Muitos habitantes do DF e de outros estados têm dificuldades em entender suas características e peculiaridades de organização política, administrativa e territorial, que o diferencia dos demais entes autônomos brasileiros, isso por que:
Parte significativa dos habitantes do DF é originária dos mais diversos estados e municípios brasileiros, possuindo culturas, costumes, educação e hábitos heterogêneos, mas tendo em comum o conhecimento tradicional do seu município, da sua prefeitura e prefeito, do governo do seu estado e governador, vereadores, deputados estaduais, e dos três poderes constitucionais do Estado: o Legislativo, Executivo, e Judiciário, existentes em todos os estados brasileiros. (DISTRITO FEDERAL, 2003, p. 50).
A CF/1988 conferiu autonomia ao DF no mesmo pé de igualdade que a União, estados, municípios e territórios (que ainda podem ser criados), mas com uma característica sui
generis: ora exercendo papel de estado, ora de município, acumulando competências
legislativas e executivas reservadas a esses entes autônomos, conforme artigos 23 a 32. Já o GDF o define como unidade atípica da Federação, com particularidades próprias e únicas:
1. É regido pela Lei Orgânica do Distrito Federal (LODF), de 08 de junho de 1993,
modelo peculiar aos municípios, mas equivalente à Constituição Estadual. A LODF/1993 o autoriza a exercer todas as competências que não lhe sejam vedadas pela CF/1988.
2. É o menor ente autônomo, com 5.783 km², correspondentes a 26% de Sergipe, menor
estado brasileiro. Constitucionalmente, é vedada sua divisão em municípios, o que significa que não tem competência para mudar seus limites territoriais. A LODF/1993 prevê que seu território compreende o espaço físico-geográfico sob seu domínio e jurisdição, organizado em Regiões Administrativas (RAs), com vistas à utilização racional de recursos orçamentários e financeiros, visando garantir o desenvolvimento socioeconômico e a melhoria da qualidade de vida da população.
3. O DF não tem capital. Apesar de localizar-se em seu território, Brasília não é sua
capital e sim “Capital Federal da República do Brasil e sede do governo do Distrito Federal”
150 Nelas instalam-se as Administrações Regionais (sedes com status de prefeitura). Brasília é a sede da RA de Brasília, ou RA I, que já foi denominada de RA I do Plano Piloto.
4. Só tem Poder Legislativo e Executivo. Segundo art. 32 da CF/1988, o primeiro é
exercido por uma Câmara Legislativa Distrital (nos municípios, pela Câmara de Vereadores e nos estados, pela Assembleia Legislativa). A Câmara Legislativa do Distrito Federal (CDLF) tem características híbridas. Sua formação é similar à Câmara de Vereadores e não à de
Assembléia Legislativa. Mas seus membros, os “Deputados Distritais”, têm atribuições,
períodos de eleição e duração de mandatos iguais aos Deputados Estaduais e não de Vereadores. O Poder Executivo é exercido por um Governador e Vice-Governador, com regras relativas iguais aos mandatos dos Governadores e seus Vices nos demais estados.
5. Não pode organizar e manter, em seu âmbito, Ministério Público (como existem os 26
MPEs nos estados), Poder Judiciário, (exercido por Comarcas nos estados/municípios), Defensoria Pública, Polícia Civil, Militar e Corpo de Bombeiros. Tais competências são da União, editadas pelo Congresso Nacional.
Existem várias divergências e incongruências na literatura acerca da delimitação territorial do DF, que muito se confunde com conceitos de Brasília, Plano Piloto, Regiões Administrativas, cidades satélites, Área Metropolitana de Brasília (AMB), Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (RIDE) e outros.
Foi a Lei nº 2.874, de 19 de setembro de 1956 que criou a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (NOVACAP) a fim de planejar, implantar e construir a futura capital do Brasil.
Segundo Lopes L. (1996), foi sua incumbência realizar, em 1957, o “Concurso Nacional para
elaboração do Plano Piloto de Brasília”, cujo projeto vencedor foi do urbanista francês Lúcio
Costa (1902-1998), dentre 26 trabalhos apresentados.
Nestes termos, em 21 de abril de 1960, Juscelino Kubistchek inaugurou Brasília, transferindo, em definitivo, a Capital Federal instalada no município do Rio de Janeiro para o Planalto Central, local que passou a alojar a alta administração do País, coincidindo com o “Plano Piloto” proposto por Lúcio Costa, tendo Israel Pinheiro como primeiro prefeito.
O processo de transferência inaugurou um ciclo de centrifugação de habitantes como “próteses urbanas”; ou seja, os bolsões populacionais que se instalaram ao redor do círculo fechado do Plano Piloto ora planejado por Lúcio Costa para abrigar apenas a Capital Federal no DF. “A constelação urbana que se formou no processo desmontou o mito do planejamento
151 „racional‟ (tão decantado nos meios oficiais e na mídia). E por que tal desmonte? A resposta
encontra-se na criação de Taguatinga, primeira cidade-satélite, em 1958” (PAVIANI, 2009).
A Lei 3.751, de 13 de abril de 1960 definiu a estrutura da administração da “Nova
Capital da República” e citou, oficialmente pela primeira vez, a expressão cidades satélites em
seu artigo 4º: “Ao Distrito Federal, no desempenho da missão de promover o bem comum,
incumbe: a) zelar pela cidade de Brasília, pelas cidades satélites e comunidades que a
envolvem, no território do Distrito Federal”. (BRASIL, 1960).
O Decreto nº 43, de 28 de março de 1961 convalidou a administração regionalizada dos núcleos urbanos formados ao redor da Prefeitura do Plano Piloto em sete Subprefeituras:
Planaltina, Taguatinga, Sobradinho, Gama, Paranoá, Brazlândia e Núcleo Bandeirante “com o
encargo de representar a Prefeitura do Plano Piloto e promover a coordenação dos serviços em harmonia com o interesse público local”. (BRASIL, 1960).
A Lei 4.545, de 10 de dezembro 1964 estabeleceu a divisão territorial em oito RAs: Brasília, mais sete cidades satélites. O Decreto "N" nº 456, de 21 de outubro de 1965 regulamentou a numeração romana e as respectivas nomenclaturas. (BRASIL, 1964, 1965).
A Lei nº 49, de 25 de outubro de 1989, alterada pela Lei nº 110, de 28 de junho de 1990,
ratificou a organização regionalizada do DF, consolidando as expressões “Região
Administrativa” e “Administração Regional”, em substituição à “cidade satélite”. Há no ano
em exercício (2009), 29 RAs no DF. A criação da 30ª está em tramitação na CDLF.
A Secretaria de Estado de Coordenação das Administrações Regionais (SECAR) considera a estrutura funcional das RAs em Administrações Regionais assemelhada às prefeituras, e o Administrador Regional, à figura do prefeito. Em 2003 foi autorizada escolha de candidatos feita por entidades representativas comunitárias das RAs. Porém, não há normatização relativa ao processo e os Administradores são indicados pelo Governador.
Essas definições sobre a organização política, administrativa e territorial do DF visam esclarecer o desenvolvimento das políticas públicas locais, principalmente em relação à alimentação escolar, haja vista que no quadrilátero, há cidades centenárias e dispersas entre si
152 Segundo Paviani (2009), Brasília e DF, no contexto atual, não podem mais ser vistos como modelos de planejamento urbano, vez que, polinucleados, revelam acentuado contraste
em relação ao projeto inicial, denotando o fracasso do que foi proposto pelo “Plano Piloto”,
que traz à tona questões sobre o separatismo e exclusão sócio-espacial, pela diversidade dos núcleos espalhados por todo território.
Em artigo publicado no Correio Braziliense, Oscar Niemeyer alerta para a ameaça da expansão urbana desordenada ao redor de Brasília, cidade projetada para abrigar 500 mil habitantes, que possui cerca de 2,5 milhões, conforme última estimativa do IBGE (2008):
Se a idéia inicial de JK, tivesse sido seguida, Brasília seria menor, com certeza [...]. Se esse tivesse sido o programa confiado a Lúcio Costa, Brasília continuaria a apresentar o aspecto monumental que ele tão bem soube conceber [...]. Minha idéia era voltar um pouco ao passado, lamentar que a proposta de uma cidade menor não tivesse sido adotada, [...] que, a meu ver, podia ser mais simples e melhor, como uma flor pousada naquela terra agreste abandonada (NIEMEYER, 2008, p. 27).
Estudo realizado pela UnB em 2006 revela que nos próximos 24 anos, 50% da população da região metropolitana, estimada em 3,2 milhões de habitantes, estarão concentrados no eixo oeste do DF, e a tendência é que o crescimento se estenda ainda mais.
Na contramão do pensamento de Niemeyer sobre o disvirtuamento do “Plano Piloto”
concebido por Lúcio Costa para Brasília e o DF, dados sobre a prestação e acesso aos serviços públicos e bens de consumo apresentam um olhar positivo sobre esse crescimento.
Baseados na PNAD/IBGE (2007), e na Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD), levantamento realizado também em 2007 pela Companhia de Desenvolvimento do Planalto Central (CODEPLAN), a tabela 5 traz alguns indicadores de qualidade de vida dos brasilienses, (pessoas que nasceram no DF) e dos nascidos em outros estados que escolheram
o DF como local de moradia (os chamados “candangos”), demonstrando condições acima da
média nacional, e elevando Brasília ao status de cidade metropolitana em todas as dimensões. Os números representam um diferencial na disputa com outros estados por investimentos, já que a área de influência transcende suas 29 RAs. Estudos do IBGE (2008) indicam que Brasília é referência para 9.680.621 pessoas em 298 cidades. „Brasília agora só
153 está atrás de São Paulo e essa impotância não é mais somente pela forte presença do governo federal‟[...], analisa técnica do IBGE”. (CORREIO BRAZILIENSE, 2008, p. 33).
Tabela 5 – Indicadores de qualidade de vida da população do Distrito Federal (2007).
Qualidade de vida DF Brasil
Indi
ca
do
res
Renda média (R$) 1.891,00 956,00
Domicílios com renda média superior a cinco salários mínimos (%) 21,1 6,5
Anos de Estudo das pessoas com 15 anos ou mais 9,3 7,3
Taxa de urbanização (%) 94,2 83,5
Taxa de mortalidade infantil (por mil) 16,80 24,3
Expectativa de vida ao nascer (% total de homens e mulheres) 75,3 72,7
Participação no PIB (%) 1,8 - IDH 0,844 0,8 Ser vi ços por do m icílio Rede de água 93,6 83,3 Rede de Esgoto 95 73,6 Coleta de lixo 98,6 87,5 Rede elétrica 100 98,2 B ens du ráve is p or dom icí lio Telefone 95,7 77,1 Fogão 99,1 98,1 Geladeira 97,6 90,8 Freezer 22,9 16,3 Lavadoura de roupas 56,7 39,5 Rádio 90,7 88,1 Televisão 98,8 94,5 Computador 48,4 26,6
Fontes: IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD): Síntese de Indicdores, 2007;
CODEPLAN. Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD): Sítese de Indicadores, 2007.
Por isso o PEAE-DF é importante política de alcance do Desenvolvimento Regional Sustentável (DRS), tendo em conta a área de influência formada por cidades de GO, MG, BA e TO, que dependem da Capital Federal e das RAs do quadrilátero distrital, abrangendo um
total de 1.760.734 km2, com participação no Produto Interno Bruto (PIB) nacional de 6,91%
(CORREIO BRAZILIENSE, 2008).
4.2 EVOLUÇÃO DA ALIMENTAÇÃO ESCOLAR NO DISTRITO FEDERAL