A educação a distância destaca-se no cenário nacional ao passar a fazer parte da agenda política de expansão da educação superior no fim dos anos 90, já a partir das ações, grupos de estudo no Yahoo (CARVALHO, 2009) e objetivos traçados pela UNIREDE, vindo a ganhar um desenho mais robusto principalmente após publicação dos editais do programa Pró-Licenciatura e dos editais do sistema UAB. No entanto, os dois programas lançados na mesma década _ 2004 e 2006, respectivamente _, atuaram de maneira separada, a partir da adoção de modelos diferentes de educação a distância, a serem descritos no quarto capítulo deste trabalho. O que é importante dizer é que a questão fundamental que separa os dois programas se explica pelo recorte estreito que o Sistema UAB faz no que diz respeito à aplicação da tecnologia digital em toda a sua estrutura, funcionando como único pilar sustentador de todo edifício burocrático, institucional e pedagógico das experiências de educação a distância.
O sistema UAB se define como um sistema aberto em razão de seu sistema eletrônico de gestão _ o sistema Moodle _ segundo palavras do professor Hélio Chaves. Está explícita a concepção de educação a distância no que se refere à UAB, marcada pelo determinismo tecnológico, além de se evidenciar a
concepção de universidade e aprendizagem aberta que referencia o discurso da UAB. Segundo Hélio Chaves, em videoconferência pronunciada em novembro de 2005, postada no formato vídeo no portal do Fórum das estatais pela educação9, a afirmação de universidade aberta passa pela aceitação do sistema moodle, que é justificado como um sistema que vai articular todas as universidades pela via da gestão telemática; ser um software de código livre, ser flexível às adaptações necessárias a cada universidade. Nesta mesma videoconferência, Chaves afirma que não há obrigatoriedade do uso do moodle pelas instituições que se propõe às articulações, porém, a aceitação é condicionada à liberação de pagamento pelo FNDE da quantia de R$ 120,000.00 para o exercício 2006, a fim de que as universidades contempladas possam fazer as adequações necessárias ao Moodle. Salientamos que, além do moodle, havia outras plataformas de aprendizagem em funcionamento no MEC, como o ambiente virtual de aprendizagem EPROINFO, utilizado em outros programas da SEED, cuja UAB encontrava-se vinculada. Contudo, as oito videoconferências encontradas, nas quais Hélio Chaves explica e tenta justificar o uso do moodle, limita-se a explicá-lo como “o mais eficiente sistema de gestão eletrônica que o MEC entendeu ser capaz de suportar a UAB, sendo um sistema utilizado nas universidades a distância internacionalmente10”.
Nesta explicação de universidade aberta e a distância reside nossa questão central: é a tecnologia digital e o moodle que caracterizam o sistema UAB como aberto? Quando alinhamos esta supervalorização da tecnologia digital à ausência completa de um discurso consistente sobre universidade educação, pesquisa e metodologias de educação a distância, por mais que a UAB se auto defina como um sistema nacional de articulação entre universidades, a ausência de uma história descritiva de seu surgimento como política pública de educação a distância é mais um fator convergente à sede tecnológica que a orienta e ao negligenciamento da dimensão educacional e pedagógica, bem como institucional que caracteriza uma instituição ou um conjunto articulado delas em universidade aberta, nos gera desconfiança quanto à sua efetividade pedagógica e institucional que a caracteriza como uma universidade aberta.
Segundo Belloni (2009), uma conceituação de aprendizagem aberta a ser
9 Disponível em: <http://mecsrv70.mec.gov.br/webuab/forum.php>. Acesso em: Junho de 2010. 10
considerada é elemento essencial a qualquer universidade aberta. A aprendizagem aberta inaugura na educação superior a ideia de ser aberta por centrar-se no estudante, criando espaço para autoaprendizagem via mediação tecnológica, podendo se realizar com profissionais em serviço, quando utilizam seu tempo livre, sem obrigatoriedade presencial para realizar maior parte do processo. Esta se faz de acordo com o tempo e o ritmo de cada pessoa, contando com a participação ativa dos estudantes e com a capacidade sua de apropriação tecnológica. Belloni afirma que a aprendizagem aberta “se define fundamentalmente por critérios relacionados a acesso, lugar, ritmo de estudo” (2009, p. 32). Possuindo basicamente dois significados:
de um lado refere-se aos critérios de acesso aos sistemas educacionais ('aberta' como equivalente à ideia de remover barreiras ao livre acesso à educação e ao treinamento); de outro lado, significa que o processo de aprendizagem deve ser, do ponto de vista do estudante, livre no tempo, no espaço e no ritmo. (BELLONI, 2009, p. 30)
Moore (2007) elenca mais critérios para a aprendizagem aberta quando ocorre em universidades: acessibilidade a todos, sem condicionar o acesso a escolaridade anterior, flexibilidade na escolha do lugar da aprendizagem, os materiais dos cursos são desenvolvidos por especialistas, as aulas são desenvolvidas por outros especialistas, a escala de abrangência geralmente é nacional, há grandes investimentos, sobretudo de fundos públicos, possui uma ampla variedade de tecnologias, cursos com qualidade elevada.
O modelo da aprendizagem aberta encontra na EAD, numa universidade aberta, organizada através de adesões a um sistema de articulação, como é o caso da UAB, as condições possíveis de seu desenvolvimento, flexibilidade e abertura a novos métodos de aprendizagem, métodos estes que aplicam ora mais estruturados pedagogicamente, ora menos estruturados. A educação a distancia, segundo Belloni (2009), opera em condições mais favoráveis quando associada a aprendizagem aberta. Esta, contudo pode ocorrer de variadas formas, tanto na EAD como no ensino presencial ou integrando as duas modalidades.
Por que o sistema UAB optou por sustentar seu argumento central na tecnologia digital, abrindo mão da circulação de discursos pedagógicos que deram certo, a partir do desenvolvimento de teorias e práticas de educação aberta
e a distância, modelos que, para usar o argumento de Hélio Chaves, servem como exemplo bem sucedido.
O Sistema UAB foi criada sem clareza dos fundos de financiamento, além de ter sua criação vinculada a um equívoco divulgado em seus portais que se refere ao perfil acadêmico de seu primeiro curso no ano de 2005, um curso-piloto de administração pública, que marca concretamente a criação no discurso do sistema UAB sua criação extraoficial. Por outro lado, sua criação oficial dá-se por decreto, com a orientação prioritária favorável à formação de professores e “trabalhadores” da educação, sem nenhuma menção ao curso-piloto de bacharelado em administração de empresas. Como uma instituição que objetiva formar professores inicia sua história com um curso piloto para formar administradores? A denominação “piloto” não se refere à natureza experimental e exclusivista do curso?
Uma análise primária já demonstra as lacunas existentes no discurso oficial da universidade aberta do Brasil, começando inclusive pelo título “universidade aberta”, que sugere uma prática ligada a pressupostos da aprendizagem aberta, bem como a práticas pedagógicas semelhantes às universidades abertas de outros países, sem assumir, em parte alguma de seu discurso oficial, pelo menos desde sua criação, em 2006, até o ano de 2011, compromisso com uma educação aberta, em termos culturais e filosóficos, apenas restrito à dimensão do que é chamado de “mediação didático-pedagógico” dos processos educativos pelas tecnologias digitais.
Se for possível alguma aproximação entre a UAB e outras universidades abertas ainda não podemos precisar o sentido, já que sua principal característica vincula-se, no nível do discurso oficial, à mediação tecnológica dos processos de aprendizagem, que só as aproxima historicamente a partir do momento em que as tecnologias digitais passaram a fazer parte da educação aberta de muitas das universidades do mundo. A diferença está em que a universidade aberta do Brasil foi criada concomitantemente ao ritmo de inserção tecnológica no país ocorrido a partir a partir da década de 1990, enquanto em outras universidades a tecnologia digital representou muito mais um agregado técnico que potencializou novas formas de aprendizagem. Podemos verificar isto na Open University do Reino Unido, que se definia como:
A universidade aberta é aberta a pessoas, lugares, métodos e ideias. […] O estilo da universidade aberta de ensino é chamado de “suporte de aprendizagem aberta. […] Aprendizagem aberta significa que você estará aprendendo no seu tempo livre, lendo o material do curso, trabalhando em atividades do curso, atribuições da escrita e, talvez, trabalhando com outros alunos. […] Alguns cursos incluem uma escola local para realização da aprendizagem em diferentes momentos. [outras] incluem apoio de um tutor ou aluno pessoal de serviços em centros regionais, bem como das áreas centralizadas a como a biblioteca ou associação de estudantes.11(PORTAL DA OPEN UNIVERSITY, 2010)
O que demonstra a compreensão de que aberta não equivale a distância, mas que educação a distância é uma modalidade operacional em que a aprendizagem aberta pode se encontrar pelos mais diversos meios, seja por correspondência, TV, vídeo cassete, DVD ou de forma digitalizada, independente da tecnologia, pois quem dá o tom é a episteme que sustenta esse tipo de educação e não apenas a aplicação maciça de tecnologia, como aparece no discurso da UAB.
Observamos ainda que o sentido atribuído a “universidade aberta” na UAB é mais restrito, pois o ingresso nesta universidade se faz por meio do vestibular e após a conclusão do ensino médio, além de outros requisitos como “estar atuando na rede pública de ensino”, “ser funcionário do Banco do Brasil”, no caso do curso piloto. A palavra “aberta” restringe o quantitativo de vagas ofertadas, oferecendo o número que as instituições públicas disponibilizam, conforme seus recursos humanos e financeiros. “Aberta” na UAB está muito mais no sentido de que a universidade se “abre” as pessoas, para além de seus muros, indo até onde estiverem. Ela não se abre fisicamente, na verdade quem leva o conhecimento é a web, mediada pela tecnologia digital. Por isso, o governo federal afirma investir tanto na produção de tecnologias digitais a fim de garantir a chegada do conhecimento aos locais mais afastados do país, mas o sinal, quando não é bastante limitado em termos de velocidade em muitos municípios, também muitas vezes não é gratuito.
É importantíssimo reunir a partir do discurso oficial e dos discursos fragmentados e marginais essa colcha de retalhos que é a história da universidade aberta do Brasil. Já contamos com uma tese de doutorado defendida em 2009 por Ana Beatriz de Carvalho pelo Programa de Pós-graduação em
Educação da UFPB e a dissertação de mestrado de Maria das Graças Barros, intitulada Concepções e práticas pedagógicas em educação a distância: o caso do curso de administração a distância _ UAB/UEPB _ 2006-2010, defendida em 2011. Carvalho (2009) mostra, através de entrevistas e reportagens online, bem como de uma lista de discussão da Yahoo da qual participou, como esse discurso começou, no “escuro” a ser tecido, vindo a tornar-se UAB. A dissertação de Barros (2011) analisa as concepções teóricas que norteiam as práticas pedagógicas dos professores do curso piloto de Administração da UAB.
Essas constituem partes do discurso que a UAB não apresenta em seu discurso oficial, deixando por outro lado as incoerências explícitas neste mesmo discurso que se figura como verdadeiro, ainda que não explore as razões históricas que condicionaram sua existência tal como é hoje.