoma humano vai fornecer à neurobiologia molecular novos instrumentos que deverão permitir reduzir a criminalidade de modo muito mais eficaz do que os “emplastros” utilizados até então (2002, p. 16).
Noutro extremo, pretendo especular paramentado por outras ferramentas que,
noutros termos também, aponta o humanismo que ainda pode restar desse humanismo- instrumental (ditadura dos genes), o enunciando, assim, como fundamento de uma ontologia a ser vista no entrecruzamento de Freud, Pascal e Espinosa, entre o que é possível especular acerca da natureza do humano nas relações humanas à revelia de uma política genética.
Por conseguinte, que outras ferramentas são essas? Justamente aqui um problema parece se alojar na fronteira que “separa” o especulativo do científico. Em suma, qual
estatuto de pretensão acadêmica pode o especulativo angariar em relação à ciência200?
Ainda, outra pergunta: de que forma podem-se empenhar esforços na caracterização do exercício racional de investigação teorética quando os elementos de sua definição estão fora de parâmetros convencionais de verificação experimental e legitimidade público-acadêmica?
Trata-se, ainda, de questionar, nesse primeiro momento, qual o estatuto do saber policial e, consequentemente, em que medida o saber policial é tributário do discurso científico. Um triplo problema (inicial) quanto ao método.
***
200 Utilizamos a noção de “ciência” aduzida de Kuhn, isto é, “ciência normal, [que] significa a pesquisa
firmemente baseada em uma ou mais realizações científicas passadas. Essas realizações são reconhecidas durante algum tempo por alguma comunidade científica específica como proporcionando os fundamentos para sua prática posterior. Embora raramente na sua forma original, hoje essas realizações são relatadas pelos manuais científicos elementares e avançados.” Kuhn, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. 10ª Ed. SP: editora Perspectiva, 2011.
§39 Primeiros parâmetros ontológicos para uma epistemologia das ciências policiais
Inicialmente, creio que é preciso escapar das ilusões que a dicotomia, pensamento científico/pensamento filosófico, parece querer encerrar, mais ainda, do equívoco em que uma certa atitude dogmática cientificista prevaleça frente ao exercício do pensamento, ou, em última instância, até onde o inteligir possui morada fixa e intransferível, no processo do conhecimento do sujeito sobre as coisas, seja numa ou noutra fronteira da experiência desse mesmo pensamento, seja ele científico ou filosófico.
Em outras palavras, antes de tudo questionar, tratar-se-ia de uma separação legítima, conferir ao exercício do pensamento filosófico algum estatuto de dignidade distinto à racionalidade técnico-científica, ou, deslocar este problema para sua sede, a saber, a epistemologia.
Quero dizer, com efeito, que, quando o debate desta tese se anuncia, o verdadeiro ponto remetido envolve a discussão da epistemologia que se adota em vista de uma ontologia de fundo, esta servindo de suporte àquela.
Ou seja, da mediação que se opera entre o desconhecido tornado, pelo inteligir, objeto de conhecimento na, posterior, ciência, aqui, ciências policiais, e não, como se poderia incorrer simplesmente, lendo esse mesmo debate, tentando verificar em quais correntes teóricas, no parâmetro kuhniano de paradigmas, estão encerrados os objetos discutidos.
Grosso modo, trata-se, em nosso trabalho, de talhar a pedra bruta que servirá de forja à própria ciência, insisto, “ciências policiais”.
Em se tratando, portanto, de epistemologia, interessante considerar que os múltiplos processos que desencadeiam ramos estabelecidos e estáveis de ciências dão-se nos mais distintos matizes de apreensão intelectiva, ou melhor, se arvoram em tradições, no mais das vezes, inconciliáveis entre si, porém plenamente ajustáveis aos fins a que se destinam, aliás, naquilo que se propõem, as ciências humanas buscam seus objetos instrumentalizando vias que, ao se consolidarem como tradição epistêmica, fornecem conteúdos de suporte para demais investigações similares.
Por conseguinte, em pedagogia, para citar um caso, não é muito diferente se passo a enxergar o conjunto de interpretações do fenômeno educativo por lentes que a enquadram segundo dimensões filosóficas que configuram, além da ontologia que ancora o progresso do tema, todo o suporte de linguagem que estabiliza certo círculo comum de pesquisadores desse mesmo tema.
Ou seja, o que reitero é que construir uma investigação do fenômeno educativo parece significar, no limite, um aninhamento teórico num lócus epistêmico de verdade convencionalizada, mais, num espaço perceptivo de sentido e pertença teórica que, muito distante de qualquer determinação de coerência metodológica universal, pretendida por padrões inalienáveis de ciência, definem seus discursos a partir da cadeia alimentar acadêmica e seus respectivos parâmetros de sentido, dados nos programas de pesquisa.
Ademais, devo dizer sem rodeios: até aqui nada de novo em epistemologia. Por essa conjuntura, permito-me pensar uma ontologia como parâmetro inicial de intelecção de um fenômeno a ser investigado, no caso desta tese, o fenômeno segurança pública.
Com efeito, sugiro, dessa forma, que o lócus de intelecção aproprie-se desse dossel fenomênico, quer dizer, adeque-se às diretrizes vivenciais daquele que investiga tal fenômeno na prática efetiva de sua experiência racional, distinguindo-se, se possível for, de uma cultura técnico-acadêmica de dependência teorética já existente.
Ademais, não se trata de reconstruir a roda por outras vias, trata-se, sobremaneira, de uma experiência teórica que, como disse, tem por objetivo adequar-se às diretrizes vivenciais daquele que investiga e tem nelas seu interesse primeiro.
§40 O especulativo marcado na carne: a experiência raciocinante
Grosso modo, o que se pretende, ao lançar mão de três teóricos Pascal, Freud e Espinosa, cuja tradição acadêmica não une (talvez) senão na sequência dos sumários de história da filosofia, é o fato de: na experiência do fenômeno investigado, esse cordão de expressão teórica, unido na tradição acadêmica ou não — pouco importa aqui —, alcança um grau de mediação que permite “ver” o fenômeno na fatalidade de suas confrontações hipotéticas com minha experiência na atividade policial, isto é, no desvelamento de seu caráter epistemológico perante a experiência de seu encontro com o pesquisador, no caso desta tese, o próprio autor-policial.
Portanto, quando caracterizo o especulativo como trajetória a ser seguida, imponho a este estudo o ritmo de apreensão intelectiva que ele me fornece, de sorte que, se não há modelos conjunturais khunianos preestabelecidos ou, mesmo, se estes fenecem, ante a caracterização que se me apresentaria como guia, torna-se mais do que oportuno
que ele me oferta, mesmo que pelas vias mais obscuras possam ser julgadas epistemologicamente.
De fato, esse exercício de escolha epistemológica pode parecer quase um sintoma do desfalecimento, desconfiança, suspeita de uma revisão bibliográfica confiável que dirija a pesquisa no caminho de uma trilha já em curso, de uma estrada já mapeada e, assim, digna de ancoragem das fontes para caminhada, ao passo que, do contrário, o que ocorre é que não há empreendimento investigativo que postule algo em suas aquisições sem um mínimo de risco à marginalidade num primeiro momento, ao (reverente) esquecimento do uso que se propõe teoricamente do que fora feito no passado, uma vontade de esquecimento até, seja na esfera dos resultados alcançados, seja na escolha da própria epistemologia, grosso modo, uma certa capacidade de esquecer para pesquisar livremente, para seguir adiante.
Assim, riscos, tropeços, hesitações e enganos sempre ladeados por uma oferta de trilhas ainda não trilhadas, mas que inegavelmente partam de uma perspectiva de luta pessoal e vivência intransferível, sem recusar pontes já edificadas, oceanos já cartografados por uma sobeja teoria de apoio que, longe de pautar, apenas apresenta-se como recurso a navegação.
Tal escolha, dessa forma, de um elemento especulativo que corrói a expectativa de uma verificação imediata ao real e curativa a problemas práticos levantados pela política acadêmica em curso, faz-se na esteira de uma viva impressão tornada veículo de compreensão fenomênica, leia-se, torna-se cavalo de batalha de uma busca por mecanismos que, longe de pautar processo de pesquisa por meio de técnicas e dados consolidados, procura espreitá-la na finitude abismal de suas sutis linhas de contorno, sempre muito tênues, quase inalcançáveis sem a angústia de quem canta na escuridão tentando afastar seus temores, não podendo, com isso, clarear um palmo à sua frente, diz Freud em algum lugar.
Logo, naquilo que acredito para colorir a argumentação que será levada a curso adiante, resiste um fator muito simples, a saber, “sim, eu tenho uma ontologia”.
§41 A ontologia do abismo: aspecto epistêmico
Por conseguinte, se pudesse nomear essa ontologia, ela seria intitulada de ontologia do abismo, plágio um tanto pretensioso de uma ontologia trágica, de uma maneira ainda nomeada que possa ser reconhecida próxima a uma dialética negativa,
grosso modo, uma diagramação que recortaria a insuficiência em Pascal, o mal-estar pulsional em Freud e as ilusões do sujeito tão bem apontadas por Espinosa.
Enfim, um “caldo” pouquíssimo amistoso para ser “servido quente”, tal sua
exigência uma visão ontológica de homem faria ver, por meio da dissolução do conceito de sujeito.
Ademais, e não nos esquecendo da consideração de partida, é possível a tentativa, especulativa, leia-se, de buscar se fazer entender, sobretudo, para ver ao final destas primeiras considerações, respondida, repito, qual o estatuto de pretensão acadêmica pode o especulativo angariar em relação à ciência?
§42 O investimento no saber: o conhecimento relacional
Um segundo motivo que ensejaria a construção de uma ontologia que emplaque o eixo de análise do fenômeno investigado se ocupa também da dicotomia que o corte entre o científico e o especulativo insiste (falsamente) querer apontar; inicialmente, neste novo ângulo, agora já entrando teoricamente engajado na questão, mediante a caracterização do saber como relação do homem com o mundo.
Grosso modo, a tese desenvolvida a ser apresentada neste estudo, que é
desenvolvida por Charlot201, tem o condão de nos dizer, dentre outras fecundas noções,
que o tipo de relação estabelecida pelo homem com o saber é que tem o mote de especificá-lo, ou seja, constitui a maneira pela qual eu invisto em determinado aprendizado substancialmente significativo que determina que modalidade de saber será angariada como aprendizado, daí a insistência na profunda percepção pessoal entre pesquisador e epistemologia.
Veja-se que não se trata, então, de definir princípios categoriais de pesquisa ou unidades metodológicas que sintetizam o objeto, mas integrá-lo numa ou noutra esfera de saber (científica, prática, especulativa etc.) com base no modo como me relaciono com eles na vida diária e com o espanto que ela me assalta ao me jogar para a pesquisa, isto é, pelo modo como eu os apreendo na pluralidade de minhas capacidades afetivo-cognitivas.
O que Charlot parece nos querer mostrar é que, se há um mecanismo pelo qual equações matemáticas podem ser aprendidas pela estética por exemplo, não tem a sentença de interdição entre a coisa apreendida por mim e a coisa objeto da ciência, de
sorte que, no limite, ambas só existem relacionalmente no empenho em busca de sabê-las ao investir nelas, independentemente do caminho de intermediação lógico-semântica para tal.
Logo, não existe saber, existem, sim, sempre relações entre sujeitos de carne e osso com seus assombros cotidianos e formas sempre locais de investida neles.
Assim, a demanda por uma ontologia se estabelece por uma simples questão, isto é, o saber policial constitui um tipo de saber ainda não dogmaticamente consolidado na esteira de princípios epistemológicos centenários de pertença ou de quadros