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BURJUVA , KAR VE SPEKÜLASYON

2. KAPĠTALĠZM, TARĠH VE DEMOKRASĠ

2.5. BURJUVA , KAR VE SPEKÜLASYON

No início da década de 1960, não foram bem-sucedidas as tentativas do governo João Goulart para conseguir o apoio da Igreja Católica visando à implementação de suas reformas de base. Alessandro Soares da Silva lembra-nos inclusive que alguns setores da Igreja apoiaram o golpe militar, acreditando que as questões fundiárias brasileiras seriam atacadas pelos golpistas por meio do Estatuto da Terra e que sua implementação traria benefícios socioeconômicos reais aos trabalhadores. No entanto, suas expectativas logo foram frustradas e al- guns de seus setores passaram a apoiar as lutas e reivindicações dos trabalhadores. Um exemplo dessa virada de posição pode ser identificado em uma das figuras mais carismáticas da Igreja Católica brasileira e que, na ocasião do golpe, estava alinhada às forças mais conservadoras da sociedade de então. Trata-se de Dom Paulo Evaristo Arns. O próprio prelado católico escreveu sobre essa questão em sua auto- biografia (ARNS, 2001), contando, entre outras coisas, como se deu essa virada. Em entrevista à Folha de S. Paulo durante o lançamento de seu livro, ele afirmou que:

No começo, eu também, estava a favor. Mas logo começaram as injustiças. Vimos que era uma grande farsa e nos separamos. [...] Quando alguém era preso eu sabia que ele ia ser torturado. Nascia alguma coisa dentro de mim que me dizia: você é obrigado a ir e você tem de falar a verdade. Então no caminho sempre pensava: não sou eu que estou em jogo, mas a vida de outras pessoas que não tinham defesa, enquanto eu tinha defesa. (Cardeal Arns em entrevista a FOLHA DE SÃO PAULO: 14/09/01, p. A6)

Cabe destacar o papel atribuído a este religioso. Partindo de alguns aponta- mentos de Alessandro Soares da Silva, ficamos sabendo que Dom Paulo ingressou na luta contra o regime militar em 1969, quando começou acompanhar o caso de seminaristas dominicanos que haviam sido presos por ajudarem universitários que faziam oposição ao regime militar. Por exemplo, ainda em 1971, o Cardeal Arns,

[...] na qualidade de presidente da regional sul – 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e de arcebispo de uma das maiores dioceses católicas do mundo – a de São Paulo –, d. Paulo Evaristo Arns teve um encontro com o presidente Emílio Garrastazu Médici. Seu objetivo era denunciar as práticas de tortura feitas pelo regime. No ano seguinte, ele capitaneou os trabalhos da Igreja Católica que resultaram em um importante documento desta época, intitulado Testemunho de paz. (SILVA, 2002, p. 5)

Para Dom Paulo, os anos da ditadura quase lhe tiraram a esperança, tamanhos eram os percalços que o governo ditatorial produzia. Segundo as palavras do

próprio cardeal: “Houve momentos em que pensava: estamos num túnel e não vemos nenhuma luz, nenhuma possibilidade de saída. No tempo de Médici, 1970, 1972, eu pensava que era um tempo de condenação do Brasil a uma escravidão nova, um tempo em que não havia comunicação permitida e não havia meios de defender a justiça. Mas também vi como acordavam os espíritos.” (Cardeal Arns em entrevista a FOLHA DE SÃO PAULO: 14/09/01, p. A6)

Certamente, a ação do cardeal de São Paulo foi fundamental para a reorgani- zação das forças contrárias à ditadura, mas também é importante ressaltar que, na primeira metade da década de 1970, anos marcados por diferentes e incontá- veis manifestações autoritárias do regime militar, as CEBs constituíram-se como espaços sociais em que os trabalhadores produziram condições para se organizar e lutar contra as injustiças e ameaças e pelos seus direitos.

Embora tenha apoiado o golpe de [19]64, a Igreja começa a mudar de posição a partir de 1973. Nas suas bases, alguns sacerdotes já se envolviam com o processo de resistência dos trabalhadores em torno da questão da terra. Esse espaço político havia nascido no começo dos anos [19]60, quando começaram a surgir as primeiras Comunidades Eclesiais de Base no Brasil. Nessas comunidades, começa a ganhar importância a reflexão acerca da realidade imediata, como exercício da liberdade pessoal. Para a execução dessa prática, foi preciso construir, nesse lugar, um novo espaço, novas dimensões e novos valores. As comunidades deixam de ser apenas o lugar onde fiéis iam à procura de paz para se tornar um espaço de reflexão e de opções pessoais e coletivas a respeito da vida. (FERNANDES, 1996, p. 7)

Ao buscar assegurar aos cidadãos brasileiros os direitos políticos e sociais, para muitos representantes do clero tornava-se cada vez mais patente o fato de que os modelos de desenvolvimento e de propriedade defendidos por algumas parcelas da Igreja não eram os mesmos defendidos pelo Estado militar. Estes setores, muitas vezes minoritários, da Igreja buscavam atacar o problema pela defesa de critérios distributivos, enquanto o Estado tratava o problema sob a ótica da acumulação de capital. Assim se deu a aproximação da Igreja com os sindicatos e partidos oposicio- nistas: ambos observavam, enfocavam os problemas nacionais a partir da idéia de pobreza e não da idéia da acumulação e especulação (MARTINS, 1986b, p. 68).

Em suma, com personagens como o cardeal Arns e organismos como as CEBs assumindo um importante papel de liderança e intervenção, a Igreja Católica começou um brusco giro político em relação à situação de permanente conflito no campo.2 Em que pese o fato de alguns grupos da Igreja Católica terem guinado à

2 Esta nova postura social e política avançou a partir dos documentos de diretrizes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), publicada depois do Concílio do Vaticano II (1965), da Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano em Medellín, Colômbia (1968), e da Terceira Conferência em Puebla, México (1979).

esquerda bem mais do que a orientação geral – criando, inclusive, alguns conflitos –, isto foi tolerado devido ao fato de que ainda continuavam respeitando a hierarquia da Igreja Católica.3 Neste aspecto, um exemplo que pode ser citado

como relevante é a presença dos representantes do clero na luta dos posseiros na região do Araguaia:

Na região compreendida entre o Sul do Pará, o norte de Goiás e Mato Grosso, parte da Amazônia legal, desenvolveu-se a luta camponesa que contou com presen- ça e com apoio da Pastoral da Terra. A ocupação da área foi realizada por um rápido processo de ocupação que provocou o crescimento populacional. Os incentivos da [Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia] Sudam ampliavam-se e, de 1966 a 1975, foram aprovados 33 projetos somente para o município de Concei- ção do Araguaia. A Volkswagen, o Comind, o Bradesco, a família Lunardeli, Óleos Pacaembu, Supergasbrás, Manah, etc., são alguns grupos com projetos agropecuá- rios, extrativistas ou simplesmente especuladores de terra na área. A presença dessas grandes empresas, de um lado expulsava os posseiros e, de outro, estruturava projetos que ocupavam um número irrisório de trabalhadores.

O fluxo populacional, a ocupação de área de antigas posses, a baixa oferta de emprego que se abria na região, promoveram acirramento dos conflitos latentes e dos interesses contrários. Com todo esse movimento, o trabalho pastoral se intensificava, pois a população buscava o apoio das dioceses e prelazias na mediação dos conflitos. Em Marabá, D. Alano Maria Pena procurava apoiar os posseiros reprimidos pelos militares que combatiam a guerrilha. D. José da Silva Chaves, em Uruaçu, prestava apoio jurídico e dava alojamento a quem precisasse esconder-se da repressão do Major Curió, que fora designado para combater os camponeses na área. (IOKOI, 1996, p. 118)

Num período imediatamente anterior a este, a preocupação predominante da hierarquia católica e da maioria do clero, muitas vezes manifesta, era a de impedir, ou pelo menos atenuar o avanço das tendências comunizantes junto a populações rurais. Essa tendência era principalmente denunciada pela Igreja como uma das principais características do movimento das Ligas Camponesas4 e dos sindicatos

3 Para os leitores interessados no posicionamento da Igreja e suas “divisões”, existe extensa literatura publicada em relação ao tema. Entre outros, podemos indicar: ALVES, M. Igreja e

política social no Brasil. Lisboa: Sá da Corte, 1982; KRISCHKE, P. (Org.). A Igreja nas bases em tempo de transição (1974-1985). Porto Alegre: L&PM: Cedec, 1985.

4 As conhecidas Ligas Camponesas desenvolveram-se na década de 1950 em alguns estados e rapidamente desapareceram, para ressurgir com maior virulência e número nos anos 1960, porém desta vez estendendo-se a mais de 16 estados. Sobre as Ligas Camponesas, conferir, especialmente, as seguintes obras: JULIÃO, F. Ligas campesinas: abril 1962 - octubre 1962. México: Cicod, 1969; AZEVEDO, F. A. As ligas camponesas. São Paulo: Paz e Terra, 1982.

criados pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB). Não acreditando na capacidade de auto-organização dos grupos populares, ou talvez não confiando nos rumos que esta auto-organização poderia tomar, a hierarquia da Igreja estimulava um processo consciente de aceleração da sindicalização rural, como forma de impedir o avanço das Ligas Camponesas, em suas relações políticas com o povo; assim, no estabelecimento desse procedimento, procurava fortalecer os grupos que se mostravam obedientes à aceitação das orientações eclesiásticas.

Em relação às Ligas Camponesas, fortemente combatidas tanto pelas classes dominantes quanto pela Igreja Católica, poderíamos reproduzir a seguinte caracterização: “A Igreja Católica temia a expansão do radicalismo espontaneísta e aventureiro. A classe dominante assustava-se com a quebra do velho padrão de submissão e de respeito que os pobres lhe deviam. Os políticos se enfrentavam pela primeira vez com um impulso de pressão política proveniente das camadas inferiores da sociedade. Tudo isso provocado pela ação das ligas.” (FERES, 1990, p. 372-373)

Existe uma dimensão nitidamente política nas controvérsias que envolvem o clero católico. Ressalta-se que, com o passar do tempo, com as formas violentas com que se vinham produzindo a expropriação da terra e a ampliação da exploração do trabalho, a Igreja Católica colocou-se na vanguarda da luta contra os desmandos e atrocidades do regime militar. Escreve Frei Betto (1981, p. 20-22), analisando o papel da Igreja no campo:

[...] Migrantes e oprimidos, os membros das comunidades, se outrora buscavam na religião um sedativo para os sofrimentos, encontram agora um espaço de discernimento crítico frente à ideologia dominante e de organização popular capaz de resistir à opressão. A própria conjuntura nacional ajudou a reforçar as comunidades eclesiais de base. Ao suprimir os canais de participação popular, o regime militar fez com que esse mesmo povo buscasse um novo espaço para se organizar. Esse espaço foi encontrado na Igreja, única instituição do país que, por sua índole histórica, escapa ao controle direto dos poderes públicos.

Conforme julgamos importante ressaltar com relação à realidade no campo brasileiro, principalmente depois da criação das CEBs, que vinha dos finais da década de 1960, uma das ações mais importantes da Igreja foi a criação da CPT, em 1975, que serviu como base para as novas formas de organização social que emergiam, como foi o caso do MST. Para mencionar apenas dois dos principais di- rigentes do MST, José Rainha Junior nos anos 1970 era militante das CEBs, e João Pedro Stédile, um dos principais líderes ideológicos do movimento, foi militante da CPT, organização em que atuou de 1975 até 1982. Para alguns analistas, a influ- ência da Igreja Católica reduz-se aos primeiros anos de formação do movimento, buscando-se desligar a partir daí a Igreja do MST. Logo, não é de estranhar que a Igreja Católica, ou mais precisamente alguns de seus setores, continue exercendo forte influência política e cultural nos rumos do MST.