SAYISI YILLIK HARCAMA £
4. BULGULAR VE SONUÇ
“Três amigos de Jó – Elifaz, de Tema; Baldad, de Suás; e Sofar, de Naamat – ao inteirarem-se da desgraça que havia sofrido, partiram de sua terra e reuniram-se para ir compartilhar sua dor e consolá- lo” (2,11). Os nomes de Baldad e Sofar aparecem exclusivamente no livro de Jó. Por outro lado, o nome de Elifaz aparece na genealogia de Esaú (Gn 36,4.10.11.12.15.16; 1Cr 1,35) e no texto ele aparece como um chefe da região
52 Ivone Brandão de Oliveira, A justiça de Jó numa sociedade violenta. (Dissertação de mestrado pela
de Edom. Temã está situado na região de Edom (Jr 49,7) e seus habitantes adquiriram fama de cultivar sabedoria (Bar 3,22-23).
Elifaz é o mais velho dos interlocutores de Jó e, por isso, é o primeiro a falar. Ele estabelece o padrão para todos os discursos de seus companheiros: um prólogo, respondendo à Jó, seguido a uma defesa multitemática da concepção convencional e oficial da justiça distributiva de Deus, como base para a maioria dos temas argumentados por Baldad e Sofar. Por meio de sua moral utilitária, vai apresentar a teologia oficial da retribuição, com os aspectos fundamentais da justiça retributiva53, segundo a qual quem semeia e cultiva injustiça colhe miséria porque, ao sopro divino, eles perecem e se consomem. O ideal sapiencial é marcado pelo sentido de justiça social, característico tanto do javismo antigo quanto do profetismo, e encontra-se na libertação do indigente das garras do forte, pois a injustiça fechará a boca do grande (5,14-16).
Elifaz fundamenta sua argumentação em duas pilastras. Primeiro, a revelação que afirma ter tido numa visão noturna (4,12-14). O seu conteúdo é a impossibilidade de um ser humano ser justo, ser puro diante do Criador (4,17-19). A segunda pilastra fundamenta-se na observação que fez ao longo de sua vida e a utiliza como sendo verdadeira (5,27a): é a ação retributiva de Deus que ergue e salva os humildes, os abatidos, os indigentes e os fracos e derrota os astutos (5,9-16).
Ao comparar os três discursos pronunciados por Elifaz, pode-se observar que faz uma alteração em seu pronunciamento sobre a doutrina da retribuição. Em seu primeiro discurso, ele começa fazendo memória a Jó do princípio da retribuição: inocentes e justos não são eliminados, mas os que cultivam a desgraça e semeiam sofrimento receberam a
53 Luiz Alexandre Solano Rossi, A falsa religião e a amizade enganosa – o livro de Jó. São Paulo: Paulus,
paga por suas práticas (4,7-8) e, mais adiante, diferencia o destino dos estultos e dos mais desprotegidos da sociedade. Aqueles são amaldiçoados, com filhos privados de socorro na Porta e lançados nas trevas (5,2-4.12-14), enquanto estes são erguidos, salvos das injustiças (9-11.15-16). No segundo discurso, ele não fala mais dos desprotegidos, mas acentua fortemente os aspectos da ameaça que ronda a vida dos ímpios (15,20-35). No terceiro discurso, em dois versículos, continua acentuando as desgraças que se abatem sobre os perversos: serão arrebatados antes do tempo (22,16), com a destruição de seus bens, pelo fogo (22,20). Assim, aquilo que no início fazia questão de observar em relação à proteção divina ao justo e ao desfavorecido, é abandonado nos dois últimos discursos.
Outro ponto de comparação entre os três discursos de Elifaz refere-se à sua atitude avaliativa em relação a Jó. Há uma mudança de posição entre o primeiro e o último discurso, que, por sinal, não é acidental, mudança que gera no leitor um desafio para interpretar e compreender essa atitude. Ele começa seu primeiro discurso reconhecendo a piedade e integridade de Jó que, ao longo de sua vida, dava lições, fortalecia os desfalecidos, sustentava os cambaleantes (4,3-4.6). Essa convicção era tão reconhecida que o próprio Elifaz sente a liberdade de questioná- lo, admira-se de sua perturbação (4,5) e lembrando-lhe o destino seguro dos justos (4,7). Mesmo com essa certeza, paira uma pequena dúvida em seu discurso sobre a situação de Jó quando afirma: “mesmo assim eu recorreria a Deus e exporia minha causa” (5,8). No segundo discurso abandona a atitude de reconhecimento da piedade e da integridade de Jó. De elogiado, ele passa a ser censurado. Existe um forte ataque e condenação às palavras de Jó. Elifaz afirma que elas revelam a linguagem dos astutos (15,5-6) e de sua própria boca brota a acusação de sua impiedade e falta de temor divino (15,4). As acusações tornam-se mais fortes no terceiro discurso. Não se trata mais de condenar somente as palavras, mas seu modo de viver que revelam o desejo
de seguir os caminhos dos perversos (22,15) e a malícia de seus crimes (22,5). Elifaz é pesado em suas palavras. Acusa-o de práticas criminosas contra os desfavorecidos: exigir penhor dos irmãos pelo despojamento de suas vestes, recusar água e pão ao sedento e faminto, despedir as viúvas de mãos vazias e usar de violência contra os órfãos, além de favorecer o homem poderoso (22,6-9). Esse pronunciamento revela que Elifaz considera Jó como um pecador empedernido que despoja os fracos e pratica toda sorte de injustiça, no mesmo nível dos ímpios.
A suspeita inicial de Elifaz, de que Jó tenha praticado um deslize em sua vida (5,8), passa para acusação. Ele afirma que as palavras são reveladoras de impiedade (15,4-6); com tal afirmação, chega à denúncia de crimes, mudando os conselhos que oferece. No primeiro discurso aconselha Jó a que escute e aproveite os ensinamentos de Deus (5,27) e termina seu último discurso apelando para a conversão e reconciliação, de acordo com as instruções divinas (22,21-22); pede que afaste da sua tenda a injustiça e renuncie às riquezas que acumulou (22,23), preenchendo assim a necessária condição para a transformação de sua vida (22,25-28). Finaliza seu discurso afirmando que Deus liberta até mesmo aquele que não é inocente (22,30), clara insinuação que Jó é um ímpio.
Uma terceira observação em relação aos discursos de Elifaz refere-se à única declaração que faz questão que Jó escute, declaração baseada no ensinamento dos sábios aos pais: “só para eles foi dada a terra” (15,19a). Esta declaração encontra-se estrategicamente no centro do segundo discurso e não é apresentada por acaso. Existe uma intenção, que não aparece muito clara aos leitores, mas t em uma relação com o conjunto de seus discursos.
Comparando as posições de Elifaz, nos três discursos, no que diz respeito à doutrina da retribuição e às mudanças de interpretação em relação a seu interlocutor, o leitor pode
levantar uma série de questões pela evolução que os discursos vão tomando. Por que cresce o enfoque na vida do ímpio como merecedor de castigo, deixando de lado a preocupação pelos fracos e pelos justos? Por que ele muda completamente sua avaliação em relação a Jó, de homem piedoso e íntegro no início, para impiedoso e criminoso no final? Onde encontra Elifaz os fundamentos para acusá- lo de criminoso, se antes admitira que era alguém que acudia aos desfavorecidos? Por que existe uma preocupação em acusar as palavras de Jó, desmerecendo seu conhecimento e suas questões? As palavras de Jó constituem uma real ameaça? Qual a intenção de Elifaz em servir-se da revelação que admite ter recebido para fundamentar seu argumento sobre a realidade de que nenhum ser humano é puro/justo diante de Deus? Existe alguma relação entre as acusações sobre práticas criminosas lançadas contra Jó e a declaração, exigindo que compreenda que a terra foi dada somente aos pais?
Os discursos de Elifaz, do primeiro ao terceiro, vão diminuindo em tamanho, mas o conteúdo vai se afunilando do teórico para o prático, da justiça retributiva que atinge ímpios e justo para acentuar somente o castigo aos ímpios, da pura suposição de deslizes á graves acusações que exigem uma mudança de vida.
Embora possa parecer que a preoc upação de Elifaz seja garantir a conversão de Jó de sua culpabilidade, conforme as normas da teologia da retribuição, como afirma Solano Rossi54, tal declaração mostra que essa postura não se reduz a uma simples disputa teológica, mas pode conter questões fundamentais, ligadas à vida do povo.
O discurso revela muito do contexto onde o livro foi escrito e a preocupação não está centrada simplesmente numa doutrina religiosa, mas em uma realidade social injusta e
violenta, para a qual a teologia é usada para justificar e preservar interesses de alguns, ferindo os direitos dos menos favorecidos.