[...] como o historiador, que, por seu ofício, está encarregado de dar a uma sociedade sua memória, seus laços com seu passado a fim de que possa viver melhor com seu presente, como o historiador pode dar conta do sofrimento? Como o trata? O que faz com as palavras encontradas que exprimem a dor, que sentido ou que recusa de sentido lhes dar e, sobretudo, como pode ou deve escrever essas suspensões trágicas da felicidade? (Farge, 1997, p. 13)
A pesquisa realizada teve como objetivo reconstituir as epidemias de febre amarela – que ocorreram em 1897 e 1900 – e de gripe espanhola – ocorrida em 1918 – em Sorocaba, traçando um panorama das condições sanitárias e de saúde pública da cidade durante esse período. A atuação do médico Álvaro Cesar da Cunha Soares no combate às epidemias em questão foi analisada com o intuito de compreender como a medicina oficial lidou com as crises epidêmicas e como se davam suas relações com as autoridades públicas locais e estaduais.
As epidemias de febre amarela e de gripe espanhola que se abateram sobre Sorocaba entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX impactaram os sorocabanos de formas diferentes e se perpetuaram de maneira igualmente diversa na memória coletiva dos habitantes da cidade. As duas epidemias de febre amarela encontraram uma cidade com péssimas condições sanitárias e que buscava se distanciar da imagem de “cidade tropeira” – representada pela passagem e comércio de animais por seu centro urbano – e de hábitos “rústicos”.
Após os surtos amarílicos, nos primeiros anos do século XX, houve a construção do sistema de água e esgoto encanados – ainda que funcionando de forma bastante insuficiente –, a recuperação econômica da cidade por meio do desenvolvimento das indústrias têxteis e a construção da imagem de uma nova cidade, nãos mais “rústica” e “tropeira”, mas, sim, “moderna” e “industrial”. Para o discurso oficial, corroborado pela historiografia tradicional sorocabana, a febre
amarela significaria o marco divisor da economia e do progresso de Sorocaba (Dall’Ava, 2012, p. 104).
Atentar para essa perspectiva acerca das epidemias de febre amarela, consolidada pelo discurso oficial e pela historiografia tradicional, contribui para a compreensão do fato de existirem diversos estudos sobre os surtos amarílicos em Sorocaba, enquanto que outras epidemias – como a de gripe espanhola – são praticamente ignoradas pelos pesquisadores locais.
Quando a epidemia de gripe espanhola atingiu Sorocaba, em outubro de 1918, a imagem ostentada pela imprensa local era bem diferente daquela da virada do século. A existência de grandes estabelecimentos fabris ligados à produção têxtil e o crescimento populacional – alimentado, sobretudo, pela imigração – atestavam, na visão das elites locais, a imagem da Manchester Paulista. A epidemia de gripe espanhola ameaçou justamente o símbolo maior do progresso sorocabano à época, as fábricas têxteis.
Interrompendo – ainda que temporariamente e sob resistência do proprietário de uma das fábricas – a atividade industrial na cidade, a influenza colocou em xeque a imagem da Manchester Paulista e expôs a fragilidade das instituições médicas e de saúde pública na cidade. Ao contrário da febre amarela, que foi interpretada pelo discurso oficial como uma catástrofe que permitiu a “renovação” da cidade, a gripe espanhola chegou a Sorocaba no momento em que o projeto das elites estava em seu auge, mostrando que mesmo com o desenvolvimento econômico e urbano ocorrido, a Manchester Paulista não era capaz de impedir uma nova epidemia. Possivelmente, essa intepretação da epidemia de gripe espanhola deva ter contribuído para relegar os acontecimentos do último trimestre de 1918 ao calabouço da memória sorocabana (Idem).
Tanto nas epidemias de febre amarela quanto na de gripe espanhola, o médico Álvaro Cesar da Cunha Soares teve participação ativa e um importante papel. Personalidade de destaque em Sorocaba, além da prática da medicina também exercia forte atividade política, tendo, inclusive, exercido o cargo de intendente municipal entre 1911 e 1913. Durante a primeira epidemia de febre amarela, em 1897, representou aqueles que se opunham a intervenção estadual no município. Essa intervenção, promovida pelo Serviço Sanitário Estadual, foi motivo de
questionamento por parte da população sorocabana, que via sua autonomia local desrespeitada com a chegada dos funcionários estaduais. Desse modo, disseminaram- se debates entre municipalistas e centralistas acerca do papel dos poderes locais e estadual no combate à epidemia, inclusive com a criação de um partido político – o Partido Autonomista Sorocabano, fundado pelo próprio Álvaro Soares – para a defesa da autonomia municipal.
No auge da epidemia de gripe espanhola, no momento do fechamento das fábricas – e das querelas envolvendo o proprietário da fábrica Santa Rosália, seu médico e o intendente municipal –, Álvaro Soares havia se consolidado como figura de destaque tanto na medicina quanto na política da cidade. Sua decisão de interromper temporariamente o trabalho fabril contou com o respaldo do intendente municipal e dos demais médicos presentes na reunião. Os episódios envolvendo o esculápio fornecem elementos importantes para se investigar o aumento das atribuições que os médicos ganharam no final do século XIX e que demonstram sua interferência cada vez maior em diversas questões.
Desse modo, nessa pesquisa procurou-se contribuir com desenvolvimento do campo da história da medicina e da saúde pública em Sorocaba, ampliando a gama de investigações possíveis sobre a cidade e compreendendo como as questões de saúde se inserem nas relações sociais, nas medidas implementadas pelas elites governantes, nos embates políticos locais, nas reivindicações populares, entre outros fatores.