5. TARTIŞMA
5.1. Ameliyat Öncesi Dönemde Uygulanan Gevşeme Egzersizlerinin
Assim como vimos no capítulo anterior, a SAEP passou a ter grande participação na obra educacional no Uruguai. José Pedro Varela, Carlos Maria Ramírez e os outros intelectuais continuaram a levar o projeto educacional, materializado pela criação de escolas e bibliotecas populares, em nome da SAEP para o interior do país. A atuação da SAEP estava inserida em um período caracterizado pelo governo de Plácido Ellauri137 que, assim como já pontuamos no capítulo 2, foi eleito no contexto de embates políticos entre os principistas – blancos e colorados dissidentes dos partidos tradicionais que, por sua vez, criaram outros grupos políticos – e os candomberos – representados pelos blancos e colorados tradicionais. Por isso, o período entre 1873 e 1875, no Uruguai, foi marcado, segundo José Pedro Barran (1990, p. 127) “[...] por um presidente sem respaldo político, nem força de caráter, e Câmaras que todo o obstruíam, acreditando ver no Poder Executivo – exercendo o cargo quem fosse – o despotismo”.
137 A fim de recordação, Plácido Ellauri derrotou José Maria Muñoz, que era apoiado pelos principistas. A
princípio, os colorados tradicionais apoiavam Thomás Gomensoro, mas, pelo fato de não desejarem a vitória de Muñoz, passaram a apoiar Plácido Ellauri, que foi eleito. Para mais informações sobre as questões políticas deste período, ver: BARRAN, 1990.
Conforme explicitava sua forma de agir, a SAEP proporcionou a reação de alguns setores da sociedade. Alguns meses após o bispo Jacinto Vera ter criticado o projeto educacional de Agustin de Vedia, o clérigo voltou a criticar as intenções reformistas educacionais no país. Sem citar nomes em sua crítica publicada em 19 de fevereiro de 1874, pelo diário El Ferrocarril, Vera criticou os movimentos em prol de uma reforma educacional, os quais seriam movidos pelos “[...] afãs dos filhos do erro por combater a Igreja Católica, mestra infalível da verdade” (EL FERROCARRIL, 1874 apud CAMARA DE REPRESENTANTES, 1990a, p. 433).
Ao rotular como “inimigos” todos aqueles que desempenhavam as mudanças em relação à educação no país, seja de forma discursiva ou pragmática, Vera argumentava que aqueles realizavam uma “propaganda do erro e da mentira” (EL FERROCARRIL, 1874 apud CAMARA DE REPRESENTANTES, 1990a, p. 434), além de “[...] introduzirem o veneno e a desmoralização no seio das famílias [...]”, que foram disseminados “pelo livro do mal, o periódico ímpio”, e que isto teria resultado em “amargos frutos” aos cidadãos uruguaios (EL FERROCARRIL, 1874 apud CAMARA DE REPRESENTANTES, 1990a, p. 435). Mas qual periódico seria este? Vera estaria se referindo ao jornal El Siglo, que publicava artigos de Varela e de outros intelectuais sobre a educação? Ou será que esta crítica se dirigia especificamente aos periódicos La Paz e La Revista Literaria, nos quais Varela teve considerável atuação por meio de publicações sobre este tema?
Em sua publicação, Vera criticou não somente os movimentos em relação à reforma educacional, mas também aos cristãos protestantes. No entanto, as maiores críticas se dirigiram aos primeiros, como podemos perceber no seguinte trecho:
Uma dolorosa experiência ensinou e está ensinando constantemente as sociedades europeias as desastrosas conseqüências de uma educação que não descanse na base sólida dos princípios religiosos. Pois, entre nós, também há [...] aqueles que se afanam por defender semelhante educação sem medir as consequências terríveis de tal ensino [...] Defende-se escolas chamadas populares das quais sistematicamente se exclui toda educação religiosa. Pode ver-se o estabelecimento de tais escolas sem lamentar desde já a desmoralização da família e da sociedade? Podem os católicos cooperarem de qualquer maneira que seja ao surgimento e sustentação da escola ateia? Sem faltar a um dos deveres mais sagrados da consciência, claro é que não pode o católico contribuir para tais obras (EL
FERROCARRIL, 1874 apud CAMARA DE REPRESENTANTES, 1990a,
p. 435, grifo do autor).
Como podemos perceber, o fato de que, para Vera e os representantes da Igreja, a ideia de “escola comum” ser sinônimo de “escola ateia” vem a corroborar a dicotomia
“escola comum”/“escola católica” anteriormente colocada em questão por meio da polêmica entre Vedia e Vera, realizada meses antes. Dessa vez, quem respondeu às críticas da Pastoral do Bispo Jacinto Vera foi José Pedro Varela, que, em nome das sociedades educacionais uruguaias, especialmente a SAEP, publicou sua resposta no diário La Democracia, no dia 1o de março de 1874, afirmando, entre outras coisas, que Vera estava enganado em pensar que o intuito era defender alguma religião específica ou algum tipo de partido político, mas sim defender a universalidade abordada por essas ideias educacionais, demonstrando que
As escolas que mantêm atualmente as sociedades populares educacionais estão abertas para todos; [...]. As comunidades religiosas e as escolas filosóficas que se organizaram para combater o catolicismo, aspiram segundo as palavras de S. S. a descatolizar o povo; nós aspiramos a educá- lo, não formando católicos ou protestantes ou racionalistas ou ateus, mas sim homens educados que seguirão o dogma que contém mais verdade sob os ditames de sua consciência. Nesse sentido nós rejeitamos toda solidariedade de causa e toda comunidade de meios com as sociedades religiosas [...] cabem bem em nossas escolas os filhos de católicos e de protestantes, de racionalistas e de ateus que querem salvar-se do abismo da ignorância e preparar sua inteligência para o áspero trabalho da vida [...] São correligionários das sociedades educacionais todos os amigos da educação, quaisquer que sejam suas opiniões religiosas; são seus adversários todos os que querem conservar o povo na ignorância, quaisquer que seja o dogma que professem (LA DEMOCRACIA, 1874 apud CAMARA DE REPRESENTANTES, 1990a, p. 440).
Em sua resposta, Varela fez questão de reiterar que o objetivo da escola comum não é privilegiar nenhum tipo de pensamento político, filosófico ou religioso, mas sim sempre reforçar que a intenção de se defender a reforma educacional consiste na instrução e educação do povo com o esforço de todos os setores sociais, mostrando que o “inimigo” será sempre aquele que não colaborar com essa ideia. Varela se utilizou do elemento retórico para afirmar que o “adversário” seria aquele que, independente da filiação ideológica que tenha adotado, não contribuísse para o esforço educacional, que não amenizaria e/ou eliminaria a “ignorância” e, consequentemente, conduziria à construção e ao processo de civilização da nação uruguaia.
Neste sentido, ao trazer à tona a possibilidade democrática que a escola representaria e os seus benefícios para a sociedade, a resposta que Varela deu acima teria complementado o pedido público feito por Carlos Maria Ramírez quando este solicitou o apoio de alguns grupos sociais à obra educacional por meio de seu discurso no Club Universitario, em 1868. Naquela oportunidade, Ramirez atribuiu a responsabilidade por um possível fracasso deste
projeto àqueles que, independentemente das crenças e valores que seguissem, não o adotassem ou não o concebessem como algo concreto. Em outras palavras, percebemos que pelo fato de, na concepção destes homens de letras, a educação do povo representar o elemento para a construção da nação, seriam “inimigos” nacionais aqueles que não contribuíssem para esta obra.