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Tratar de temas universais é um exercício lúdico e crítico do cartum, como gênero ou subdivisão da caricatura no humor gráfico. No cartum, há o desenho de uma piada rápida, uma anedota gráfica, que aborda assuntos de interesse geral através de uma julgamento mordaz, zombador, satírico ou irônico, sobretudo humorístico, mas que não tem uma referencialidade com os fatos jornalísticos e com a atualidade, e isso já foi destacado aqui no capítulo anterior, dedicado à contextualização teórica e metodológica. No Pasquim, como em demais publicações de humor, o sentido não é diferente.

Entretanto, a ele se soma uma característica peculiar, o de abordar assuntos proibidos naquele período de forma sub-reptícia, disfarçada, dissimulada, na forma de temas não ligados ao cotidiano. Essa forma de desenho de humor fez do jornal um veículo que mantinha um diálogo inteligente, furtivo, nas chamadas entrelinhas, tanto ao abordar questões de natureza política como em sua chamada crítica de costumes, criando assim um espaço simbólico de confronto e contestação. Vamos tratar a análise do cartum no Pasquim nesta perspectiva, de tocar assuntos que não estavam ligados a fatos jornalísticos, mas que compunham um discurso de resistência ao modelo político e cultural da ditadura militar, como forma de burlar a censura e ao mesmo tempo tratar de temas proibidos.

Percebe-se, desta forma, na prática de cartuns e charges do Pasquim o diálogo com a contracultura e com a cultura nacional-popular, descrita no capítulo 01, tanto na busca por saídas para o exercício da liberdade artística quanto na variedade de temas tratados (tópico 1.2). A contracultura, sobretudo em seu próprio sentido stricto, de uma cultura de resistência, e a cultura nacional-popular por meio de uma cultura popular politizada. Nesta última, o político e o cultural se sintetizam (capítulo 01), fazendo da sátira e do deboche mecanismos de resistência que se manifestam em tipos e situações que convivem com o leitor em diferentes momentos ao longo das edições, construindo a construção jornalística e humorística do Pasquim.

3.2.3.1. Limites entre charge e cartum no Pasquim

No Pasquim, como foi sinalizado, o cartum poderia também - em um limite tênue com a charge, dentro de determinadas situações - atingir os fatos no contexto de uma atualidade histórica, social, política e cultural específicas, por seu caráter de universalidade51. Isso acontecia no caso do jornal em relação ao seu contexto.

Tratando de resgatar “o lugar da fala pasquiniana”, como definiu José Luiz Braga (BRAGA: 1991, p. 206), a partir de suas origens, oposições, identificações, reivindicações e seu papel dentro da imprensa alternativa, pode-se analisar algumas das cartuns em particular, situando-o dentro do universo espaço-temporal daquele período, o que lhe permite, apesar da não-referencialidade direta, um diálogo com os fatos e os acontecimentos. Desta forma, vejamos alguns exemplos de alguns desenhos de humor retirados de alguns dos primeiros 80 números do Pasquim.

Os dois primeiros foram publicados na página 16 da edição de nº02, que circulou em julho de 1969 (anexo 45). Eles fazem uma referencia à pena de morte, que era proibida por lei, mas praticada no Brasil através do exercício rotineiro das torturas, dos desaparecimentos e das execuções nos porões do Departamento de Ordem Política e Social – DOPS –, Polícia Federal e em órgãos das Forças Armadas, dentre outros cárceres. A página é composta de vários cartuns, todos sem uma referência direta a um contexto espacial, factual, temporal ou jornalístico específico. As charges que ocupam as páginas “dois” dos jornais de grande circulação sempre apresentam uma relação direta com os fatos debatidos, conseguindo opinar e contextualizar a partir do humor gráfico os acontecimentos. Nesses cartuns de Jaguar, não há necessariamente uma alusão a um acontecimento específico, mas sintetiza na última página a comicidade que remete aos abusos que são praticados pelo Estado, por um Leviatã opressor e tirano que se vê vítima de sua própria violência.

O desenho, sem balão de diálogo, mostra um carrasco que, após descer a guilhotina do condenado à decaptação, perde o próprio braço que segurava firmemente a cabeça da vítima pela lâmina. No cartum do lado direito, também sem balão de fala, um condenado à morte

51 Mesmo assim, não deixaria de ser caracterizado como cartum, por sua atemporalidade e por sua

pela forca olha com um riso sarcástico uma devastadora bomba de hidrogênio que é atirada sobre a população e os inquisidores que apenas aguardam o momento de sua morte.

Em ambos os casos - tanto no cartum da guilhotina, quanto no da forca - a crítica funciona como uma sátira agressiva, uma inversão, um malogro da vontade, na acepção da comicidade proposta por Vladímir Propp, capaz de possibilitar ao leitor uma identificação com acontecimentos de seu tempo e espaço contemporâneos, mesmo sendo alusivos a algo dentro de outra espacialidade e temporalidade. Assim, são dois exemplos de cartum que se aproximam do universo da charge, pelo contexto opressivo, tirano e violento da ditadura militar que é retratado com outros atores, no caso, através do cartum como subdivisão da caricatura, acentuando e marcando o ridículo nos personagens, que são transponíveis a uma referencialidade com o real do Estado militar e civil retratado.

Outro cartum aqui analisado é referente à edição de nº 07, página 08, de agosto de 1969 (anexo 46). O cartum acompanha um artigo sobre o personagem Sig, assinado pelo jornalista Tarso de Castro, que não tem nenhuma relação com o desenho. Este, por sua vez, trata da questão da maternidade e da liberdade feminina. A diagramação, contudo, concentra um equilíbrio visual que possibilita, em termos de distribuição dos elementos na página e a tipografia, destaque para as duas únicas imagens. O cartum denota uma senhora de avental, gorda, conotando uma típica dona de casa de classe média, conversando com a vizinha através de uma cerca de madeira enquanto a outra varre o quintal. Atrás dela, oito pequenos caixões de crianças com cruzes em cima. Ela diz, com um semblante sério, uma fala que parece ser uma reprodução do pensamento de parte da classe média que apoiou o golpe: sou contra as

pílulas anticoncepcionais. Uma crítica direcionada àquelas que fazem aborto clandestino, mas

negam usar métodos contraceptivos, como a camisa de vênus e a própria pílula anticoncepcional. Desta forma, temos um exemplo em que não há uma crítica direta ao militarismo ou a métodos empregados por setores ligados à Segurança Nacional, mas sim a setores que sustentam simbólica e ideologicamente este regime. Sendo, portanto, uma crítica ao modelo de sociedade hegemônica do período da ditadura militar. Um cartum que vai além de seus limites espaço-temporais, atingindo, com sua universalidade, fatos ligados ao contexto do cotidiano social e cultural em questão.

O cartum que será analisado agora foi publicado na página 18 do nº 21 do Pasquim e faz uma piada de natureza política (anexo 47). Desta vez, o tema é uma paródia ao terrorismo e ao seqüestro, praticas que se tornaram comuns com a ação de grupos guerrilheiros de esquerda radical no Brasil e na América Latina, como forma de implementar e fortalecer

atividades de cunho revolucionário. No desenho, o personagem retratado é o Super-homem, criação de Joe Shuster e Jerry Siegel para a editora de quadrinhos DC Comics, que já foi adaptado para o cinema, rádio, novelas, seriados, desenhos animados, vídeo-games, tornando- se um dos maiores personagens da cultura pop. Em certa perspectiva de análise da ideologia nas histórias em quadrinhos, o Super-homem (ou Superman) representa simbolicamente a pretensa força e superioridade do homem norte-americano.52

No desenho53, um homem de terno e óculos senta nas costas do personagem, apontando uma arma para a sua cabeça. O tipo diz: Para Havana! O significado do seqüestro do Super-homem, como se fazia com aviões que iam à Cuba revolucionária, onde está a cidade de Havana, sua capital, reitera o papel do Pasquim em dar sentido humorístico a essa prática proibida de ser abordada pela chamada grande imprensa. Desta forma, cumpre seu papel de construir um discurso alternativo, que era o papel desse tipo de jornalismo daquelas décadas, desta vez através da imagem do cartum, tocando em um tema atual (papel habitual da charge).

A série de cartuns que segue foi publicada nas páginas 04 e 05 da edição de nº 29, de 08 de janeiro de 1970 (anexos 48 e 49). Desta vez o tema é o uso possível do palavrão, que Ziraldo, autor dos desenhos, chama em alguns momentos - como na entrevista que deu ao documentário sobre o Pasquim exibido na TV SENAC (TV SENAC: 2000) - de “Palanovrões”. O título é Ziraldo faz a convocação: Abaixo o Palavrão. Nele, há a uma sátira velada à censura e ao moralismo da classe média, que viam e vêem no palavrão algo obsceno, repulsivo e alvo de críticas. Essa criação de Ziraldo remete-se também, dentro de um ponto de vista, ao que havia sido inaugurado com a entrevista com Leila Diniz, quando seus palavrões haviam sido substituídos por asteriscos (*) e outros caracteres tipográficos.

Desta vez, Ziraldo sintetiza em forma de desenhos ao mesmo tempo o espírito satírico e irônico do Pasquim, através de um mecanismo de burlar a censura encontrado pela patota do jornal, invenção que acabou sendo de importância tão grande na época que foi incorporado pelos hábitos cotidianos da juventude leitora do jornal. Sig faz o papel de comentar a matéria gráfica no canto superior direito da página 04: Ziraldo, com mais uma página Duca. Acima

52 Note-se que as cores da roupa e da capa do Super-homem levam as cores da bandeira norte-americana, azul,

vermelho e branco, o que reitera o sentido e ligação entre o personagem e os EUA.

dos quadrinhos, a pergunta ao leitor: Do you Spasquinglish? Um trocadilho verbal com a frase em inglês, Do you speak english? que significa: Você fala inglês? No caso a intenção é perguntar se o leitor do jornal está familiarizado com a linguagem cifrada de palavrões do

Pasquim. Os “palanovrões” de Ziraldo são ditos por desenhos de sujeitos diferentes, que se

expressam como caricaturas que dão ênfase a cada um deles, através de gestos dos personagens ao longo dos quadrinhos.

Alguns dos “palanovrões” são: Duca (do caralho); Pô (porra); Ica-Cacilda (Ih, caralho); Quimera (que merda); É Ford (é foda); Quispa (puta que pariu); Mifo (me fodi); Sifo (se fodeu); Aqui, Del Rey (sem tradução, mas que significa uma expressão de esnobismo);

Foquiorselfe (tradução do inglês Fuck yourself, que significa “foda-se”); Vavaca (vá cagar);

Vapapupa (Vá para a puta que o pariu) etc. No desenho com a expressão Pô, por exemplo, o personagem faz um gesto de decepção, com os braços abertos na tentativa de mostrar este sentimento. Em É Ford, ele diz a “frase” também em tom de desengano, de desesperança ao ler uma notícia ruim em um jornal. O tipo de Foquiorselfe faz um gesto brusco com o braço para esculhambar, esculachar uma pessoa qualquer. São formas iconográficas construídas por Ziraldo para dar sentido visual aos sentimentos de cada um dos palavrões proibidos, que tomam força de comicidade e de resistência à ditadura e ao modelo sócio-cultural hegemônico nas páginas do tablóide humorístico carioca. Mais uma vez o cartum no Pasquim, sem a necessidade de estar atrelado à atualidade e aos fatos jornalísticos, toca o cotidiano e a rotina para falar sobre seu próprio tempo.

O próximo cartum também cumpre esse papel. Outra sátira de costumes de Ziraldo. Publicado no Pasquim de nº 36, na página 10, de 19 de fevereiro de 1970 (anexo 50). O modelo segue o de críticas aos valores da classe média, que seguem um modelo padrão de família contestado pela revolução de hábitos e comportamentos que a década de 1960 inaugurou no Brasil e no mundo. Dois velhos amigos de terno e gravata se encontram ao acaso. O primeiro pergunta: Como você vai? O segundo, de óculos, responde, em espírito de contentamento: Vou bem, obrigado. O primeiro continua: E como vai a família? Neste instante o de óculos se apavora e fala: Você não soube? Não te informaram? Eles olham ao redor, com medo de serem observados e o segundo continua: Tem um pessoal aí querendo

destruir ela!

O sentido denota que o sujeito de óculos está sendo ameaçado com sua família. Mas o sentido metafórico, satírico, cômico vem através da conotação da piada, que implica que a família que está para ser destruída é a família em seu sentido geral, de segmento social, de

estratificação e campo, ou seja, a família brasileira em sua tradição. Esse era o temor alimentado pela classe média, variante moralista, perante a implementação do comunismo no país, o que foi provado historicamente, mesmo em países onde regimes socialistas ou próximos ao comunismo foram instaurados, que era uma grande estigmatização.