Uma vez definidos os conceitos mais gerais que nortearão este capítulo, volta-se a atenção às dificuldades metodológicas encontradas para a mensuração do volume de financiamento de longo prazo no Brasil. Das diversas dificuldades metodológicas impostas à tentativa de quantificação do financiamento de longo prazo, podem-se citar três grandes grupos:
1) dificuldades relacionadas à qualidade dos dados disponíveis:
1.a) período de abrangência dos dados relativos ao mercado de crédito;
1.b) dificuldades relacionadas à discriminação dos recursos segundo a origem - em públicos, privados nacionais ou captados no exterior;
1.c) critério utilizado pelo Bacen para a apuração dos prazos médios das operações de crédito.
2) as dificuldades metodológicas relacionadas à estimação dos prazos das linhas de crédito e dos valores mobiliários que não apresentam tais informações;
3) dificuldades relativas à construção de uma série histórica do “Financiamento de Longo Prazo” (FLP) de forma ampla, ou seja, uma série histórica que abranja tanto as operações de crédito quanto as operações do mercado de capitais, ambas de longo prazo;
3.2.1 Período de abrangência dos dados disponíveis
O primeiro subgrupo de dificuldades metodológicas trata do período de abrangência dos dados referentes ao mercado de crédito, divulgados pelo Banco Central, tanto em termos de volume quanto em termos de seus prazos médios. A maior parte das séries divulgadas, inclusive as séries utilizadas nesse estudo, têm início apenas em junho/2000, fato que impossibilita o estudo da evolução do crédito de longo prazo no Brasil por um período mais longo. Não é possível aprofundar a análise nem mesmo sobre os primeiros anos do Plano Real; período de especial interesse uma vez que marca o início da estabilidade de preços na
economia do país. A estabilidade de preços configura-se em um fator de extrema importância, tanto para o desenvolvimento de novas linhas de crédito, quanto para o aumento do volume de crédito como um todo. Assim sendo, o período de abrangência deste trabalho será limitado pela disponibilidade dos dados e não por critérios de análise econômica que certamente seriam mais relevantes ao se fazer um “corte” no tempo.
De acordo com os dados apresentados na Tabela 4 desde o Plano Real, a evolução das operações de crédito mostrou um desempenho mais acentuado a partir do ano de 2000. Enquanto o período todo, de julho/1994 a fevereiro/2008 apresentou crescimento, em termos reais, de 110% (aproximadamente 5,6% ao ano); o período de análise deste trabalho, entre junho/2000 e fevereiro/2008, registrou crescimento de 83% (aproximadamente 8,1% a.a). Já o mercado de capitais registrou um crescimento bem mais expressivo desde o Plano Real, de 102.838% acumulado entre jul/94 e fev/08 (aproximadamente 66,1% ao ano), e de 1310% no acumulado entre jun/00 e fev/08 (aproximadamente 40,7% ao ano).
Tabela 4 - Mercado de Crédito e de Capitais: Var. % real1/ no período indicado
Total Total
período Crédito Valores
SFN 2/ Mobiliários 3/ 1994 jul-dez 11% 129% 1995 3% 0% 1996 -2% 197% 1997 -2% -4% 1998 6% 186% 1999 -7% 264% 2000 7% -3% 2001 -4% 15% 2002 2% -17% 2003 2% -58% 2004 12% 125% 2005 14% 138% 2006 17% 72% 2007 21% 15% 2008 jan-fev 2% 267% jul94-fev08 110% 102838% jun00-fev08 83% 1310%
Fonte dados primários: Bacen e CVM.
1/
valores corrigidos pelo IPCA para fev/08.
2/
saldos em final de período.
3.2.2 Origem dos recursos
O segundo subgrupo de dificuldades metodológicas refere-se à discriminação das origens dos recursos utilizados nas operações de concessão de crédito. A distinção encontrada nas estatísticas divulgadas para o mercado de crédito pelo Bacen, entre sistema financeiro público, privado nacional e estrangeiro, tratam do controle de capital das instituições financeiras em questão, e não da origem dos recursos, ou seja, se públicos, domésticos privados ou estrangeiros (internalizados pelas instituições financeiras em operação no território nacional). É importante salientar que os recursos estrangeiros captados no exterior não são registrados nas estatísticas de crédito, mas sim nas estatísticas referentes ao balanço de pagamentos.
Quanto à discriminação das operações de crédito em relação à origem de seus recursos, se públicos, doméstico privado ou externo, as estatísticas referentes ao mercado de crédito apresentam poucas informações. Além dos créditos concedidos provenientes do BNDES, facilmente identificados como recursos públicos (apesar de poder englobar recursos externos captados pelo BNDES), é possível distinguir as operações de ACC, export notes, repasses externos e financiamento de importações como sendo operações realizadas com recursos externos, e o crédito concedido com recursos livres para pessoas jurídicas como sendo provenientes de recursos domésticos, porém sem a devida separação entre recursos domésticos privados e recursos domésticos públicos. Dessa forma, o intuito de analisar a evolução do financiamento privado nacional de longo prazo também fica prejudicado.
3.2.3 O critério utilizado para apuração dos prazos médios
Em relação ao terceiro subgrupo de dificuldades metodológicas, o critério utilizado pelo Bacen para apurar os prazos médios das operações de crédito (fazendo a ressalva que apenas 55% do total do volume de crédito apresenta as informações de prazos médios) utilizam os respectivos volumes expressos em termos de saldo. Em outras palavras, significa dizer que as séries para os prazos médios divulgadas pelo Bacen referem-se aos volumes das operações de crédito expressos em saldos e portanto, não podem ser utilizados como aproximações para se distinguir os volumes de longo prazo expressos em fluxo, o que impossibilita a construção de uma série de crédito de longo prazo em termos de fluxo. Assim sendo, os dados de prazos médios calculados com bases em dados de estoque serão utilizados para a construção de uma série de crédito de longo prazo em termos de estoque.
3.2.4 Estimação de prazos médios
Quanto ao segundo grupo de dificuldades, e como será demonstrado adiante, 45% das operações de crédito, e a maioria dos valores mobiliários, não apresenta dados sobre os seus prazos médios. As principais dificuldades metodológicas para estimar os prazos médios dos itens de crédito e de valores mobiliários que não apresentam tais informações, são:
a) apuração dos dados, ou seja, ora em termos de fluxo, ora em termos de saldo; b) periodicidade dos dados, ora mensal, ora anual;
c) dificuldade de entendimento da abrangência dos dados coletados em diferentes instituições; em outras palavras, ausência de notas explicativas claras;
d) falta de clareza na metodologia de coleta e apresentação dos dados; e) acesso restrito a determinados dados (fontes pouco “amigáveis”); f) período dos dados (data de início em que são disponibilizados). 3.2.5 Agregação dos dados de crédito aos dados do mercado de capitais
E por fim, quanto ao terceiro grupo de dificuldades, duas limitações metodológicas principais ocorrem ao se tentar agregar os montantes de crédito de longo prazo aos montantes de valores mobiliários de longo prazo no intuito de se propor uma série única para o financiamento de longo prazo como um todo. A primeira dificuldade trata da possibilidade de incorrer em erros de dupla contagem, ao se agregar os dados de crédito e valores mobiliários. A segunda dificuldade refere-se ao fato de que os dados para os valores mobiliários são divulgados somente em termos de fluxo, de maneira que, apesar de os dados disponíveis para as operações de crédito serem apresentado (dependendo da informação) em termos de saldo e também de fluxo, só seria possível construir uma série histórica para o financiamento de longo prazo em termos de fluxo, o que impossibilita a sua construção uma vez que não é possível se obter uma série de crédito de longo prazo também em termos de fluxo. Dessa forma, os dados do mercado de crédito e do mercado de capitais serão tratados separadamente.