Silva (2008) e Póvoa (2010) se repetem nas narrativas, carregadas de uma força literária romântica, ao estabelecer as bases da esfera judiciária no estado do Tocantins. Ambos se referem à região tocantina como a realidade do abandono e da pobreza, e com a criação e a implantação da unidade federativa as inúmeras possibilidades de um porvir venturoso. Ao comparar os textos de ambos, percebemos que, na historiografia do Direito no Tocantins, se trava um embate de autores fundantes. De acordo com textos dos autores, apresentamos suas similitudes no quadro que se segue.
Otávio Barros Silva José Liberato Póvoa
“Às vésperas de instalação do Estado do Tocantins, em 1º. de janeiro de 1989, houve uma verdadeira ‘revoada’ de juízes lotados na região, que talvez desacreditando no futuro Estado, optaram pelo Estado de Goiás. Ficaram apenas cinco juízes, para o atendimento das comarcas do novo Estado.” (2008:126)
“Às vésperas da criação do Estado caçula, houve uma verdadeira ‘revoada’ de juízes, que, talvez desacreditando no Tocantins, optaram pelo Estado de Goiás; ficamos com apenas 5 juízes para atendimento de todo o Estado.” (Disponível em: <http://www.tjto.jus.br/institucional/histórico.asp>. Acesso em: 13 jun. 2010, p. 2)
“Ao ser desmembrado de Goiás, o Tocantins recebeu uma herança no mínimo amarga: para um território de aproximadamente 1 milhão de habitantes, 80 municípios e 20 comarcas existentes, havia apenas cinco juízes. Inicialmente o Tribunal de Justiça do Tocantins recebeu a nomeação de cinco primeiros desembargadores.” (2008:126)
“Ao ser desmembrado de Goiás, o Tocantins recebeu uma herança no mínimo amarga: para um território de 286.966 km2, aproximadamente
1.100.000 habitantes, 80 municípios e 20 Comarcas existentes, havia apenas cinco juízes, todos concentrados em um raio de aproximadamente 150 quilômetros da Capital Provisória [...].” (Disponível em: <http://www.tjto.jus.br/institucional/histórico.asp>. Acesso em: 13 jun. 2010, p. 2)
Quadro 9: Embate teórico entre Silva e Póvoa na historiografia do Direito no Tocantins (elaborado por José Kasuo Otsuka)
Silva (2008:127-128) se remete ao passado para retratar uma preconfiguração do campo judiciário:
Na Província, e depois Estado de Goiás, os promotores de Justiça eram autodidatas. Qualquer cidadão do lugar podia ser nomeado promotor para auxiliar na Justiça. [...]
Antes da criação do Tocantins, o promotor de Justiça era uma figura inexpressiva na região norte de Goiás. Às vezes não tinha nem sala para seu trabalho e geralmente estava ausente nas solenidades públicas. Depois do
juiz, as principais autoridades locais eram o prefeito e o Delegado de Polícia. O Juiz de Direito e o delegado tinham casa, empregada doméstica, roupa lavada e carro à disposição, pagos pelo prefeito. O promotor, não.
Nos anos 70 do século passado o “nortão goiano” era o Eldorado para gerentes de banco, coletores (fiscais de impostos), delegados de Polícia e juízes de Direito. Eles chegavam aqui como assalariados e retornavam às origens com vasto patrimônio em terra e gado. O promotor de Justiça era mal visto pelo chefe político, pois, a qualquer momento uma denúncia sua contra os poderosos da comunidade viria abalar a política de coronelismo do “nortão goiano”.
Deixamos os aspectos sintáticos e semânticos, expressões hiperbólicas e eufemismos para possíveis leitores desta dissertação que trazem a análise de discurso e de conteúdo como instrumentos de apoio investigativo. Ambos os autores convergem para 1º de janeiro de 1989 como a data de nascimento do Ministério Público do Estado do Tocantins.
Póvoa (2010), em sua incursão por passado recente, apresenta que
Todos os juízes concursados (à exceção de três, que resolveram adiar a posse) foram empossados, estando todas as Comarcas providas, inclusive as recém- instaladas, em número de 12. O Judiciário tocantinense é muito jovem: a média etária de nossos juízes é de 27 anos.
O Tribunal manterá um certo número de Juízes Substitutos para, em caráter itinerante e permanente, realizar o trabalho de desobstrução de Comarcas, e estabelecerá plantão durante as férias forenses inclusive nas Comarcas de primeira entrância. Como o Estado está dividido em 15 Regiões Administrativas, em cada Região haverá um juiz plantonista.
Além das 12 Comarcas de primeira entrância, criamos 10 Varas para as de terceira, para agilizar ao máximo a Justiça. Em Araguaína, havia três Varas, desprovidas; hoje, há seis, todas providas. Em Gurupi, havia duas, também sem juiz; hoje, há quatro, providas; em Porto Nacional e em Miracema, dobramos o número de juízes, sem falarmos no Juizado de Pequenas Causas, criado nas Comarcas de terceira entrância e em Colinas do Tocantins [...]. Ao se colocar à luz da história do Direito no Brasil o campo jurídico no Tocantins percebe-se um forte enraizamento ao fenômeno do coronelismo, enquanto representação sociológica de grupos hegemônicos no poder, e uma ligação próxima às características do Direito como justificação da Lex divina ou em paralelo à corte régia. O coronelismo traz fortemente a figura do pater familiae, do patriarca como sustentáculo da família na organização basilar da comunidade-sociedade. Essa aura mística, embrenhada no inconsciente coletivo, perpassa no campo jurídico. Juízes e operadores se tornam possuidores, por extensão, dessa aura mística. O Tocantins preserva parte dessa herança.
Felizmente, novas gerações, giros de compreensão e apreensão de mais saberes e configurações políticas do Ministério Público com as ações políticas
associadas aos demais grupos organizados da sociedade civil possibilitam bandeiras comuns de combate à pobreza, à violência, aos estados latentes de preconceitos. Isso possibilita novos ares e outra maneira de escrever a história enquanto a vive.
Nesse campo ainda em configuração, cujos embates também estão por se estruturar com clareza ideológica, políticas (in)visíveis para os idosos circulam. Entretanto o campo não dá plena importância ao que ocorre, pois a violência contra os idosos é intrafamiliar. Tocar nessa esfera é complexo para um campo que necessita ter mais elementos para saber trabalhar a interdisciplinaridade e a multirreferencialidade.
CAPÍTULO V
AS POLÍTICAS PÚBLICAS (IN)VISÍVEIS PARA OS IDOSOS
Neste Capítulo, realizamos o delicado exercício de analisar passado e presente recentes sobre as políticas públicas e respectivas práticas (in)visíveis, existentes no estado do Tocantins. A fronteira entre o vivido e o analisado é muito tênue, mas, com as informações e os saberes estabelecidos, pretendemos minimizar as áreas de desconforto e de incertezas sobre nosso objeto de estudo.