Os ambientes midiáticos investigados em perspectiva ecológica – Pandora, LastFM, Deezer, Spotify e Google Play Music – são observados como redes de mediações híbridas que operam conforme as operações semióticas de determinação e representação, simultaneamente em referência a um padrão normativo de hábitos de ação, verificáveis nas affordances, e conforme um propósito transformador, relacionados à agência dos Selves híbridos em cada ambiente midiático.
A operação semiótica de determinação condiciona a constituição do padrão normativo baseado na combinação do streaming, compartilhamento e recomendação em arquiteturas multiplataforma, que caracteriza a lógica de comunicação na ecologia midiática porque é reconhecível de um ambiente midiático a outro, ao passo que a operação semiótica de representação direciona o aprimoramento lógico desse processo comunicacional em especificações das mediações híbridas em cada ambiente midiático, observáveis em associações sígnicas variadas.
Cada ambiente midiático, de forma particular, representa as funções comuns a todos, atribuindo-lhes distribuições de affordances que geram, em processos comunicacionais variados, Selves diversificados na ecologia de streaming de músicas. A determinação da lógica de comunicação observável na circulação de músicas na ecologia
midiática investigada é refletida pela configuração comum dos ambientes, mas a experiência da ambiência e as relações de proatividade, responsividade e serendipidade são diferentes em cada um deles.
Assim, propõe-se observar a agência dos Selves sob o domínio da representação conforme pensamento peirceano, para o qual o interpretante é da ordem da Terceiridade, fonte lógica da continuidade, crescimento e infinitude, e tem caráter de lei, regra ou hábito. Como a semiose é ação sígnica numa organização lógica triádica, o interpretante situa-se entre antecedentes sígnicos potencialmente infinitos e uma potencialidade infinita de consequentes sígnicos. Opera, dessa forma, como regra geral para a passagem de uma instância sígnica a outra, denominada por Peirce (apud SANTAELLA, 2008) princípio condutor, princípio-guia, regra de inferência ou regra de transformação ilativa.
Desse modo, o interpretante situa-se entre um signo antecedente e o objeto que lhes é comum e uma tríade sígnica posterior, a qual será configurada por associação a outros signos que serão adicionados pela ação mediadora do interpretante ao objeto de referência (experiência colateral). A ação mediadora do interpretante deflagra, portanto, a expansão da rede sígnica ou semiose. É com base nessa concepção de rede que compreendemos a ecologia midiática em estudo. De acordo com Santaella (2008, p. 65):
O interpretante é uma propriedade objetiva que o signo possui em si mesmo, haja um ato interpretativo particular que o atualize ou não; é uma criatura do signo que não depende estritamente do modo como uma mente subjetiva singular possa vir a compreendê-lo. Ele não é ainda um produto de uma pluralidade de atos interpretativos, ou melhor, não é uma generalização de ocorrências empíricas de interpretação, mas um conteúdo objetivo do signo. O devir do interpretante é, pois, um efeito do signo como tal, e, portanto, depende do ser do signo e não apenas e exclusivamente de um ato de interpretação subjetivo. (SANTAELLA, 2008, p. 65)
Conforme Santaella (2008), a primeira tricotomia de interpretantes criada por Peirce data de 1867 e baseia-se na distinção entre essencial; informada e substancial extensão (breadth); e profundidade e compreensão (depht). Essa divisão relaciona-se ao aspecto do interpretante que permite medir a quantidade de informação de um símbolo num dado estado do conhecimento e também o aspecto relacionado ao seu potencial de crescimento. A segunda tricotomia dos interpretantes, de acordo com Santaella (2008), originou-se por volta de 1904 e se baseia na fenomenologia ou na teoria das categorias.
Corresponde à divisão do interpretante em: 1) Interpretante Imediato (Primeiridade); 2) Interpretante Dinâmico (Secundidade); e Interpretante Final (Terceiridade).
Essa segunda tricotomia de interpretantes refere-se aos efeitos produzidos pelos signos nas mentes dos intérpretes, sendo esses efeitos da ordem do sentimento (Primeiridade), do esforço (Secundidade) e do pensamento (Terceiridade), o que se traduz respectivamente em Interpretante Emocional, Interpretante Energético e Interpretante Lógico. Há, além dessas subdivisões, outra que se refere ao interpretante tal como inserido no signo (Interpretante Imediato); ao efeito particular que fará a mediação com a tríade sígnica subsequente (Interpretante Dinâmico); e a um propósito ideal de transformação sígnica aprimorada, uma espécie de devir (Interpretante Final).
De acordo com Santaella (2004), quando Peirce relacionou o papel do interpretante lógico ao hábito e do interpretante final à mudança de hábito, ele situou pragmaticamente o processo da semiose, evidenciando, assim, o caráter evolucionista de sua concepção semiósica. A citação abaixo revela com clareza a relação mencionada sob o prisma semiósico das tríades de interpretantes:
O interpretante imediato é primeiridade; é o potencial inscrito no próprio signo para significar. Por isso mesmo, esse interpretante é interior ao signo; ele pertence objetivamente ao signo e independe do encontro do signo com qualquer intérprete, quando este colocará pelo menos uma parte desse potencial em ação. O interpretante dinâmico é secundidade; é o interpretante efetivamente produzido. É, portanto, o fato empírico e psicológico, no caso do intérprete humano, da interpretação, correspondendo aos resultados factuais do entendimento do signo. Quando o signo atinge um intérprete qualquer, produz-se na mente desse intérprete um efeito. Não importa de que ordem seja esse efeito, ele é outro signo ou quase-signo que, não obstante tenha uma natureza mental, acaba por encontrar um caminho de projeção em um signo externo. O interpretante final ou interpretante normal, ou ainda, interpretante em si, é uma tendência, um limite último, pensável, mas não concretamente atingível, de realização da interpretabilidade do signo, inscrita no interpretante imediato. Essa interpretabilidade vai se realizando empiricamente por meio dos interpretantes dinâmicos, que são atualizações mais ou menos adequadas dessa interpretabilidade. Se fosse possível atingir o limite último de tal interpretabilidade, o interpretante final estaria plenamente realizado. Como isso é impossível, pois nunca estamos em condições de dizer que tal ou qual interpretante dinâmico é o interpretante final de um dado signo, quaisquer interpretantes dinâmicos estão sempre a meio caminho do interpretante final, que é, portanto, um limiar sempre em devir. (SANTAELLA, 2004, p. 78)
Segundo Santaella (2004), foi com o propósito de compreender a plasticidade da mente humana na aquisição de novos hábitos que Peirce se voltou para a tentativa de caracterização de um interpretante lógico último. De acordo com Santaella (2004), o interpretante lógico último, concebido como mudança de hábito, possibilitou a integração entre a teoria dos signos e a natureza evolutiva do pragmatismo. Conforme a autora, o hábito é um princípio-guia que funciona como orientação, garantindo, assim, a continuidade aprimorada da ação sígnica.
Além dessas tricotomias, Peirce trabalhou em uma divisão especificamente comunicacional dos Interpretantes: 1) Interpretante Intencional, que se constitui como determinação da mente do emissor; 2) Interpretante Eficiente, relacionado à determinação da mente do intérprete; e 3) Interpretante Comunicacional ou Cominterpretant, relacionado à determinação da mente denominada por Peirce (apud SANTAELLA, 2008) como Comens. Essa se caracteriza como uma “[...] mente na qual as mentes do emissor e do intérprete têm de se fundir a fim de que qualquer comunicação possa ocorrer [...]” (SANTAELLA, 2008, p. 68). Esses interpretantes serão considerados em nossa abordagem para observar as dinâmicas de emergência dos Selves, como será apresentado adiante.
Com base no conceito de interpretante na teoria peirceana e na operação semiótica de representação que lhe é correlata, busca-se investigar o imbricamento lógico entre as redes de mediação híbridas que se tecem semiosicamente na ecologia midiática de streaming. A questão será observada em instâncias sígnicas relacionadas às funções comunicacionais de circulação de músicas nos ambientes midiáticos, nas affordances correlacionadas e na emergência dos Selves.
As ações comunicacionais possíveis em cada ambiente midiático revelam o delineamento lógico das mediações híbridas por meio das quais as práticas musicais têm lugar. Interessa-nos compreender os modos de circulação da música na ecologia de streaming como uma lógica comunicacional, conforme pressupostos da semiose peirceana. Para isso, propõe-se seguir o percurso lógico das ações observáveis a partir da distribuição das affordances nos ambientes midiáticos investigados, conforme FIG. 19.
FIGURA 19 – Funções de circulação e affordances na ecologia midiática de streaming Acessar o ambiente de streaming
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Fonte: Imagem criada pela autora.
Essas funções, disponíveis nos ambientes midiáticos investigados, operam semioticamente por meio de affordances distribuídas. Como processo semiósico, tais relações se desdobram continuamente em ações que constituem diferentes dinâmicas comunicacionais na ecologia midiática de streaming.
As consequências das variadas ações híbridas nos ambientes midiáticos investigados revelam a variedade de gradações das mediações híbridas em curso. Para compreender tais matizes da mediação híbrida, recorre-se às classes de signo, tal como proposto por Peirce. A este estudo interessa especificamente a chamada “segunda tricotomia”, relativa às relações que o signo estabelece com seu objeto, porque essa tricotomia se ancora na operação semiótica de determinação, a qual, como dito, opera produzindo padrões normativos recorrentes na ecologia midiática de streaming.
FIGURA 20 – Operação semiótica de determinação: signo em relação ao seu objeto dinâmico
Primeiridade Secundidade Terceiridade
Signo em si mesmo Signo em relação a seu objeto dinâmico
Signo em relação a seu interpretante
1º Quali-signo Ícone Rema
2º Sin-signo Índice Dicente
3º Legi-signo Símbolo Argumento
Fonte: Imagem criada pela autora.
Com base nessa relação sígnica, considera-se que as affordances operam semioticamente como índices que vão sendo empiricamente atualizados à medida que os usuários percebem (Interpretante Dinâmico) as affordances e as utilizam. A face objetiva da affordance revela-se de acordo com as funções comunicacionais que o ambiente oferece, como compartilhar uma música, por exemplo, a qual pode permanecer inutilizada caso a conexão entre a percepção da affordance e o seu uso não ocorra.
Quando o uso das funções mediadas pelas affordances se torna habitual, evidencia-se a dinâmica da Terceiridade a partir da efetivação do processo comunicacional, observável no modo pelo qual o sistema registra os usos sociais das affordances e são gerados hábitos nas práticas musicais da ecologia.
A dinâmica comunicacional se complementa na operação semiótica de representação, aqui observada pelo viés do Self. Para elucidar a dinâmica comunicacional do Self, utilizamos os interpretantes comunicacionais peirceanos, com o intuito de evidenciar relações nas quais a terceira mente configura-se com base na conjugação das mentes dos usuários e dos sistemas, que operam como interpretantes intencionais e eficientes, a depender da função de circulação de músicas e suas affordances.
Isso ocorre porque quando a representação da função comunicacional pela affordance conduz ao uso, os hábitos constituídos na ecologia midiática desdobram-se em dinâmicas orientadas por propósitos de aprimoramento (Terceiridade). As affordances operam como causação eficiente (Secundidade), conectando os sistemas e seus usuários por meio de um código comum e delineando a relação de ambiência midiática. A instância de Terceiridade, como causação final, direciona o curso semiósico desse processo por meio do aprimoramento lógico da affordance, ampliando a bidirecionalidade no agenciamento humano-maquínico e personificando o sistema inferido como Self pelo usuário, e vice-versa.
FIGURA 21 – Classes sígnicas de análise: Selves no processo semiósico
Fonte: Imagem criada pela autora.
Com base nesse percurso analítico, os percursos das affordances distribuídas serão observados nos ambientes midiáticos Pandora, LastFM, Deezer, Spotify e Google Play Music, tendo em vista o padrão normativo de circulação da música na ecologia investigada, criado a partir de Pandora e LastFM e reproduzido pelos demais ambientes, e o propósito transformador relacionado aos Selves híbridos. Os capítulos posteriores sintetizam os resultados da análise conforme os procedimentos metodológicos que serão detalhados a seguir.
Primeiridade Secundidade Terceiridade
Mente do emissor Interpretante Intencional
Mente do intérprete Interpretante Eficiente
Terceira mente – Comens Interpretante Comunicacional Mentes dos usuários e
dos sistemas, que se alternam como emissores e intérpretes
Mentes dos usuários e dos sistemas, que se
alternam como emissores e intérpretes
“One chord is fine. Two chords are pushing it. Three chords and you’re into jazz”.
5. PADRÕES NORMATIVOS DA MEDIAÇÃO HÍBRIDA SOB