• Sonuç bulunamadı

6. SONUÇLAR VE ÖNERĠLER

6.2 Öneriler

Essa etapa do desenvolvimento emocional poderá ser alcançada por meio de uma conquista pelo bebê, mediante o desenvolvimento favorável do

período anterior e primitivo do processo maturacional. A aquisição dessa etapa do crescimento emocional é definida, em média, pela idade do desmame do bebê, em algum momento durante a segunda metade do primeiro ano de vida.

Esse estágio do desenvolvimento psíquico é aquele em que o bebê, no âmbito da saúde mental, pôde se tornar uma unidade, dotado de um interior e um exterior, pelo encontro com um ambiente que se apresentou suficientemente bom nos primórdios do crescimento emocional e que se mantém para o contínuo processo evolutivo.

Segundo Winnicott (1967/1990), instala-se a percepção de um Eu e de um Não-Eu; o seio agora é visto como parte de uma pessoa, um outro além do bebê. O relacionamento pode ser apresentado, pois agora existem dois: o bebê e o objeto.

Ainda nessa etapa, a participação da mãe, de forma sustentadora e favorável, irá facilitar a resolução dessa etapa do desenvolvimento. Winnicott (1954-1955/2000:356) escreve:

A técnica materna permite que o amor e o ódio coexistentes no bebê se distingam um do outro, e que em seguida venham a se inter-relacionar e tornem-se gradualmente controláveis a partir de dentro, de um modo que chamamos de saudável [...] É aqui que iremos encontrar a origem da capacidade para a ambivalência.

O desenvolvimento satisfatório dessa etapa é a integração gradual entre os aspectos de tranqüilidade de relacionamento com os de excitação, de modo que ambos os estados possam constituir uma relação total com a mãe. Winnicott (1967/1990:89) descreve:

[...] a Posição Depressiva no Desenvolvimento Emocional, um estágio importante que envolve o bebê em sentimentos de culpa, levando-o a preocupar-se com os relacionamentos, em razão de seus componentes instintivos ou excitados.

O bebê poderá ser incapaz de suportar, sem a presença contínua da mãe, o reconhecimento de que idéias agressivas contidas no amor instintivo

primitivo estão dirigidas à mesma mãe, aquela de estados tranqüilos residentes na dependência absoluta. Essa capacidade do bebê se constitui gradualmente pela “sobrevivência da mãe” a seus ataques instintivos.

Depois de repetidas vezes, por isso a importância da continuidade dos cuidados maternos favoráveis, o bebê passará a suportar a culpa e confiar no ambiente, e assim tornar-se livre para viver o amor instintivo, com a capacidade para fazer reparações.

A falta de sustentação da mãe nessa etapa do desenvolvimento emocional poderá prejudicar ou dificultar o processo maturativo do bebê, resultando na inibição dos instintos e no empobrecimento da personalidade, além da incapacidade para sentir a culpa e, conseqüentemente, de fazer reparações e restituições. Também a capacidade de amar poderá ser prejudicada concomitantemente com a impossibilidade de se preocupar com o objeto amado.

Um aspecto importante nessa etapa do desenvolvimento diz respeito ao bebê poder ser capaz de reconhecer os fatores agressivos e destrutivos presentes no amor instintivo e principalmente as fantasias inerentes, pela ação de experiências da reparação e restituição.

Atrelada a essa discussão, passamos a focalizar a destrutividade (1968/1975/1994) sob a perspectiva winnicottiana: “O impulso destrutivo é que cria a qualidade da externalidade”. No artigo “O uso de um objeto e relacionamento através de identificações” (1968/1975), Winnicott articula sobre a expansão do conceito de relacionamento com o objeto até a

constituição de seu próprio uso;22 este último vem a facilitar o

reconhecimento, pelo bebê, das discriminações entre fatos e fantasias, as diferenças entre a realidade interna e a externa.

Focalizemos assim o conceito de destruição sob a ótica winnicottiana. Pela decorrência do processo de maturação, Winnicott (1969/1994) conceitua a destruição como a primeira pulsão “combinada amor-conflito”.

22 Winnicott (1969/1975:130) comenta sobre o “uso” não significar “exploração”, e sim um meio importante para o alcance do processo evolutivo. O autor, paralelamente, transpõe essa importância do uso do objeto para o processo analítico. O paciente poderá usar o analista e este, por sua vez, sobreviver a sua destrutividade; caso contrário, afirma o autor, a análise se constituirá interminável.

Winnicott (idem:190) afirma que essa pulsão destrutiva “nada tem a ver com a raiva pelas inevitáveis frustrações associadas ao princípio da realidade”.

Essa pulsão será destrutiva ou não dependendo de como se apresentar o objeto. Caso o objeto “sobreviva” às experiências instintivas do bebê, isto é, não reagindo a elas, considera-se então que não houve destruição, mas a fantasia de destruição, de ter destruído e danificado o objeto. A sobrevivência do objeto é propiciada pela ação suficientemente boa da provisão ambiental. O objeto que não reage e permanece constante, sem retaliar, conduzirá, assim, para seu uso. As fantasias de destruição, por sua vez, representam a base para o brincar como reparação. Assim, a construtividade é conquistada pela destrutividade.

Por outro lado, essa pulsão será destrutiva, de fato, no momento em que encontrar a reação ou retaliação ambiental, em que o objeto é, portanto, destruído. A reação do objeto torna-se a realidade do próprio impulso destrutivo, cuja experiência da fantasia destrutiva não poderá ser experimentada.

Ainda sobre as noções de uso de objeto, destacamos as diferenciações entre os conceitos de uso de objeto e relação de objeto, as quais são empregadas segundo as etapas do desenvolvimento humano. Assim, ao pensar na evolução do processo maturativo, inicialmente como objeto subjetivo, apresenta-se o relacionamento com o objeto; seqüencialmente, é no momento em que o objeto é objetivamente percebido que poderá conduzir a seu uso, evidentemente pela interação com um ambiente suficientemente bom.

Essa passagem percorrida da subjetividade à objetividade, focalizada anteriormente, é descrita por Winnicott (ibidem) como um momento extremamente crucial e mais difícil, intrínseco ao processo do desenvolvimento humano, pois entre o relacionamento e o uso de um objeto o bebê deverá colocar o objeto fora da área de seu controle onipotente, o que indica a percepção de um objeto como fenômeno real, e não como projeções; dessa maneira, cria-se um mundo de realidade compartilhada.

Portanto, a destruição, assim focalizada, desempenha um papel positivo e crucial para a criação da realidade. Cria-se um mundo de realidade compartilhada em que o sujeito poderá conquistar o uso do objeto, aquele percebido como o “diferente-de-mim”.

Ancorada no aspecto de que, por meio da ação do impulso destrutivo num ambiente favorável, pode-se criar a qualidade da externalidade, o autor aborda a temática sobre as raízes da agressividade (1939/2002; 1964/1982, 2002), o que será focalizado a seguir. Assinalamos antecipadamente, porém, que a teoria clássica ortodoxa descreve que a agressividade é reativa ao encontro com o princípio da realidade, de modo que, no postulado winnicottiano, nessa etapa do desenvolvimento não há raiva na destruição do objeto; também por sua “sobrevivência” às experiências instintivas do bebê, o objeto poderá ser sempre destruído na fantasia, o que contribuirá para a constância objetal (1968/1994).

Incluímos então, de importância similar ao conceito de destrutividade, a contextualização da agressividade,23 à luz da ótica winnicottiana.

Winnicott (1950/2000), em seu artigo “A agressividade em relação ao desenvolvimento emocional (1950)”, desenvolve suas idéias sobre as raízes da agressividade. A agressividade é compreendida sob dois aspectos: quando é sinal de saúde mental e quando é sinal de doença, esta última por causa da interação com um ambiente deficitário.

No primeiro momento, a agressividade pode ser compreendida como força vital: a agressividade ao estar integrada ao erotismo muscular busca a satisfação dos impulsos, que poderá levar à descoberta do ambiente. Esse movimento de descoberta da externalidade é impulsionado pela ação da agressividade. Esse momento decorre na fase inicial do desenvolvimento humano, o qual, por meio da interação da agressividade com um ambiente satisfatório, poderá favorecer o reconhecimento de um mundo Não-Eu. Assim, Winnicott (idem:304) escreve: “é esta impulsividade e a agressividade

23 Focalizamos mais extensamente os conceitos de destrutividade e agressividade porque estão atrelados significativamente à dinâmica psíquica do gêmeo Mathias, sobre a qual discorremos no capítulo VI do presente estudo.

que dela deriva que levam o bebê a necessitar de um objeto externo, e não apenas de um objeto que o satisfaça”.

Ainda na esfera da saúde, no período inicial do desenvolvimento emocional, a agressividade está fazendo parte do amor, pois o bebê ainda não reconhece que o que se destrói quando excitado é o que se ama na tranqüilidade. Por outro lado, no momento posterior do desenvolvimento, o bebê, já diferenciado de um outro, por apresentar a capacidade de sentir a culpa, tornar-se-á capaz de reparar, e assim a agressividade poderá se transformar em funções sociais. O que, então, favorece ao indivíduo reconhecer a destrutividade, repará-la e seguir com a integração, o que facilitará, assim, a construção da base do brincar e do trabalho.

Portanto, a agressividade nessas condições de saúde se constitui, segundo Winnicott, como fonte de energia de um indivíduo, o que possibilitará a expressão criativa.

O segundo aspecto da agressividade, no foco da doença, fruto da interação com um ambiente não satisfatório, refere-se a reações à frustração. Nesse aspecto, ocorre que, no início do desenvolvimento emocional, pela ação desfavorável do ambiente, as intrusões podem se apresentar e, em vez de o bebê poder descobrir a externalidade por meio de sua força vital, é o próprio ambiente que se impõe, vindo a inibir essa força e se constituir em reações contra as intrusões ambientais. O movimento é reativo, um desenvolvimento baseado na experiência de reações: “encontraremos uma vida de agressividade reativa dependente da experiência de oposição”, e também “faltam-lhe raízes no impulso pessoal motivado pela espontaneidade do ego”. (WINNICOTT, 1950/2000:303-302)

Nas condições apresentadas, revela-se a falta de integração dos elementos agressivos, proveniente de uma interação deficitária com o ambiente. Winnicott (ibidem:304) escreve:

Muitos bebês, no entanto, possuem um potencial de agressividade maciço que deriva das reações à intrusão, e que virá a ser deflagrado pela perseguição. Na medida em que esta é a verdade, a criança ansiará pela perseguição, e se sentirá real ao reagir a ela. Mas isto representa uma forma falsa de desenvolvimento, pois essa criança precisará constantemente

de uma perseguição. A quantidade desse potencial reativo não depende de fatores biológicos (que determinam a motilidade e o erotismo), mas de uma intrusão ambiental determinada pelo acaso, e, portanto das condições psiquiátricas da mãe e das características do seu ambiente.

Ao focalizar o crescimento do mundo interno, ainda nos moldes da doença, Winnicott (ibidem) destaca como importante fonte do comportamento agressivo o relacionamento com a externalidade, quando se compõe por perseguidores; haverá a necessidade da agressão como forma de relação, cujas projeções revelam que a “maldade” está na externalidade e não internamente. Ou, ainda, o movimento de expulsão daquilo que poderia ser classificado como ruim presente no mundo interno.

Winnicott (ibidem) sintetiza:

A administração dos fenômenos do mundo interno [...] torna- se por vezes tão difícil que ele põe em ação um controle total – em conseqüência clínica é um humor depressivo. Isto leva a um estado intolerável de morte interna. Pode ocorrer então um quadro maníaco24 complementar. Nesse estado a

vivacidade do mundo interno toma conta e impulsiona a criança, que pode tornar-se violentamente agressiva sem que haja um estímulo externo claramente perceptível.

Assim, finalizamos destacando que o alcance da posição depressiva é necessário para que a criança possa, então, rumar aos relacionamentos triangulares posteriores, como as vivências edípicas. Encerramos nos valendo do apontamento de Aiello-Vaisberg (2004:77):

Para Winnicott o ser humano é indivíduo e não uma sobreposição de corpo e mente, indivíduo que não está aí apenas para a sobrevivência da espécie, mas para usufruir a vida, para viver criativamente, o que deriva necessariamente da ilusão criativa original a qual, mais tarde, dará origem, paradoxalmente, à possibilidade de ação concreta sobre o mundo.

Neste tópico contemplamos a riqueza dos cuidados maternos iniciais, à luz dos pensamentos winnicottianos, como base sustentadora para o crescimento evolutivo da criança, propagando-se para uma saudável vida

24

Winnicott complementa que essa fase de mania se diferencia do conceito de defesa maníaca de M. Klein, pois nesse caso há uma explosão de agressividade e violência, que não é tão enfatizado nos conceitos kleinianos.

emocional futura. Assim, é impossível não considerar a importância da participação da figura materna durante o processo evolutivo da criança.

O presente estudo é sobre duas crianças, gêmeas, que não foram sustentadas por uma figura materna permanente que os auxiliasse durante os momentos que fundamentalmente requeriam a presença constante dos cuidados maternos suficientemente bons.

Embora tendo focalizado a grandeza do processo evolutivo calcado pela interação com um ambiente suficientemente bom e, portanto, provedor, este estudo foi construído a partir de retratos emocionais de gêmeos que experimentaram o rompimento com a figura materna e seu lar ainda em estágios precoces de seu desenvolvimento não sendo, dessa forma, sustentados por um ambiente satisfatório.

Portanto, tendo em vista sustentar a temática deste nosso estudo, apresentamos o capítulo II, cuja abordagem é constituída pela análise da criança separada da figura materna e de seu lar no período precoce de vida; destacamos ainda os efeitos negativos para a constituição do desenvolvimento humano, inferindo danosamente em seu andamento, e retratamos algumas considerações sobre a problemática do abrigamento de crianças.

“... É necessário considerar a impossibilidade de uma destruição completa da capacidade de um indivíduo humano para o viver criativo, pois, mesmo no caso mais extremo de submissão, e no estabelecimento de uma falsa personalidade, oculta em alguma

parte, existe uma vida secreta satisfatória, pela sua qualidade criativa ou original a esse ser humano”. (WINNICOTT,

1968/1975:99)

CAPÍTULO II – A CRIANÇA ABRIGADA:

Benzer Belgeler