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Para conceituar linguagem e língua nesse estudo, sirvo-me dos teóricos abaixo citados:

Não há nada imanente na linguagem, salvo sua força criadora e constitutiva, embora certos “cortes” metodológicos e restrições possam mostrar um quadro estável constituído. Não há nada universal, salvo o processo – a forma, a estrutura dessa atividade. A linguagem, pois, não é um dado ou resultado, mas um trabalho que “dá forma” ao conteúdo variável de nossas experiências, trabalho de construção, de retificação do ‘vivido’ que, ao mesmo, constitui o sistema simbólico mediante o qual se opera sobre a realidade e constitui a realidade como um sistema de referências em que aquele se torna significativo. Um trabalho coletivo, em que cada um se identifica com os outros e a eles se contrapõe, seja assumindo a história e a presença, seja exercendo suas opções solitárias. (idem, p.64)

A respeito de Vygotsky e de Bakhtin que compreendem o homem como ser histórico, e atribuem à linguagem um lugar central na constituição da consciência, Freitas (1997) afirma que:

A mediação semiótica da vida mental é colocada como um ponto de partida em seus estudos, do qual decorrem outros aspectos comuns: a constituição semiótica da consciência pela interiorização da linguagem, a linguagem interior como trama semiótica da consciência, o papel do outro e do diálogo nesse processo de interiorização, a intervenção crucial do contexto.

Os dois autores consideram que a consciência é engedrada no social, a partir das relações que os homens estabelecem entre si por meio de uma atividade sígnica, portanto pela mediação da linguagem. (idem, p.318)

Argumenta Vygotsky (1989a, 1989b) que a linguagem é constitutiva, central, presente no desenvolvimento psicológico. O pensamento se constitui na linguagem, que constitui o sujeito, a forma como este entende o mundo e a si próprio. E é por meio da linguagem, numa relação sígnica, que vive em sociedade, internaliza conhecimento e modos de ação, organiza e estrutura seu pensamento.

Para Bakhtin (1990), a linguagem está vinculada à constituição da subjetividade e da consciência humana. Esse autor trata do papel do meio social e da língua e a importância das interações verbais, num processo dialógico e a sua importância na construção da consciência humana. Ao se referir à dialogia, afirma que os interlocutores devem pertencer à mesma comunidade linguística e dividir as muitas condições sociais que definam a relação de pessoa para pessoa, tecendo sentidos únicos de pessoa para pessoa (Tema). E defende que se deve considerar os aspectos linguísticos a partir de seu contexto social, pois é apenas por meio desse contexto social que as palavras significam. Esse filósofo da linguagem afirma que a interação verbal se dá mediante a um locutor e um interlocutor, em dada situação social, em contexto historicamente determinado e um objeto de discurso.

Por isso não é suficiente que dois interlocutores se encontrem para que a palavra ou o signo se constitua. É preciso que façam parte da mesma comunidade linguística, de um grupo

de pessoas com alguma organização social, ou que formem uma unidade social. Para ele, a palavra, fenômeno social, se relaciona com as condições e formas de comunicação social, condicionada pela organização social em que a interação acontece, trazendo marcas sociais e espalhando-se entre seus usuários, tornando-se plurivalente e aberta a mudanças. “O sujeito bakhtiniano faz parte de determinada classe social, que encontra, no uso da língua, lugar responsivo integrado em determinada coletividade organizada, tendo, assim espaço para se compor como agente de transformação.” (Silva, 2001, p. 26)

Vygotsky aponta, segundo Silva (idem, p. 29), para a ideia de que o indivíduo não significa o mundo para representá-lo, mas para construir a sua própria significação pela linguagem. Ele relaciona a linguagem à formação das funções psicológicas superiores, que podem ser alteradas pelos signos, que, para ele, transformam o funcionamento mental.

Em seus textos da obra “Fundamentos da defectologia” (1989) os sinais (elementos do léxico da língua de sinais) passam a ser os mediadores na construção de significados. No caso dos surdos, percebe-se por meio dos pressupostos vygotskianos que o professor, que trabalha com surdez, deve atuar por meio da “zona de desenvolvimento iminente”32, em que a interação se dá ativa e responsiva.

Pesquisas permitiram aos pedólogos pensar que no mínimo, deve-se verificar o duplo nível do desenvolvimento infantil, ou seja: primeiramente, o nível de desenvolvimento atual da criança, isto é, o que hoje, já está amadurecido para, em segundo lugar, projetar a zona de seu desenvolvimento iminente, ou seja, os processos que, no curso do desenvolvimento das mesmas funções, ainda que não estão amadurecidos, mas já se encontram a caminho já começam a brotar; amanhã, trarão frutos; amanhã, passarão para o nível de desenvolvimento atual.

Isso se confirma , nas palavras de Vigotsky:

Pesquisas mostram que o nível de desenvolvimento da criança define-se, pelo menos, por essas duas grandezas e que o indicador da zona de desenvolvimento iminente é a diferença entre esta zona e o nível de desenvolvimento atual. Essa diferença revela-se num grau muito significativo em relação ao processo de desenvolvimento das crianças com retardo mental e ao de crianças normais. A Zona de desenvolvimento iminente

32 Prestes(2010) defende que houve uma tradução equivocada do russo para o português do termo zona

blijaichego razvitia que foi traduzido como “zona de desenvolvimento proximal” ou “zona de desenvolvimento potencial”. Ela justifica que a característica essencial dessa zona é a das possibilidades de desenvolvimento, mais do que do imediatismo e da obrigatoriedade de ocorrência, pois se a criança não puder “contar com a colaboração de outra pessoa em determinados períodos de sua vida, poderá madurecer certas funções intelectuais, e mesmo tendo essa pessoa, isso não garante, por si só, o seu amadurecimento.”(idem, p.173) “Vigostky não fala de nível potencial, pois entende que nada está pré-determinado na criança, há muitos processos internos que podem ser despertados para a vida por meio das atividades-guia.”(idem, p.174)

em cada uma delas é diferente. Crianças de diferentes idades possuem diferentes zonas de desenvolvimento. Assim, por exemplo, uma pesquisa mostrou que, numa criança de 5 anos, a zona de desenvolvimento iminente equivale a dois anos, ou seja, as funções, que na criança de 5 anos, encontram-se em fase embrionária, amadurecem aos 7 anos. Uma criança de sete anos possui uma zona de desenvolvimento iminente inferior. Dessa forma, uma ou outra grandeza da zona de desenvolvimento iminente é própria de etapas diferentes do desenvolvimento da. criança. (Vigotsky, 2004, 485 apud Prestes (2010, p.174-175))

Benzer Belgeler