As relações da COPAF com o Estado apresentaram influências distintas em relação ao fenômeno do empreendedorismo social. Diferentemente do que ocorreu em Pombal, Lagoa de Roça apresentou uma realidade em que agentes municipais atuaram negativamente, buscando atender interesses que desvirtuavam o real intuito da associação, pois, segundo relatos, a associação era mecanismo de manobra para manipulação de votos.
O que eles queriam mesmo era prejudicar nossa cooperativa, quem já se viu doar um terreno que foi um lixão? Mas acabou sendo aquela história do limão né? Deram um
limão pra gente e a gente fez uma limonada (risos). Dona Nazaré ficou aperreada, mas ela não esmoreceu não, foi a luta junto com a gente, quando a gente tirou a sujeira que tinha, o terreno parecia um açude seco, uma vala enorme de grande, pense numa fundura (risos). Mas foi até bom, porque a sujeira do abatedouro fica todinha embaixo lá, no subsolo. (José, avicultor).
É bem verdade que a prefeitura doou o terreno, mas o que eles queriam mesmo é que o abatedouro não fosse pra Esperança, porque lá também tinha um terreno pra ser doado. Eu acho que eles queriam que o abatedouro ficasse na cidade pra se valerem dele nas campanhas políticas. (Volney, avicultor).
Isso não quer dizer que a atuação do governo do Estado, em outra mão, tenha sido isenta de interesses pessoais, entretanto, houve sensibilidade em relação a uma causa coletiva, o que não pôde ser vislumbrado na relação com o governo municipal a partir dos relatos. Apesar de o município ter ajudado com a doação do terreno para a cooperativa, este possuía um grande complicador: o fato de ter sido outrora um lixão, o qual foi omitido pelo poder público local, intencionalmente ou não.
As ações aparentes e não aparentes indicam que as relações de poder também são fatores que devem ser considerados nas interações com o Estado. Os significados aparentes, não aparentes e outros mais difusos acabam por agir sobre essas relações com a cooperativa, fortalecendo ou minando laços com entidades públicas. A ação da doação do terreno em Lagoa de Roça faz resgatar temas ligados ao poder.
Há diversas formas de se estudar o poder. Dependendo da lente que se use para analisá-lo, seu estudo poderá abordar aspectos constitutivos do fenômeno: suas manifestações aparentes, seus aspectos ocultados, seu caráter individual, abstrato ou mesmo advindo de uma coletividade. Pfeffer (1994) estuda o poder sobre uma perspectiva organizacional, de interação entre seus atores, por meio de rupturas com as normas por meio do comportamento e das ações visíveis. Já Bourdieu (2000) estuda o fenômeno sob uma lente bidimensional, analisando o poder não aparente, aquele que está oculto por trás dos símbolos de sua manifestação.
Para Castells (2008), o poder da identidade também leva os sujeitos à mobilização em prol de um bem coletivo. No caso em análise nesta pesquisa, vivia-se um conflito aparente, despertado pela divergência de interesses quanto à escolha do terreno. Apesar de não apoiar a cooperativa, a prefeitura não queria perder meios de produção para outra cidade. Logo, sua contraposição à organização levou à doação de um terreno inapropriado. Sua intenção não aparente provocou maior coesão do grupo, que, diante da dificuldade, mobilizou-se para superar as dificuldades.
A ação das lideranças direcionando as ações, o suporte de especialistas na área de produção e o envolvimento da comunidade transformaram o que foi uma dificuldade em laços ainda mais fortes. Desta forma, tem-se mais uma evidência do protagonismo de caráter coletivo do empreendedorismo social em Lagoa de Roça.
Melo Neto e Froes (2002) afirmam que o empreendedor social compartilha tecnologias produtivas, aprimora a sinergia de grupos produtivos e incentiva a participação da população. Neste caso dos cooperados, levando em consideração as interações no espaço comunitário e o desenvolvimento do seu papel na redução de situações de risco, acredita-se que eles representam um grande avanço no resgate da cidadania. Autores como Bronzo, Teodózio e Rocha (2012) acreditam que as empresas sociais representam um grande avanço no resgate da cidadania.
Sobre este aspecto, percebemos a importância da atuação da liderança comunitária junto ao governo Estadual para a obtenção de benefícios. Esta evidência leva a reflexões relevantes. De acordo com a Constituição, o poder público estadual tem o papel de preservar os princípios gerais que regem a constituição no contexto das cidades, oferecendo condições para a melhoria da qualidade de vida dos habitantes, ouvindo os anseios da comunidade, dentre outras funções. Ou seja, a cidadania também faz parte das preocupações dos governadores.
Diferentemente da comunidade de Várzea Comprida dos Oliveiras, onde foi percebida uma linha tênue entre o papel do prefeito e uma possível manobra política, em Lagoa de Roça, a COPAF não se deixa manobrar, defendendo sua causa independentemente de partido político e seguindo contra uma corrente cultural de compra de votos, resistindo e fomentando a consciência política dos sujeitos que fazem parte da cooperativa.
Assim como o empreendedorismo na zona rural de Pombal, onde há relevante participação de recursos de outras fontes para tal, em Lagoa de Roça, vivencia-se situação semelhante, somada ainda ao grande investimento com recursos próprios na produção. Logo,
no campo das relações com o Estado, não se percebe algo de “novo”, mas uma prática de
assistência à cooperativa. Isso não é demérito, mas necessita de uma maior reflexão sobre até que ponto os benefícios devem permanecer nas mesmas regiões.
Mais uma vez, o delineamento do fenômeno no campo investigado sinaliza que a tipologia adotada (empresa social) a qual mais se aproximou teoricamente à proposta de estudo não se adequa harmonicamente, sendo mister uma readequação dos termos ou das categorias investigadas de forma a evidenciar com maior fidedignidade como o empreendedorismo social se manifesta na comunidade. E aqui mais uma variável se torna
presente: as relações de poder com o estado, as características do poder aparente, não aparente e do poder difuso que se manifestaram a partir dos relatos dos entrevistados.
Quadro 15 - Síntese dos achados empíricos na categoria Relações com o Estado – contexto da COPAF, em São Sebastião de Lagoa de Roça
CATEGORIA INDICADORES PRINCIPAIS ACHADOS NAS NARRATIVAS
RELAÇÃO COM O ESTADO
Recursos recebidos
Projetos e recursos próprios, mas preponderantemente de outras entidades (Banco Mundial via Cooperar)
Suporte burocrático
Documentos da associação
Incentivos Benefícios para a comunidade
Participação nas políticas públicas
Reivindicações constantes junto ao governo do Estado
Relações de poder
Poder aparente – ajuda à COPAF
Poder não aparente – tentativa de boicote à cooperativa cedendo um lixão
Poder difuso – capacidade de coesão da comunidade para superar desafios
Fonte: Elaborado pelo autor (2017).
O próximo caso revela de modo semelhante as potencialidades do empreendedorismo social na comunidade de Bonito de Santa Fé. Nesta região, o fenômeno tem mobilizado ex- servidoras do município na formação de uma associação de coleta seletiva de lixo.
4.3 CONTEXTO E AÇÃO DA ASSOCIAÇÃO DOS CATADORES DE MATERIAL