A- DESTEKLEME ALIMI YAPAN KURULUŞLAR
II- ÜRÜN BAZINDA İNCELEME
Pós-desastre é o discurso de saber que circula para se referir ao período que sucede a ação de uma determinada ameaça natural sobre um território como, por exemplo, uma inundação. Esse discurso de saber que acaba por produzir verdades é adotado e replicado cada vez mais pelos órgãos do Estado, nos meios de comunicação, entre os sujeitos etc. A referida utilização do termo sinaliza a compreensão pontual do desastre e a estreita vinculação da vigência deste com a ação ou não das ameaças naturais – como a ocorrência de chuvas, por exemplo.
Em razão desse tipo de racionalidade, os ditos formulários de avaliação dos danos solicitam o preenchimento do dia do desastre, as políticas públicas e as práticas adotadas para fazer frente ao acontecimento primarão por uma racionalidade similar ao imporem a temporalidade que a determinada situação desastrosa deverá ser reconhecida enquanto tal, ou seja, a vigência que a calamidade pública reconhecida deverá ter (30, 60 ou 90 dias, podendo ser prorrogado até completar 180 dias). Os meios de comunicação, por sua vez, proliferam discursos de saber sobre o desastre nos primeiros dias, fazendo viver esta realidade, ao que sucede a ausência de discursos que, em certa medida, deixam morrer porque não dão visibilidade ao drama público das famílias ou grupos domésticos que paulatinamente são lançadas ao abandono, seja nos abrigos temporários, nos campos de desabrigados ou no retorno às áreas de risco (MARCHEZINI, 2010). As práticas de solidariedade da sociedade civil a partir do envio de donativos e ajuda por meio de trabalho voluntário também fazem viver enquanto a comoção social se replica e o tempo do drama permanece. Com a fadiga da compaixão, o deixar morrer toma lugar no desfazimento
das ações de assistência social, no retorno das atividades corriqueiras daqueles grupos que não foram diretamente atingidos etc.
Os incessantes discursos de saber dos primeiros dias que fabricaram sujeitos como afetados, desalojados e desabrigados simplesmente se diluem, sendo substituídos por discursos efêmeros e cada vez mais espaçados no tempo que, vez por outra, mencionam o acontecimento e relatam que a normalidade ali se restabeleceu, embora o saber das pessoas e as contracondutas de luta por direitos busquem ter visibilidade para produzir uma verdade que demonstre o contrário9.
Valencio, Siena e Marchezini (2011), ao regressarem, em julho de 2011, nos municípios atingidos de Ilhota/SC, Barreiros/PE, União dos Palmares/AL e Teresópolis/RJ para estudarem as dimensões objetivas e simbólicas de afetação de grupos sociais em desastres, identificam que, embora existam diferentes tipos de abandono, a condição de abandonado é uma narrativa comum na fala dos sujeitos, e pode ser caracterizada, dentre outros aspectos, por uma dessassistência social paulatina por parte do Estado, pela continuidade da vivência – às vezes por meses e anos – em condições insalubres em abrigos temporários ou acampamentos de desabrigados, pela insegurança física, social e emocional, pela invisibilidade social, pela descrença no poder público etc. O que se pode depreender de tal pesquisa é
9Em cenários de desastres, essas contracondutas, resistências e mobilizações coletivas têm se
organizado cada vez mais por meio da criação de movimentos sociais e associações de vítimas. Durante o incêndio na boate Kiss em Santa Maria/RS em janeiro de 2013, no qual mais de duzentas vidas foram ceifadas, familiares e amigos das vítimas criaram uma associação para cobrar justiça frente a este desastre tecnológico. O desastre tecnológico envolvendo o césio 137, ocorrido em setembro de 1987 em Goiânia/GO, também motivou a criação da Associação das Vítimas do Césio 137 (AVCésio). No caso do desastre relacionado às chuvas no Vale do Itajaí/SC em novembro de 2008, vítimas organizaram a Associação dos Desabrigados e Atingidos da Região dos Baús (Adarb). No caso do desastre da região Serrana do Rio de Janeiro, em 2011 foram criadas a Associação das Vítimas das Chuvas do dia 12 de janeiro (AVIT) e a Associação de Moradores do Vale do Cuiabá. Nacionalmente, para o caso de desastres relacionados aos perigos hidrometeorológicos, tem-se o Movimento Nacional dos Afetados por Desastres Socioambientais (MONADES).
que o desastre tem uma continuidade ou pode ser nominado como pós-desastre, dependendo do ponto de vista dos sujeitos que estão envolvidos no campo de forças. No âmbito da literatura crítica dos estudos sobre desastres, cada vez mais se tem criticado o uso do termo pós-desastre, uma vez que se considera que o desastre não é o agente causador de danos, mas sim a forma como se nomina o resultado de uma situação considerada socialmente como danosa que se prolonga no espaço e no tempo. Dessa forma, o uso do termo pós-impacto tem emergido na batalha discursiva para se referir ao período que sucede à ação de uma determinada ameaça natural (inundações, deslizamentos etc.) sobre um território.
Na literatura internacional, há uma grande variedade de termos e definições para se referir ao conjunto de ações realizadas nesse período do pós- impacto. Entre estes termos incluem-se reconstruction (reconstrução), restoration (restauração), rehabilitation (reabilitação) e recovery (recuperação). Reconstrução enfatiza quase que exclusivamente a reconstrução de infraestruturas físicas destruídas e danificadas em um desastre. Restauração aparenta ser um estado em que se busca restabelecer prioritariamente padrões físicos e sociais existentes no pré-impacto. Reabilitação também parece sugerir uma restauração, só que mais das pessoas do que das coisas. Recuperação, por sua vez, implica a tentativa de trazer e/ou o ato de trazer a situação do pós-impacto a algum nível de aceitabilidade, e que pode ser ou não ao mesmo nível da situação social do pré-impacto (DYNES; QUARANTELLI, 2008; NATIONAL RESEARCH COUNCIL, 2006; WU, 2003).
No âmbito do SINDEC, a Política Nacional de Defesa Civil (BRASIL, 2000) adota o conceito de reconstrução, definindo que a referida fase do desastre tem por objetivo restabelecer em sua plenitude os serviços públicos, a economia da
área, o moral social, o bem-estar da população (BRASIL, 2000). A referida PNDC prevê o Programa de Reconstrução (PRRC), constituído por dois subprogramas, a saber: 1) o subprograma de recuperação socioeconômica; e, 2) o subprograma de reconstrução da infraestrutura de serviços públicos.
O subprograma de recuperação socioeconômica inclui dois projetos: 1.1) de realocação populacional e de construção de moradias para populações de baixa renda; e, 1.2) projetos de recuperação de áreas degradadas. O projeto de realocação e de construção de moradias prevê que as ações de reconstrução busquem interagir com as ações de prevenção, identificando áreas que sejam menos suscetíveis a ocorrência de novos desastres. Para tanto, é de responsabilidade do governo municipal a provisão de terrenos necessários à construção dessas moradias, a prévia urbanização da área com construção de infraestrutura básica de saneamento e eletrificação, o encaminhamento do projeto da construção das unidades habitacionais e a relação das famílias que serão contempladas, e, por fim, legislar sobre a distinção e o uso e a posse desses terrenos, definindo que o domínio sobre tal será concretizado após cinco anos de residência comprovada no local. Ao Sistema Nacional de Defesa Civil caberá, como contrapartida, o fornecimento de cestas básicas de materiais de construção para que a própria comunidade possa participar do mutirão de obras (BRASIL, 2000).
O outro projeto previsto nesse subprograma, relativo à recuperação de áreas degradadas, delega a coordenação aos órgãos de administração do meio ambiente e o SINDEC, quando solicitado, poderá apoiar as atividades por meio da Coordenadoria Municipal de Defesa Civil. A Política Nacional de Defesa Civil (PNDC) considera que tais ações de recuperação “devem buscar a reordenação do
ambiente primitivo” (BRASIL, 2000, p.24), daí a importância de se considerar o microzoneamento, a adequação do uso do espaço geográfico em função das vocações ambientais, a previsão de áreas de proteção ambiental, o controle dos efluentes industriais, a proteção dos mananciais e a definição de áreas non- aedificandi.
O outro subprograma previsto no Programa de Reconstrução (PRRC) é o relativo à reconstrução da infraestrutura de serviços públicos. O princípio da reconstrução com interação com medidas de prevenção também é enfatizado, incluindo a modernização das instalações e o reforço das estruturas danificadas, como também a reconstrução de edificações destruídas em áreas não suscetíveis a desastres.
Identifica-se que no Programa de Reconstrução (PRRC) da Política Nacional de Defesa Civil, enfatizam-se discursos que versam sobre a reconstrução física de infraestruturas tanto públicas (serviços públicos) quanto privadas (moradias para populações de baixa renda), isto é, de ações voltadas aos impactos físicos, de substituição daquilo que se perdeu. Referem-se à reconstrução de coisas mas não a recuperação das pessoas e das rotinas que compõem o lugar.