Quando é posta em evidência a dificuldade de se avaliar o que é variável, fica claro que no exemplo utilizado, a relação de grandeza ou pequenez entre Símias, Sócrates e Cebes (expressa na relação de maior e menor), o que se avalia não é a dupla característica das formas. Uma forma não pode ter sentidos opostos. Uma forma não pode dizer algo e o seu contrário ao mesmo tempo. Ela necessariamente deve corresponder ao princípio de identidade expresso pela formulação A=A.
A temática da oposição é recorrente em todo o diálogo. Começa quando Sócrates opõe a alma ao corpo, perpassa os opostos sensíveis e culmina na separação para distinção entre os sensíveis e os inteligíveis. Sendo assim, esta temática torna-se nuclear para o desenvolvimento da argumentação, apesar de não ser imediata e visível sua ligação com a reminiscência.
Verificar a possibilidade de dizer o sensível nos coloca diante de um problema ao qual Platão está bastante interessado. Prova disso é seu esforço para exemplificar a questão na parte final do Fédon. Ele propõe que analisemos a questão a partir de uma hipótese, qual seja: a hipótese das formas. Ao buscar as formas como modo de explicação das mudanças sensíveis nos deparamos com um paradigma que permite analisar as relações entre os sensíveis.
Vemos que a reminiscência não pode ser dispensada de forma alguma na epistemologia platônica, de modo especial no Fédon. Pois ela é condição sem a qual não se explicam as formas. Portanto, para que possamos explicar alguma diferença ou semelhança entre as coisas, necessitamos desse referencial invisível ao qual Platão chama de Formas.
Ao chegarmos aqui, podemos aferir a dificuldade em separar as noções de reminiscência, formas e participação. Todas elas estão de algum modo interligadas, e por isso mostram ser co-explicativas. A separação deve obedecer a uma necessidade pedagógica e analítica, tendo em vista que precisamos compreender as partes e o todo.
O que é chamado de grandeza relacional possibilita reconhecer em objetos distintos as suas diferenças ou semelhanças, de um em relação ao outro. Mas estas diferenças ou semelhanças são mediadas por uma idéia, e é esta que permite identificar neles a diferença ou semelhança. O exemplo utilizado é o da comparação entre Sócrates, Símias e Cebes.
Sócrates nega a explicação a partir dos opostos, afirmando que seria um erro dizer que é do mais alto que provém o mais baixo e do mais baixo que provém o mais alto (Fédon,
103 a). Portanto, ele critica a recordação dessa explicação que foi eficiente quando se tratava
de dar conta de outra questão:
É corajosa a lembrança... Só que não medes a diferença entre os nossos termos de então e os de agora. Então dizíamos com efeito, que uma coisa oposta tem origem na que lhe é oposta; agora, que o oposto em si mesmo jamais poderá tornar-se no seu oposto, tanto o que existe em nós como o que existe na natureza (Fédon, 103 b).
É isso que permite explicar porque Sócrates pode ser em relação a Símias, menor, e em relação a Fédon, maior. Não é que ele seja maior e menor ao mesmo tempo, mas quando associado a um, torna visível sua participação na grandeza, e quando associado a outro torna visível sua participação na pequenez.
Verifica-se então que uma forma não se torna em modo algum no seu oposto. Não é possível que a forma do menor se torne maior, e a forma do maior se torne menor. O que ocorre é a saída de uma forma para que atue a outra. Deste modo, averiguamos que quando falamos que Sócrates é menor em relação a Símias e maior em relação à Cebes, estamos falando de uma mudança que ocorre num indivíduo quando relacionado a outro, mas não se dá o mesmo quando ligamos uma forma a outra. As formas não mudam, permanecem sempre estáticas. Assim sendo, elas são os paradigmas da compreensão da realidade.
O oposto em si mesmo jamais se torna o seu oposto. Retomando a questão verificamos a noção de predicação, no que se refere à compreensão da realidade. Isto quer dizer que, a compreensão da realidade necessita de uma forma de análise. E como já ficou demonstrado, esta não pode ser meramente descritiva, deve obedecer a critérios. Tais critérios são de fato as formas, entendidas como aquilo que permite conferir unidade à pluralidade de indivíduos de uma mesma espécie (ROGUE, 2007, p. 77ss).
A aparente confusão presente em 103 a é resolvida em 103 b a partir da explicação de Sócrates. A pergunta é a de como entender as formas, se elas mudam? Tal pergunta não é eficiente, tendo-se em vista que as formas não mudam. O que muda são as coisas, e as formas nas coisas. Aquilo que é oposto em si mesmo jamais pode tornar-se o seu oposto.
Os exemplos sensíveis dessa relação são dados no passo 103 d pela relação fogo e neve. De modo que, se a neve acolher o fogo, deixará de ser neve, posto que não pode haver fogo e neve como uma e mesma coisa. Em suas palavras: “Como também o fogo, quando avança na sua direção, ou escapa ou perece; mas o que não pode jamais tolerar é, depois de acolher o frio, continuar a ser fogo como antes, ou seja, um fogo frio” (Fédon, 103 d).
Assim sendo, não é apenas a forma em si mesma que não pode suportar o seu oposto. As coisas também, mesmo não sendo idênticas às formas, não suportam o seu oposto. Ou seja, quando entra uma forma nas coisas, a forma oposta deve sair necessariamente. Uma mesma coisa não suporta duas formas contrárias na mesma relação.
Este passo nos mostra que cada coisa enquanto uma, deve manter uma unidade para a referência, ao menos enquanto não se apresenta o seu oposto. Veremos a seguir que apesar de toda a mudança dos sensíveis, deve haver algo em vista do qual as coisas aconteçam, e este algo é o Bem. Além disso, se verá também que, na busca de compreensão do que é o Bem, devemos efetuar um percurso dialético, do qual Platão não abre mão em seus diálogos.