Em um esquema de cooperação social, encontramos como missão precípua associada aos indivíduos o afastamento de defeitos graves preservando, assim, a constante busca de políticas razoáveis que permitam a transmissão das gerações das mais diversas atitudes tendentes a fixar as bases da igualdade e a manutenção dos princípios de justiça.
A aceitação do princípio da diferença implica na concepção de que a desigualdade de expectativas é permitida se sua diminuição significar a atribuição de vantagens para o homem representativo em piores condições, que por excelência constituem grupos de indivíduos não especializados,
segundo uma perspectiva de exercício profissional, como forma de exemplo. Sua efetivação depende de uma conjuntura de esforços encabeçado pelo exercício da justiça procedimental pura e a força que as instituições depositam na criação de leis que fomentem a inclusão dos grupos menos abastados.
Todavia, a consideração do indivíduo e sua capacidade da assimilação deste esquema contratualista de cooperação social simboliza a efetiva aplicação dos dois princípios da justiça debatidos até o momento, além daqueles que à sua maneira levam de modo indireto à manutenção dos direitos e liberdades básicas dos indivíduos. Este esquema propugnado pela justiça procedimental pura aliado à aceitação dos indivíduos e à compreensão do princípio da diferença resulta na harmonia dos dotes naturais e demais habilidades voltadas a todos os indivíduos, conjuntamente aos benefícios comuns deles decorrentes na consolidação de um plano de vida perfeito. Ademais, a fiel correspondência da efetiva adesão do grupo de homens representativos mais privilegiados a este esquema de cooperação social garante a supremacia da já denominada igualdade equitativa de oportunidades, e sua consequente universalização de consecução dos seus efeitos, desconsiderando dimensões restritas de pensamento atreladas a pessoas particulares.
Repercutindo o presente item, debruçamo-nos sobre a elaboração de uma sequência ordenada em que os princípios da justiça são construídos e conectados a partes representativas, preocupadas em compreender a concepção do justo na posição original. A adoção de regras de prioridade incentiva a utilização dos princípios segundo uma óptica em que as pessoas são igualmente representadas no mais elevado grau de dignidade, não mais condicionado ao juízo arbitrário dos desejos individuais ou marcado por um equilíbrio relativo das forças sociais. Apenas uma aceitabilidade moral e um esquema competente de justiça procedimental pura são capazes de criar um status em que independentemente do consenso atingido, o mesmo será considerado como justo.
Por hora, a preocupação cinge-se à formulação completa do justo, uma vez que temos, de um lado, os princípios da justiça que condicionam as partes no que pertine à convivência com seus pares. De outro, centralizam-se as
próprias partes que executam um papel determinante de destinatários destes princípios, cuja exequibilidade sob o enfoque da justiça procedimental pura, garantirá que a realidade e eficácia segundo uma concepção Kelseniana, estejam presentes.
Destarte, vislumbramos inicialmente a existência de princípios correlatos aos sistemas sociais e as instituições plasmadas sob a batuta da justiça e da eficiência, aqui consideradas como um sistema de regras que privilegiem uma igualdade social de oportunidades em conjunto com a justiça formal aglutinadora de expectativas legítimas em um estado de direito. E também uma organização de direitos e obrigações que maximize as expectativas dos homens representativos sem ao mesmo tempo incorrer na diminuição das expectativas de outros grupos representativos democraticamente legitimados.
Em contrapartida, caminham os princípios correlatos aos indivíduos consubstanciados no consenso à imposição de determinadas noções, tais como a equidade, fidelidade, respeito mútuo e beneficência. Todas as noções apresentadas neste parágrafo sinalizam para o que podemos nominar como o conceito de justo, que na doutrina de Rawls não prescreve o que vem a significar o termo “justo”, em sua concepção mais tradicional. Pelo contrário, sua acepção congrega o ideal de equidade inserta em uma teoria de justiça que ofusca seu uso do cotidiano, valorizando a substituição pelo conceito que concorda com os princípios que em sua posição original seriam implementados para reforçar ainda mais sua pertinência 71.
Superada esta dicotomia entre princípios atrelados às instituições e princípios dispostos aos indivíduos, passamos a apreciar de que maneira é construído o princípio da equidade e como ele deve ser compreendido pela sociedade como obrigações associadas a uma convivência pacífica da coletividade.
Para uma perfeita compreensão do princípio da igualdade devemos formar a convicção preliminar de que em um sistema de regras elaboradas pelas instituições, bem como as exigências junto aos indivíduos materializam-
se por meio das obrigações e não por meio dos deveres naturais. A tônica do princípio da equidade é a de que uma pessoa deve fazer a sua parte quando as instituições editam, por meio do processo legislativo próprio, um certo conjunto de regras, desde que atendidas as duas condições que podem ser desta forma resumidas: preambularmente, a instituição deve ser justa, satisfazendo, por conseguinte, os dois princípios da justiça. Sob outro vértice, a pessoa deve aceitar de forma voluntária os benefícios da organização, ou aproveitar todas as vantagens que o princípio oferece para promoção e consecução dos seus interesses pessoais.
Os deveres morais também constituem o princípio da equidade vinculando os indivíduos à prática dos atos voluntariamente dispostos e exigidos pelas instituições, como pressuposto das práticas democráticas aceitas pela sociedade. Por esta razão podemos concluir de forma sintética que não basta ao indivíduo prestar obediência às regras de uma instituição que satisfaça aos princípios da justiça. Faz-se necessário e recomendável que a adesão voluntária também figure como elemento de cooperação mútua e vantajosa para todos. A partir do momento em que as normas jurídicas são remanescentes de um sistema autocrático e arbitrário de governo, que alcançou o poder utilizando-se de expedientes não afetos aos preceitos concretizadores da democracia, não se alcançará o princípio da equidade no seu mais elevado nível que exige, dentre outros, o respeito por parte dos cidadãos movidos pelas noções de fidelidade, respeito mútuo e beneficência. Os mesmo incentivam o princípio da igualdade equitativa de oportunidades na execução das obrigações marcadas pela confiança em uma prática justa.