A geometria descritiva é, muito resumidamente, a disciplina que investiga e fornece as bases para a sistematização dos diversos métodos de representação rigorosa em linguagem visual normalizada.
É grande o número de ramificações e saberes abrangidos por esta ciência, e as suas
aplicações técnicas e industriais são inúmeras. Enquanto ciência pura, podemos entendê-la como um jogo, com as suas regras muito próprias.
Os elementos deste jogo são os pontos, as retas e os planos, que apesar de abstratos, são definidos de um modo rigorosíssimo. Se desconhecermos as suas definições não
conseguimos entrar no jogo, pois não saberemos como jogá-lo. O objetivo do nosso jogo é o de descrever, representar de forma rigorosa, clara e universal qualquer tipo de imagem, objeto, construção ou espaço. E esta opção não é arbitrária, é baseada nas necessidades daqueles que profissionalmente vão ter que lidar com o mundo do desenho técnico, e da representação visual convencionada.
São vastos os conteúdos da geometria descritiva, de modo que desde o início dos cursos da ESAD tivemos que fazer opções pelos que apresentam maior aplicabilidade e pertinência no âmbito da formação dos estudantes em design, em artes digitais e multimédia ou em joalharia. Da análise ao problema, e já que se trata de dar formação a estudantes enquadráveis numa vasta área que podemos denominar por área das artes visuais, decidimos que os critérios de seleção fundamentais para a hierarquização dos conteúdos- base deveriam ser obviamente o seu interesse no contexto do curso, e o poder
comunicativo das suas imagens.
Como poder comunicativo, referimo-nos ao impacto visual de certas imagens, à sua capacidade para descrever e ainda ao seu aspeto estético, ou seja, à facilidade de explicar aliada à agradabilidade da imagem. Da nossa experiência docente, das muitas
representações efetuadas ao longo de 24 anos, facilmente concluímos que as
representações em perspetiva axonométrica, são aquelas que, neste contexto de escola, possuem o mais elevado grau de poder comunicativo, pois são de fácil compreensão e oferecem ao leitor uma visão muito próxima da realidade do modelo representado, acrescentando a isso uma enorme facilidade no entendimento das suas medidas.
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Por estas razões este conteúdo sempre foi o mais divulgado, aplicado e aprofundado. Foram executadas uma enorme variedade de representações, desde as mais simples às mais complexas em todos os tipos de perspetiva axonométrica ou perspetiva cilíndrica.
A perspetiva cónica linear é também um método com um grande poder comunicativo, mas se por um lado a sua utilização permite um naturalismo ainda mais acentuado na
representação obtida, por outro lado não permite uma perceção tão evidente e direta das medidas reais do modelo representado. A deformação ótica funciona em dois sentidos opostos, acrescenta realismo à representação, mas dificulta a compreensão imediata das dimensões. A perspetiva cónica nunca teve nesta unidade curricular o mesmo peso da perspetiva cilíndrica, mas foi sempre estudada. A sua aplicabilidade está contudo restrita a um determinado tipo de exercícios mais específicos em que a visão espacial ou panorâmica deve ser privilegiada, é um conteúdo cujo interesse e aplicabilidade nas disciplinas de desenho e de sketching é sem dúvida relevante.
Se na perspetiva cónica, o tipo de imagem obtido apesar de ser facilmente entendível pela sua qualidade realística, não nos permite obter de modo simples e direto as medidas do objeto, pelo contrário, nos métodos de projeção ortográfica, cujas imagens são de caraterísticas mais abstratas, as medidas do objeto representado são de acesso simples e direto.
Os chamados métodos de projeção ortográfica, ou métodos de projeção ortogonal por vistas, mono, dupla, tripla, e sêxtupla projeção ortogonal, situam-se nos antípodas da perspetiva cónica linear, visto que, a experiência assim o indica, mesmo pessoas iniciadas na matéria e até habituadas a lidar com este tipo de representações têm por vezes algumas dificuldades em compreendê-las quando a complexidade do objeto representado é de um nível elevado.
O poder comunicativo das representações nestes métodos de projeção ortográfica não é muito evidente, e por vezes é praticamente nulo, quando o recetor da mensagem gráfica não tem a capacidade para a decifrar completamente. Ou seja, para algumas pessoas com maior dificuldade em visualizar, as representações por vistas são autênticos enigmas. Por estas razões a nossa opção foi sempre a de usar estes métodos de projeção ortogonal, não tanto para explicar o objeto na sua existência tridimensional, mas antes para fornecer, através das suas vistas, as suas dimensões reais. São excelentes métodos quando o objetivo é obter representações adequadas à cotagem de peças.
O sistema de projeção cilíndrica é o que na prática melhor se adequa à explicação de uma qualquer peça quanto à sua forma e medidas, quando na sua representação são usados de modo combinado uma perspetiva cilíndrica e um dos métodos de projeção ortográfica. Quanto ao sistema de projeção cónica, nesta unidade curricular limitamo-nos ao estudo da perspetiva linear. Esta técnica pode e deve cumprir outras funções, revelando-se de facto mais adequada para ajudar a compreender e a representar espaços e objetos com
fiabilidade e realismo fotográfico, num processo estruturante lógico e coerente. A sua aplicabilidade, quando é necessário esquissar, é inquestionável porque esquissar em particular e desenhar em geral é, ou deveria ser, a linguagem por excelência numa escola de artes e design, e pensando bem, não é possível desenhar objetivamente se não se compreenderem as regras da perspetiva linear.
Quanto ao grupo denominado por métodos auxiliares, é óbvio que, pela sua utilização generalizada, as matérias relativas a cortes, secções e perspetiva explodidas, foram sempre por regra as mais estudadas. Rotações,planificações, intersecções, reflexos e sombras, podem, aparentemente, não ter o mesmo interesse imediato visto que na prática não têm a mesma importância, contudo, quando o seu estudo foi introduzido, teve uma influência positiva no que diz respeito à desenvoltura na representação rigorosa, à capacidade de entendimento formal, à capacidade de cálculo, à imaginação, etc.
Assim concluímos esta lista de conteúdos, que julgamos estar ajustada a uma gestão criteriosa dos tempos de formação em contacto ou autónomos previstas para um ano letivo, e que pode vir a ser de relevante utilidade na prática projectual. Essa seleção implicou a exclusão de alguns conteúdos aos quais nos referiremos na devida altura.
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