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3.4. ARAŞTIRMA BULGULARI VE YORUMLARI

3.4.2. Arizona Eyaleti Belediyeleri Örneği

DIREITOS

Os registros (orais e escritos) da nossa história atestam que, até o início da década de 1990, as circunstâncias vividas pela comunidade quilombola de Conceição das Crioulas faziam com que a luta pela permanência nos poucos espaços que ainda lhes pertenciam e/ou para reconquistar aqueles que haviam sido invadidos enfrentasse potentes obstáculos. A seu favor, os invasores tinham o coronelismo, a política local, os donos de cartórios, a colonização das mentes de algumas pessoas e a ausência de legislação favorável aos que haviam perdido ou que estavam prestes a perder suas terras.

Resultado da organização política e da resistência quilombola, conseguimos avançar bastante, principalmente no diz que respeito à tomada de consciência política de integrantes influentes da comunidade. Pessoas que antes se imaginavam inferiores ou que não percebiam a força da nossa organização passaram a acreditar e participar efetivamente da luta contra agentes e fatores causadores de opressão dentro e fora da comunidade.

Os avanços aos quais me refiro têm como base, mudanças ocorridas na conjuntura política nacional no período de 2003 a 2015 com a chegada do PT no governo federal e, em nível local, uma parceria frutífera com o governo municipal no período de 1992-1996 e de 2000 a 2016. Mesmo com as tensões próprias do processo de afirmação de direitos e disputa de poder, a comunidade conseguiu caminhar de forma mais estruturada, uma vez que o diálogo sempre fez parte dessa construção; ainda que em muitas horas esse diálogo fosse bastante tenso, prevalecia o respeito às opções da comunidade.

As conquistas obtidas nesse período tanto no campo da legislação quanto no desenvolvimento de políticas de redistribuição de renda direcionadas aos mais pobres despertaram nas populações marginalizadas a esperança de uma sociedade menos desigual. E, que os usurpadores dos direitos do povo e mantenedores das injustiças sociais, finalmente, seriam vencidos. Entretanto, estes que sempre ignoraram a democracia brasileira e defendem que o Brasil seja um país marcado pelas desigualdades sociais se reinventaram e novamente assumiram de forma violenta, os destinos da nação. Dadas às condições necessárias, esses reestruturam todo o sistema político de forma que conseguem apagar, violentamente, muito do que foi conquistado pelo povo brasileiro, após séculos de lutas e resistência. E assim sendo, os reflexos dessas posturas são mais visíveis nos municípios brasileiros. Em Salgueiro/PE é bem acentuado, como podemos observar no atual momento, há sem dúvida, uma retomada da força dos fazendeiros locais, que também dominam diversos espaços de poder, seja no legislativo ou no executivo.

A indiferença do grupo de homens brancos que domina o nosso país, no que diz respeito às expressões de repúdio da sociedade brasileira aos desmanches de conquistas históricas de estruturas políticas importantes para as classes desfavorecidas, demonstra que estamos vivendo uma versão piorada do histórico de negação de direitos e de coisificação da população pobre, que também é majoritariamente negra.

Não podemos deixar de registrar o nosso posicionamento, no que diz respeito ao momento político que atravessa o Brasil. Entendemos que o disfarce de comprometimento com/por uma sociedade democrática, até então, ostentado por muitos/as, vem perdendo suas bases de sustentação. Para esse entendimento tomamos como referência as oposições ao projeto que se fundamenta em pautas e temas que ao longo da história do nosso país foram mantidos alheios ao mundo da política. A nosso ver, o fato de um projeto que tem como princípio incluir segmentos da sociedade mantidos às margens desde o início da História do Brasil ser eleito, consecutivamente quatro vezes, contribuiu para a efervescência da intolerância racial, de gêneros, de classes, regional e religiosa.

Com isso não estamos atribuindo a exclusividade do caos instaurado no nosso país ao contexto mencionado. Nossas ponderações têm como base os procedimentos adotados a partir de 2003 frente às iniciativas voltadas para mudanças nas estruturas sociais e políticas, que culminaram com o impeachment da

presidente Dilma Rousseff, para o qual, o fundamento jurídico, que seria o crime de responsabilidade fiscal, não foi comprovado. Este fato nos leva a considerar que o Brasil passou a ser assumido por um governo ilegítimo.

É importante frisar que os acontecimentos no âmbito da política nacional têm fortes repercussões no plano político local. Em Salgueiro/PE, o governo atual, que pertence ao PMDB/DEM17, mesma base aliada do governo federal que substituiu o governo da presidente eleita pelo voto popular, ao assumir o poder, seguiu a mesma lógica adotada pelo governo federal. Portanto, o desmanche das conquistas dos/as salgueirenses segue em ritmo implacável.

Esse é, portanto, um tema que interfere diretamente em nossas lutas, principalmente nas questões relativas às conquistas históricas dos povos e comunidades tradicionais. No entanto, nesse trabalho não enfocaremos esse debate, visto que o foco desta pesquisa é observar como a política de nucleação escolar afeta os direitos e nega a cultura e a educação escolar quilombola.

Contrariando os interesses dos poderosos, na história recente, temos conseguido mudanças importantes, causadas principalmente, pelo aumento da escolarização, aliado a investimentos na formação política da comunidade. Com isso, temos conseguido abalar, significativamente, a legitimidade de muitos dos fatores que enfraquecem a nossa luta, e, consequentemente obtido conquistas valiosas.

A realidade de vida do nosso povo tem sido alterada gradativamente a partir do momento em que a Educação Escolar começou a ser pensada e assumida por educadores/lideranças da comunidade. Portanto, o marco inicial desse processo de fortalecimento da nossa luta é a implantação dos anos finais do Ensino Fundamental com a construção da Escola Municipal Quilombola Professor José Mendes no ano de 1995, conjugada com a elaboração coletiva do PPPTQ (Projeto Político Pedagógico do Território Quilombola) de Conceição das Crioulas.

Os acontecimentos acima mencionados provocaram na população quilombola de Conceição das Crioulas a certeza de que a história da comunidade poderia ser reconstruída e contada a partir dos conhecimentos que resistiam há séculos de ocultação e subjugação dos valores e da cultura dos nossos ancestrais. E que esses

17 A definição de governo ilegítimo baseia-se no fato de o governo do Brasil atual não ter sido eleito

como manda a Constituição Federal de 1988 e sim ser caracterizado como um governo fruto de um golpe parlamentar.

conhecimentos ocultados, subjugados não seriam encontrados, senão, na memória das pessoas mais velhas. A partir dessa percepção, somamos aos nossos objetivos: buscar, registrar e tornar visível o histórico de resistência, a perseverança e a sabedoria do nosso povo, que é, para nós, o que há de mais valioso para as nossas lutas.

Foi esse contexto que nos fez compreender que a negação da nossa história e da nossa cultura faz parte das estratégias utilizadas pelos colonizadores para provocar sentimentos de inferioridade e de incapacidade no nosso povo. Com base nesse entendimento, surgem diferentes questionamentos a respeito da educação escolar na comunidade relacionados aos materiais didáticos utilizados nas nossas escolas, aos componentes curriculares a serem estudados, às metodologias utilizadas, à rotatividade de professores/as devido ao fato de não pertencerem à nossa comunidade, entre outros.

Esses questionamentos provocaram sérias mudanças referentes ao futuro almejado pela comunidade de Conceição das Crioulas e fez despertar a crença de que a educação escolar seria o principal caminho para essas transformações. Para marcar o começo dessas mudanças partimos pela escolha do nome da escola, recém conquistada. Até então, as escolas do território recebiam nomes de fazendeiros ou de santos referendados pela Igreja Católica.

No ano de 1994/1995, depois de um conjunto de mudanças, a comunidade quilombola de Conceição das Crioulas viu de perto a possibilidade de concretizar o sonho de ter os anos finais do Ensino Fundamental. Pela primeira vez a comunidade pode decidir quem seriam os homenageados (patronos e patronesses) através do nome da escola, que perfil de professores se defendia e que currículo deveria ser vivenciado, etc. Após um amplo processo de pesquisa, a maioria decidiu que a referida escola receberia o nome de um educador negro da comunidade - o professor José Mendes18 - que apesar de não ter tido acesso a educação formal, conseguiu alfabetizar muitas pessoas na região.

18 José Mendes se tornou um professor bastante considerado pelo nosso povo por ser um bom

alfabetizador. Entre as pessoas mais velhas da comunidade há memórias referentes à forma como ele alfabetizava e também a como ele desenvolvia e utilizava estratégias metodológicas voltadas para a defesa do território de Conceição das Crioulas. (Fonte: História oral da comunidade)

Outra mudança importante foi a forma de nomeação da primeira diretora da escola. Essa, por sua vez, foi também a primeira professora negra quilombola19, da nossa região a ingressar numa faculdade, no curso de Letras, curso esse, historicamente, restrito à elite. Essa prática tomou corpo e valeu para a Biblioteca, espaços comunitários e para escola estadual quilombola do ensino médio que ganhou o nome de Escola Estadual Quilombola Professora Rosa Doralina. Rosa Doralina foi uma professora quilombola que perdemos em um trágico acidente em 2010.

Os dois primeiros anos de funcionamento da Escola Municipal José Mendes teve uma gestão marcada pela intensa participação da comunidade, pelo desejo de mudanças e pelo fortalecimento da crença de que a educação escolar poderia ser transformada em instrumento para o fortalecimento das nossas lutas.

Esse movimento marca, portanto, o início da luta da comunidade por uma educação específica, diferenciada e intercultural. A seleção e elaboração de materiais didáticos pela própria comunidade, as formações e os projetos construídos e vivenciados coletivamente pelos professoras/es e lideranças das escolas e dos núcleos comunitários do territórios, foram os principais motivos para a elaboração do diagnóstico20 construído na/pela comunidade, com o objetivo de delinear uma proposta de educação escolar para o nosso quilombo que fosse condizente com as nossas espirações.

Após dois anos de funcionamento, muda-se a gestão municipal, e consequentemente o projeto de educação escolar quilombola da nossa comunidade foi interrompido. A efervescência das discussões referentes à proposta de mudanças na educação escolar não agradavam à nova gestão do município. Por isso, durante quatro anos, no período de 1997 a 2000 fomos afastados das instituições públicas de ensino de Conceição das Crioulas. Porém, continuamos fortalecendo as nossas organizações internas, construindo parcerias externas importantes para os nossos

19 A primeira diretora da escola Professor José Mendes, chama-se Givânia Maria da Silva. Ela,

também foi a primeira professora negra quilombola da nossa região a ingressar numa faculdade. Enquanto estudante da FACHUSC (Faculdade de Ciências Humanas do Sertão Central) procurou dar visibilidade à causa e ao movimento quilombola; compartilhou e divulgou a experiências de educação vivenciada na comunidade de Conceição das Crioulas e teve expressiva atuação no movimento estudantil, integrando-se ao Diretório Acadêmico (DA) da referida faculdade.

20 Diagnóstico. Conjunto de dados obtidos através de pesquisa realizada na/pela comunidade de

projetos e buscando a todo custo, suprir as lacunas existentes na comunidade, estas causadas pela negação histórica do direito de estudar, vivenciada pelo nosso povo.

O fato de sermos afastados forçadamente das nossas escolas fez intensificar as nossas inquietações e aumentar a necessidade de compreendermos a importância e a intencionalidade do projeto político pedagógico, motivo de violentas disputas. As circunstâncias da ocasião também nos proporcionaram o entendimento de que práticas e atitudes reincidentes nas instituições de ensino da nossa comunidade, ora refutadas pelas organizações sociais de Conceição das Crioulas, no âmbito geral da educação, continuam seguindo o ritmo da normalidade. E que, essas práticas e atitudes representam um pensamento de base colonial, que lamentavelmente, ainda se mantêm enquanto hegemônico.

Esse pensamento se materializa através de um modelo de educação, que se aplica a um projeto de sociedade estruturado em padrões consoantes com o que anuncia Walsh (2009):

A suposta superioridade “natural” se expressou, como diz Quijano, “em uma operação mental de fundamental importância para todo o padrão de poder mundial, principalmente com respeito às relações intersubjetivas”. Assim, as categorias binárias, oriente-ocidente, primitivo-civilizado, irracional- racional, mágico/mítico-científico e tradicional- moderno justificam a superioridade e a inferioridade – razão e não razão, humanização e desumanização (colonialidade do ser) – e pressupõem o eurocentrismo como perspectiva hegemônica (colonialidade do saber) [...] o valor humano destes seres, pessoas que, por sua cor e suas raízes ancestrais, ficam claramente “marcadas”, ao que Maldonado-Torres (2007a, p. 133, 144) se refere como “a desumanização racial da modernidade [...], a falta de humanidade nos sujeitos colonizados”, que os distanciam da modernidade, da razão e das faculdades cognitivas (WALSH, 2009, p. 4-5).

Com o propósito de nos contrapor ao modelo acima apresentado e com o entendimento, de que, para tanto, o caminho mais viável seria conhecer por dentro, as estruturas educacionais, nos sentimos estimuladas/os a fazer com que, quatro anos depois, quando reassumimos as nossas escolas, já contássemos, com um número bastante representativo de profissionais da própria comunidade. Alguns destes já efetivos no sistema de ensino do município e cursando o Ensino Superior. Outros/as, na maioria, integrantes do movimento quilombola, que, ao serem aprovados em vestibulares, foram recebidos pela comunidade nas escolas e assumiram-se, também, professores/as.

Esses foram os nossos primeiros passos destinados para romper com o modelo de educação colonial, que segundo (WALSH, 2009, p.29), “busca manter a dominação e desumanização”. São, portanto, as nossas bases para o processo de

ressignificação da nossa história, da nossa cultura, do ser quilombola, do ser professor/a quilombola de Conceição das Crioulas. São esses princípios que nos encorajam na luta e que, apesar dos obstáculos impostos pela classe dominante e de muitas vezes resultarem em retrocessos, persistimos na defesa dos direitos conquistados.

Entre as mais expressivas conquistas podemos citar: (a) o reconhecimento da modalidade educação escolar quilombola ocorrido em 2010, na CONAE (Conferência Nacional de Educação), incluindo a criação do cargo de professor quilombola e a realização de dois concursos específicos; (b) a implantação dos anos finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio na comunidade; (c) a considerável redução do analfabetismo; (d) o quadro de profissionais da educação, constituído integralmente por quem vive no território; (e) a construção coletiva e implementação do PPPTQ; (f) a desapropriação de cerca de 60% do território que se encontrava sob o domínio de fazendeiros e (g) a elaboração de uma proposta de ensino a ser vivenciada nas escolas quilombolas do nosso território, por nós denominada pedagogia crioula.