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O território nacional tem especial importância na Constituição brasileira de 1988, pois todo o texto constitucional é destinado à orientação da atuação estatal garantindo direitos e expressando deveres através de uma preocupação com a unidade e integridade territorial do país, ainda em uma perspectiva liberal, porém visivelmente importante do ponto de vista interpretativo para o Estado Democrático de Direito.

Observada através de lentes macroscópicas, a preocupação com a “questão nacional”

como é o caso da soberania nacional explicitada como fundamento de asseguração da Ordem econômica constitucional no art. 170 da Constituição Federal85, se expande para todas as

funções estatais, participando do universo principal de ações do Estado para garantir o desenvolvimento da nação.

Educação, saúde, tecnologia, emprego, renda, etc., são elementos que através da Constituição são vistos como primordiais para a garantia de uma estrutura de acesso ao desenvolvimento do país.

Dessa maneira, o desenvolvimento nacional como objetivo constitucional perpassa através da realização de ações de garantia de direitos fundamentais, perpetradas por uma organização institucional administrativa, que é o Estado, que atingiriam todo o universo do território nacional.

Assim, o âmbito nacional de atuação estatal recebe imensa importância na medida em que se demonstra como o principal espaço de atuação estatal continuada em sua busca pela melhoria da qualidade de vida da população que ali reside, tornando-se condição material para a produção e reprodução da sociedade em um caminho direcionado ao desenvolvimento86.

Espaço privilegiado pela Constituição Federal e principal arena de submissão a normas, regras e parâmetros que impelem um alinhamento de interesses políticos mínimos, o

85 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: Casa Civil, 2013. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em 31/06/2014.

86 STEINBERGER, Marília. A inseparabilidade entre Estado, políticas públicas e território. In: STEINBERGER, Marília (Org.). Território, Estado e políticas públicas espaciais. Brasília: Ed. LER, 2013. P.54.

âmbito nacional é visto como o ponto nuclear no qual interesses locais e internacionais passam a divergir, servindo de medida da balança para ambos87.

Acontece que o espaço nacional não se demonstra completamente suficiente para arcar com o desenvolvimento das ações voltadas a melhoria da qualidade de vida da nação, uma vez que a amplitude do nacional é justamente exaltada pela dificuldade de organização em níveis subnacionais de uma poder político-jurídico uno, em vistas do divisionismo, das diferenciações de alguns costumes existentes nas diversas áreas, e principalmente da opressão econômica e

social existente entre elas, sobrando a “ideia nacional” como resposta simplificadora88.

Contudo, cada vez mais se torna evidente que o desenvolvimento perpassa não apenas pela seara nacional, através da sua simplificação realizada por meio da unidade que propõe, cabendo acesso a dimensões como a regional e o local.

Isso ocorre por que se torna claro que as ações estatais que privilegiam objetivos sociais de equidade atrelados aos de eficiência econômica, e não apenas estes últimos, conseguem obter mais sucesso em relação à axiologia constitucional, tornando necessária a equalização de oportunidades existentes nas mais diversas regiões89.

No que toca à dimensão regional, a Constituição Federal de 1988 em seu art. 3º, III, atrela ao objetivo de desenvolvimento nacional o dever de reduzir as desigualdades sociais e regionais, fazendo com que as ações do Estado procurem atingir um grau de oportunidades materiais isonômicas entre as distintas regiões do país90, especialmente entre aquelas em que se pode observar diferenças gritantes de qualidade de vida.

Essa preocupação constitucional impõe uma necessária reflexão sobre a estrutura federativa brasileira e o papel do Estado como centro organizador, pois torna indispensável pensar em um exercício de pluralismo federativo, que procure impedir com que os investimentos feitos em prol do desenvolvimento nacional acabem por serem direcionados quase que exclusivamente para um núcleo dominante, relegando a uma periferia de regiões federativas o papel de dominada.91

Torna-se impossível pensar o desenvolvimento de um país cuja estabilidade socioeconômica possa refletir na sua qualidade de vida, onde as suas regiões e as populações

87 STEINBERGER, Marília. A inseparabilidade entre Estado, políticas públicas e território. In: STEINBERGER, Marília (Org.). Território, Estado e políticas públicas espaciais. Brasília: Ed. LER, 2013. P.34. 88 FAISSOL, Speridião. O espaço, território, sociedade e desenvolvimento brasileiro. Rio de Janeiro, IBGE, 1994. p.290.

89 Ibdem. p.292.

90 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: Casa Civil, 2013. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em 31/06/2014.

que lá se instalam sejam alijadas do processo de decisões fundamentais tomadas para serem postas em prática pelo Estado, fazendo com que projetos de redistribuição, de inclusão e de plena melhoria socioeconômica sejam impedidos.92

É preciso, então, que seja repensada a forma de inserção das regiões na dinâmica nacional de desenvolvimento, tanto na esfera econômica quanto na social, mesmo por que a participação e o envolvimento econômico das regiões tornam possíveis os avanços sociais qualitativos.

Não é à toa, portanto, a inserção também na ordem econômica a redução das desigualdades regionais como arma possível de ser usada pela criatividade estatal e mercadológica para o alcance do objetivo do desenvolvimento. Afinal, cada vez mais tem sido visto que as relações existentes nas regiões produtivas na qual trabalho, tecnologia, inovação e capital se instalam, a dinâmica socializadora do desenvolvimento pode ser observada93.

Em uma terceira dimensão, a âmbito local, que apesar de sua importância extrema para a estrutura da sociedade constitucional, não recebe direta menção no texto da Constituição de 1988, vem sendo cada vez mais apontado como um fator especial do desenvolvimento qualitativo nacional.

Essa vertente tem sido difundida através do pensamento que opondo-se ao universo globalizante enxerga na promoção, conservação e valorização dos bens naturais e culturais existentes no território, a essência de qualquer estratégia cujo direcionamento é o desenvolvimento. Dentro dessa perspectiva o local, visto como a pequena unidade, gera a imagem territorial que se apresenta como diferencial de qualidade. 94

A centralização excessiva em uma única região, como nacionalmente é posto, tem cada vez mais perdido seu espaço, garantindo a descentralização estimulante das pequenas unidades territoriais e agrupamentos humanos a mais benéfica estratégia de desenvolvimento endógeno de um país95.

A utilização das potencialidades locais tem se demonstrado a forma mais efetiva de elevar as oportunidades sociais e viabilizar a economia competitiva local, gerando reflexos em

92 FAISSOL, Speridião. O espaço, território, sociedade e desenvolvimento brasileiro. Rio de Janeiro, IBGE, 1994. p.282.

93 FELSENSTEIN, Daniel. Human capital and labour mobility determinants of regional innovation. In: COOKE, Philip(org.). Handbook of regional innovation and growth.Massachusetts: Edward Elgar, 2011. p.122- 123.

94 VEIGA. José Eli da. Do Global ao Local. São Paulo: Ed. Armazém do Ipê, 2005. p.52-55. 95 Ibdem. p.74.

âmbitos regionais, uma vez que busca quebrar a dependência e a inércia do subdesenvolvimento de localidades periféricas, chegando a promover mudanças na formatação do território.96

Destaca-se que a localidade depende de uma convergência de fatores e investimentos institucionais que através de uma efetiva execução de ações propõe um sistema organizado localmente, sendo visto como inefetivas as movimentações geradas pelo capital externo por não conseguirem se inserir nas dinâmicas limitadas dessas pequenas comunidades97.

É necessário, por isso, que o Estado, por mais que inexista na Constituição Federal de 1988, determinação de ação direta sobre as localidades, proponha normas organizativas da ação local em moldes reestruturativos, propondo, baseado em ações de acesso a direitos fundamentais e a diretivos da ordem econômica, meios das localidades avançarem econômica, social, cultural e tecnologicamente.

Ao Estado é entregue o papel de garantir dentro do seu território a valorização do âmbito local e a diversidade de consequências trazidas por ele num processo permanente de recriação dos espaços nacionais num contexto cada vez mais globalizado98.

Essa análise dos três âmbitos territoriais da ação estatal vem à tona ao enxergar o desenvolvimento como sinônimo de tensão que propõe a contínua elaboração de agendas, diálogos, conflitos e consensos, em um processo lento e envolto em diversas frentes de ação99, que para evidenciar bons resultados precisa de um ambiente de atuação.

Benzer Belgeler