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Aşağıdakilerden hangisi İslam dininin temel gayesi arasında yer almaz?

Próximo das reflexões antes apresentadas a partir de Hans Jonas (como irá se clarificar), e diante da apreensão por parte das ditas Ciências Sociais da temática do Outro, trazendo para a especificidade do conhecimento a aproximação e o embate específicos do contexto social, desde as primeiras linhas de seu manifesto Michel Serres117 propõe não só à Filosofia, epistemologia à qual se vincula, mas a toda Ciência a ultrapassagem de suas especificidades para dar voz a uma nova estética do Outro, a saber, a Natureza, vista a partir de agora como sujeito de ação e de direito.

Por sujeito de ação quer-se alertar para a resposta cada vez mais explícita que a Natureza e toda a biosfera vêm manifestando diante do avanço técnico- científico, que encontra sua contradição ao se direcionar gradativamente para um futuro cujo horizonte é incerto e iminentemente catastrófico. Por sujeito de direitos, quer-se apontar para transfiguração que tem sofrido a esfera da moral diante do desenvolvimento da ciência e da técnica: alcançado o ápice de sua negação, a natureza não pode mais ser considerada como a dimensão estática e inalterável do agir humano, sendo vista como passiva e subserviente aos conflitos humanos – talvez a única ação observada neste contexto seja o seu papel como cenário mítico

e imprevisível da aventura humana. Por sujeito de direitos quer-se apontar para a realidade de que a sobrevivência da Natureza depende como nunca antes da escolha da ação humana.

A mutação global atualmente presenciada torna explícito o fato de que o planeta terra – antes vitorioso e incansável sobre os fatos humanos –, evidencia o perfil de sua beleza mutilada (o lado oculto da Lua que até então não se tinha percebido, mas que agora não se deve mais ignorar). Eis o motivo pelo qual Serres traz o imperativo de uma reflexão que permita regular a relação entre homem e natureza e que, contemporaneamente, associe aos direitos do primeiro os direitos de tudo o mais sobre a terra.

Na época atual, sob a constante ameaça de uma catástrofe ecológica, deve- se pensar num novo direito, a fim de rever a letra do contrato social. Entretanto, pensar um direito natural leva a um conflito de aceitação em virtude da aparente impossibilidade do termo empregado, pois se entende que um contrato somente possa ser “firmado” por aqueles que possuem a capacidade de fazê-lo, isto é, entre os indivíduos humanos.

No entanto, à medida que a natureza se “oferece” ao homem como bem inalienável de direito, o mínimo que se deveria dar em troca é o estabelecimento de um pacto entre ambos, acrescentando-se “ao antigo contrato social um contrato natural de simbiose e reciprocidade para com a natureza, sem o qual a vida corre sérios perigos de extinção”118.

De fato, nenhuma moral, até o momento, foi obrigada a se interrogar sobre o que fazer para garantir a integridade do planeta Terra. Nesse contexto, o homem

118 ALENCASTRO, M. S. C.; HEEMANN, Ademar. Hans Jonas e Michel Serres: a responsabilidade

tornou-se a tal ponto senhor da natureza, tanto no sentido local quanto planetário, que termina por ameaçar toda a existência da biosfera.

Pode-se dizer de início que, assim como postula Hans Jonas119, para Serres há a necessidade de se reconsiderar o conteúdo da ética tradicional, de modo que o dever humano se vincule ao dever para com a natureza – a qual urge ser compreendida tanto como condição fundamental para a sobrevivência da humanidade quanto elemento indispensável para a manutenção de sua integridade.

Segundo o que levanta Serres, o que se presencia hoje é uma crise dos fundamentos não só no que concerne à prática técnico-científica, mas, também, ao todo da natureza humana, que erigiu uma cultura e uma ciência pautadas, inconsequentemente, no descaso em relação aos ecossistemas. Nesse contexto, “esta crise dos fundamentos, não intelectual, não abrange as nossas ideias nem a linguagem, nem a lógica ou a geometria, mas o tempo e a nossa sobrevivência”120.

Apropriando-se do exemplo da arte, para dar início à discussão, na abertura de sua obra Serres se lança em perquirir uma das principais funções que seus criadores atribuíram a ela: o interesse apenas “pelo sangue derramado, pela caça ao homem, pelos romances policiais”, pela “[...] morte ignóbil que funda e percorre a história, da Illíada a Goya e da arte acadêmica ao serão televisivo”121. Embriagado pela representação, em meio aos conflitos e debates humanos, o espetáculo tem se configurado numa dimensão abstrata, que anula o mundo ao redor dos combates e onde os homens se mostram sempre sozinhos. Para Serres, este é o elemento intrínseco da significação do teatro, da “maioria das nossas narrativas e filosofias”,

119 JONAS, Hans. Op. cit.

120 SERRES, Michel. Op. cit. p., 136. 121 Ibidem, p. 13.

da “história” e da “totalidade das ciências sociais”: ou seja, este é o elemento intrínseco do que se chama de cultura122.

Desde a Antiguidade, as batalhas e conflitos entre os homens mostram-se, ao mesmo tempo, uma das expressões mais acentuadas e um dos deleites mais banais que a história da humanidade presenciou até o advento da modernidade, quando a cultura da violência e da guerra passa a encontrar obstáculos na opinião pública (ou, ao menos, essa cultura “muda de feições” a partir do limiar da modernidade).

De um lado, a imagem do Duelo a garrotazos de Goya transporta o espectador para a cena de dois indivíduos que combatem até a morte armados de varapaus ou porretes, e que, a cada golpe dado, se atolam na lama movediça onde se enterram até os joelhos. Nesse espetáculo “magnífico e banal”, espectadores sedentos que são os homens lançam com divertimento suas apostas na busca pelo vencedor e, imersos na luta, ignoram “o mundo das próprias coisas, a areia movediça, a água, a lama, os caniços do pântano [...]”. No entanto, se pergunta Serres: “em que areias movediças nos atolamos em conjunto, adversários ativos e espectadores perigosos?”123.

De outro lado, narrada pela épica cena do canto XXI da Ilíada de Homero, a batalha de Aquiles no rio Xanto, e contra ele, traz a fúria do herói contra a horda de inimigos que o atacam e que, vencidos, se amontoam nas águas do rio. Talvez num ritmo mais acelerado que a cena de Goya, o andamento da batalha termina por ameaçar colocar fim a vida de ambos adversários, diante do rio que aumenta de volume a cada combatente derrotado que desaba sobre ele.

122 SERRES, Michel. Op. cit., p. 14. 123 Ibidem, p. 12.

Porém, assim como adverte o cenário do Duelo a garrotazos, “que fazer com este rio, outrora silencioso, que começa a transbordar?”. Do lado da guerra de Tróia, “por sorte, nesse dia, [...] o fogo celeste fez secar as suas águas”, todavia, “por desgraça, sem nenhuma promessa de aliança”124.

A partir desse contexto, diante dos dois espetáculos retratados que oferecem aos espectadores seus “cadáveres para apreciar”, Serres constata que, desde sempre, “a nossa cultura tem horror ao mundo”. Um sentimento de horror que pela necessidade da sobrevivência e da convivência é-se obrigado a desfazer e transformar em responsabilidade e cuidado pelo todo125.

No entanto, mesmo com o provável advento de uma cultura menos dada ao espetáculo do horror e menos sedenta pelo sangue da batalha, é preciso advertir:

Ora, ainda aqui, a lama engole os contendores; o rio ameaça o combatente: a terra, as águas e o clima, o mundo silencioso, as coisas tácitas aí colocadas outrora como cenário em redor de representações vulgares, tudo isso, que nunca interessou a ninguém, brutalmente e sem dizer água-vai, se interpõe a partir de agora entre as nossas manigâncias.126

Embriagados no deleite das contendas humanas, somos despertados por aquilo que “irrompe na nossa cultura” e que até então “nunca tínhamos formado senão uma ideia local e vaga, cosmética – a natureza”. Portanto, “outrora local – este rio, aquele pântano –, global agora – o Planeta-Terra”.127

Antes do limiar da modernidade, a visão que se tinha da natureza, por exemplo, a partir de seu sistema climático – o qual corre o risco de destruição global caso se persista em tal concepção –, é a de que seus desdobramentos ocorrem

124 SERRES, Michel. Op. cit., p. 12-13. 125 Ibidem, p. 13-14.

126 Ibidem, p. 14. 127 Idem, grifo nosso.

espontaneamente, num equilíbrio regulado por meio de “variações breves ou lentas, catastróficas e suaves, regulares e caóticas”128, sem que o agir humano fosse capaz, de qualquer maneira, de alterar o seu fluxo natural.

De toda forma, desde a Revolução Industrial, com a constatação da alta concentração de dióxido de carbono na atmosfera, a propagação de substâncias tóxicas e a difusão de produtos acidificantes, sem contar a manipulação de outras substâncias que contribuem para a intensificação do efeito estufa, verifica-se um considerável aumento de desastres naturais e a mutação da qualidade do ar que se respira.

Destacados os fatos, porém, surge a interrogação: poderá o clima, enquanto sistema, “alterar o seu comportamento?”, ou melhor, será possível à comunidade científica “descrever, estimar, calcular, mesmo pensar, enfim orientar essa mudança global?129”. Em resposta, Serres lamenta que ainda que “todos os nossos saberes” estejam reunidos, “inseridos em modelos dificilmente interpretáveis”130, eles não seriam capazes de presentear a razão com a precisão necessária.

Mesmo constatando a incapacidade em saber ao certo como inteirar-se da lógica de movimento da natureza, Serres adverte sobre o perigo ao nos abstermos de tal dúvida:

Isso não seria prudente, porque estamos embarcados numa aventura de economia, ciência e técnica, que é irreversível; podemos lamentá- lo, mesmo com talento e profundidade, mas é mesmo assim e depende menos de nós do que da nossa herança histórica. [...] Precisamos de prever e decidir. Apostar, portanto, dado que os nossos modelos podem servir para sustentar as duas teses contrárias.131

128 SERRES, Michel. Op. cit., p. 15. 129 Ibidem, p. 15.

130 Ibidem, p. 16.

A aposta a ser feita, dessa vez balizada pelo sentimento de responsabilidade, pode ser direcionada para dois caminhos: em termos de perda, não se poderá perder nada. Já em termos de ganho, serão ganhas todas as fichas, de modo que a humanidade prosseguirá como agente da história – “nada ou perda de um lado, ganho ou nada do outro: isso elimina toda a dúvida”132

A disposição pela aposta liberta-se de uma decisão mais difícil e desafiadora a ser tomada, quando se deve contar com os auspícios de uma decisão individual que, para além dos objetivos de existência pessoal, seja capaz de integrar em sua ambição a convocação imediata da coletividade humana, ainda que esta ambição seja prevenir uma catástrofe que venha a ameaçar essa mesma coletividade.

Contudo, constata-se, a partir do final da década 1980, em razão de um maior destaque da questão ambiental e climática – com a assinatura da Convenção de Toronto, durante a qual, por razões de segurança global, discutiu-se a necessidade de adoção imediata de uma convenção internacional sobre mudança climática, e com as conferências de Paris, Londres e, sobretudo, de Haia, realizada em prol de “debater os problemas levantados acerca da proteção da atmosfera”133 –, um preocupar-se que passa a integrar, gradativamente, a agenda da aliança entre um número cada vez mais expressivo de países “a favor de uma gestão comum do problema”134. Uma gestão que ainda carrega em si muitas incógnitas na sua relação com a efetivação concreta da superação das dificuldades encontradas:

132 SERRES, Michel. Op. cit., p. 17.

133 BURSZTYN, Marcel. A grande transformação ambiental: uma cronologia da dialética do homem-

natureza. Rio de Janeiro: Garamond, 2008, p. 212-219.

Pela primeira vez, o Ocidente [...] terá começado a pensar na vida dos seus descendentes? Confinado, desde há muito tempo no curto prazo, estará hoje a projetar a longo prazo? Mostrando-se sobretudo analítica, a ciência considerará, pela primeira vez, um objeto na totalidade? Perante essa ameaça, poderiam as ideias ou as disciplinas científicas reunir-se como as nações? Enraizados, exclusivamente, até a pouco, na sua história, será que os nossos pensamentos reencontram agora a essencial e estranha geografia? Outrora sozinha a pensar o global, a filosofia deixará de sonhar?135

Na busca de soluções possíveis, a inquietação se faz presente à medida que o desenvolvimento da economia, da indústria, e do conjunto das técnicas contribui para o acirramento da disputa entre as nações, tornando evidente o gosto da humanidade pela contenda e pela guerra. De fato, não se tem notado até o momento que o ideal de crescimento, tomado aqui como a promoção irresponsável do desenvolvimento técnico-científico e, em contrapartida, como a busca pelo fortalecimento da hegemonia de alguns blocos de poder político-econômico sobre outros, possui o poder de perturbar o esquema inicial desejado “assim que atinge uma certa globalidade”136.

Dessa forma, ao tomar mais uma vez o exemplo do Duelo a garrotazos, no contexto político, Serres confronta dois adversários que, levados ao ápice da batalha, inconsequentemente produzem uma alarmante reviravolta através do aumento de seus meios e da partilha de suas destruições: “de repente, os dois inimigos encontram-se no mesmo campo e, [mais uma vez], em vez de continuarem a lutar um contra o outro, combatem juntos contra um terceiro rival”137: imersos no combate, os adversários não percebem que a cada golpe se atolam na lama produzida pela contenda.

135 SERRES, Michel, Op. cit., p. 18-19. 136 Ibidem, p. 20.

Numa situação em que cena não seja a de uma batalha sangrenta, mas sim a de dois interlocutores se debatendo numa discussão, a condição da necessidade chegar a um acordo por meio de uma linguagem comum (na busca de se fazer entender), termina por incluir a intervenção de “um acordo prévio acerca de um código comum”, o qual se impõe, incondicionalmente, antes da configuração de qualquer debate ou combate pretendido. Para Serres, o termo de declaração de guerra se institucionaliza no contrato de direito, “que precede as violentas explosões dos conflitos”138. Portanto, a guerra se define como “um estado de direito”. E tendo a guerra sido declarada, o verdadeiro inimigo se camufla no debate139.

Caminhando entre as ruínas da batalha consumida, em meio aos cadáveres dos adversários derrotados e os destroços resultantes do combate, será possível ainda ignorar os danos infligidos no entorno da batalha? É possível, mais uma vez, que o espaço protagonizado pela natureza persista em ser considerado apenas como o adorno dos vitoriosos e o túmulo dos derrotados?

Em comparação com a atenção dada à cifra de combatentes caídos e ao número de perdas ditas materiais, nada se fala dos “prejuízos infligidos ao próprio mundo, sempre que o número de soldados e as formas de luta crescem em potência”140. Em relação a estes últimos prejuízos:

Perante a declaração de guerra, os beligerantes não os aceitam conscientemente, mas produzem-nos na realidade em conjunto, devido ao fato objetivo da própria beligerância. Toleram-nos conscientemente. Não têm uma clara consciência dos riscos que correm, exceto algumas vezes os miseráveis, os terceiros excluídos das lutas nobres: apenas nos lembramos da vinheta do campo de aveia devastado pela batalha cavalheiresca, quando a vemos ilustrar

138 SERRES, Michel, Op. cit., p. 21. 139 Ibidem, p. 23.

os antigos manuais de história ou esses livros que a velha escola designava maravilhosamente por lições de coisas.141

Em virtude da gravidade das circunstâncias, dada a implosão da situação gerada pelo descaso para com os danos infligidos ao conjunto da natureza, a ocorrência de uma guerra subjetiva contra dois adversários comuns torna-se praticamente insignificante “perante os resultados objetivos da violência objetiva desencadeada pelos meios de que dispõem os beligerantes contra o mundo”142 ainda mais quando se imagina que seu desfecho alcança uma amplitude global.

Será, dessa maneira, que, pelo menos a partir da modernidade, a Terra irá se tornar o inimigo comum. Portanto, à medida que a gestão do mundo “passava pela beligerância, tal como o tempo da história tinha a luta como motor”, um novo um novo tipo de mudança, em escala global passa a chamar atenção: “a nossa”143.

Cabe ressaltar, no entanto, que o fato de a Terra ser tomada como inimigo comum põe à mostra, ao mesmo, a natureza de sua fragilidade, pois sua força, que antes “triunfava facilmente sobre os homens” – ameaçando o rio engolir Aquiles e a areia movediça cobrir os duelistas –, revela agora sua precariedade. Deste modo, “vencido, o mundo vence-nos, finalmente” e, portanto, seu esgotamento, “a sua fraqueza obriga a força a cansar-se, ou seja, obriga a nossa a esmorecer”144.

Trata-se realmente de um limite: determinada história conhece um fim quando a eficácia da violência objetiva [...] substitui a inútil vaidade das guerras subjetivas, aumentando as suas armas e multiplicando os seus destroços por uma decisão de vitória, desejada e procurada, que é preciso retomar em intervalos sempre mais aproximados, de tal modo a duração dos impérios é encurtada.145

141 SERRES, Michel. Op. cit., p. 24, grifo nosso. 142 Idem.

143 Idem.

144 Ibidem, p. 26-27. 145 Ibidem, p. 28.

Toma partido uma dialética que se reduz a um eterno retorno: justamente esse eterno retorno das guerras que irá conduzir o homem ao mundo; e “o que se designa por história, desde há vários séculos, chega assim a esse ponto de acumulação, a essa fronteira, a essa mudança global”146.

A perspectiva discutida neste capítulo, até o presente momento, constitui-se naquilo que Serres propõe que seja ultrapassado, em sua concepção e prática, de uma vez por todas: a guerra como estado de fato e direito; ou seja, seu estabelecimento por meio do contrato.

Assim, o autor defende que a história teve início por meio da guerra, entendida, nesse contexto, “como fim e estabilização dos conflitos violentos através de acórdãos jurídicos”, o que implica a constatação de que, para que haja guerra, é preciso que haja antes a circulação de um contrato, do contrário, se testemunhará apenas uma “eclosão desenfreada da violência”. Dessa forma, “tudo se passa como se esse contrato de guerra tivesse filtrado a nossa sobrevivência e fizesse nascer a nossa história, salvando-nos da violência pura e, de fato, mortal”147. Nesse sentido, se a guerra subjetiva subentende a existência de um contrato e a institucionalização de um direito, e, portanto, de uma história, para a violência objetiva, diferentemente, não há limite nem regra e, por conseguinte, nem mesmo uma história.

Tal perspectiva torna explícita, diante do esgotamento da força vital da Terra, provocado pela violência inconsequente – porém evitável – da ação humana, e da sua suposta incerteza de capacidade criadora de um eterno retorno, a necessidade categórica da intervenção de um novo tipo de contrato que estabeleça um pacto com a violência objetiva, a qual encontrou o seu limite, da mesma maneira que os antigos

146 SERRES, Michel. Op. cit., p. 28. 147 Ibidem, p. 29.

viabilizaram um direito que, por meio do contrato, transmutou a violência objetiva em estado de guerra.

“Mas mais do que isso, trata-se da necessidade de rever e de voltar a assinar o mesmo contrato social primitivo”148, sendo que, ao mesmo tempo em que se tem firmada a concepção de que o contrato social vigente direciona a humanidade para um “sem mundo”, é de vital importância para a posteridade a criação de “um novo pacto a assinar com o mundo: o contrato natural”149.

Nesse contexto, a fim de medir o impacto dessa necessidade, a imagem analítica que se poderia ter da intervenção humana na natureza, no cenário da Antiguidade, esboça-se na abrangência mínima dos efeitos possíveis de serem contabilizados em presença de eventos de violência localizada e distinta: no interior dessa imagem, “o homem nunca acedia, portanto, à existência física”150. Com isso, o que se busca aqui dizer é que no tempo presente essa condição “se torna uma variável física, por troca de força, de fraqueza e fragilidade”151. E, portanto, o homem perde a concessão de ser engolido “como um ponto sem dimensão” – uma vez que, a partir do limiar da modernidade, principalmente a partir da revolução industrial, com a intensificação do crescimento demográfico e, consequentemente, com o aumento da capacidade destruidora do homem –, o indivíduo torna-se indissociável de sua condição como conjunto e sua existência “ultrapassa o local para se estender

Benzer Belgeler